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08/06/2006 às 08:57
Praça Nestor Alves Ribeiro
 
Nestor Alves Ribeiro foi o sujeito mais popular do centro da cidade no final do século XX. Todo santo dia ele acordava bem cedo, lia os jornais, pendurava meia dúzia de crachás na camisa, pegava o Cássio Rezende e descia na Praça Rui Barbosa. Seu Nestor postava-se então em frente ao ponto de ônibus, arregalava os olhos e desembestava-se em longos e labirínticos discursos, expelindo toda a sua indignação contra a estupidez dos políticos. No fim da tarde, pegava o coletivo e continuava discursando até descer no ponto próximo à sua casa, no bairro Santa Marta.
Em seus delírios, seu Nestor considerava-se um político importante. No entanto, andava de ônibus e fazia questão de pagar a passagem – mesmo tendo o direito de, por causa da idade, obter passe-livre. Ele dizia que “homem público tem o dever de pagar suas despesas”. Seu Nestor já morreu há cinco anos; mas algum romântico já sugeriu que, lá no centro da cidade, se atentarmos os ouvidos, ainda podemos ouvir, bem baixinho, um eco de sua voz, dizendo coisas como: “Homens públicos deveriam apenas usar serviço público, porque assim sentiriam na pele o atendimento que a população recebe. Todo político deveria ser proibido de andar em carro próprio. Se o transporte público não presta para ele, porque presta para a população?”
Que tal? Imagine a revolução na qualidade dos serviços públicos se os políticos fosse obrigados, por lei, a usá-los quando necessitassem de atendimento! Já pensou? Imagine o prefeito Anderson Adauto na fila do postinho mais próximo para tratar sua dengue, porque estaria proibido, por ser o chefe do executivo, de consultar um médico particular? Imagine o Tony Carlos, o Borjão e outros vereadores chegando na Câmara pontualmente, de ônibus, tendo que comprar vale-transportes com dinheiro do bolso? “Filhos de políticos deveriam ser obrigados a freqüentar grupos escolares”, continua a sussurrar a alucinada alma penada de Nestor.
Nosso orador dizia também que “muitos dos vereadores que lá estão não deveriam estar lá, porque entraram sem prestar concurso público”. Uma beleza, não? Imagine se os políticos fossem obrigados a fazer um exame de qualificação, com questões sobre a história da cidade, sobre a geografia dos bairros e sobre a lei orgânica do município. “Se até para dirigir um carro temos que fazer prova de legislação, para dirigir a cidade seria preciso muito mais provas!”, diria seu Nestor.
A área central de Uberaba era conhecida no século XIX como “Largo da Matriz”, mas depois foi rebatizada como “Praça Rui Barbosa” para homenagear o célebre baiano republicano. Agora, no século XXI, está chegando a hora de festejar o cidadão uberabense que mais politizou a praça no final do século XX, transformando o centro da cidade em um local de discussão pública. Logradouros cumprem papéis históricos, e o nome atual da praça já deu o que tinha que dar. Portanto, uberabenses: uni-vos! Que praça Rui Barbosa que nada! Viva a praça Nestor Alves Ribeiro!

André Azevedo da Fonseca é professor na Universidade de Uberaba (Uniube)
 
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