Somos uma nação de analfabetos. Segundo pesquisas do Instituto Paulo Montenegro, que realiza o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), apenas 26% dos brasileiros entre 15 e 69 anos são plenamente alfabetizados. Ou seja, de cada quatro pessoas, três não sabem ler direito. São mais de 80 milhões de jovens e adultos com dificuldades para desenvolver-se socialmente porque não são capazes de interpretar textos, relacionar idéias e escrever fluentemente. É assustador observar que, em pleno século 21, a falta de aptidão na leitura e escrita ainda acorrenta as possibilidades de desenvolvimento em nosso país.
O conceito de analfabetismo tem sido tema de sérias discussões nos últimos anos. No final da década de 1950 a Unesco definia como alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever algo simples, relacionado à sua vida diária. No entanto, a partir de fins dos anos 1970 a organização passou a adotar o conceito de analfabetismo funcional para designar aqueles casos em que o indivíduo, mesmo conseguindo ler pequenas frases, não possuía as habilidades necessárias para satisfazer as demandas de seu crescimento pessoal e profissional. Isso foi um reconhecimento de que a alfabetização não é um mero acessório da vida em sociedade, mas um instrumento de integração econômica e social.
Dessa forma, além do analfabeto incapaz de decodificar palavras, observa-se atualmente três níveis de alfabetização. No nível 1, chamado de alfabetização rudimentar, as pessoas são capazes de localizar apenas informações explícitas em textos curtos: frases em cartazes, expressões em placas e datas em calendários. Já no nível 2, chamado alfabetização básica, o indivíduo consegue deduzir informações em textos curtos, como cartas, manuais de instrução, textos publicitários e notas de jornal. Na pesquisa realizada em 2005, o Inaf mostra que 7% dos brasileiros são analfabetos; 30% estão no nível rudimentar; e 38% no nível básico. Finalmente, o nível 3, considerado alfabetização plena, corresponde à capacidade de ler textos longos e de interpretar informações complexas, relacionando trechos, comparando idéias e realizando deduções, generalizações e sínteses. Estes são os 26% da população.
O moderno conceito de analfabetismo funcional é bastante adequado para medir a urgência do investimento em educação visando o desenvolvimento social. Pesquisas mostram que há estreita correlação entre nível de escolaridade e qualidade de vida. Pessoas mais educadas têm desenvoltura para enxergar oportunidades, alcançam melhores empregos e conquistam maiores salários. Elas concebem melhores projetos, articulam questões com mais perspicácia, são mais produtivas, criativas, eficientes e participam da vida econômica da sociedade de forma mais integrada. Não é à toa que, na imprensa atual, a educação está sendo discutida sobretudo nos cadernos de economia.
A cada dia percebe-se com mais clareza a urgência de se pensar os programas de educação como estratégias fundamentais nas políticas de desenvolvimento sustentável e de distribuição de renda. Direcionar os esforços nesse sentido é uma decisão política; ou seja, uma questão de escolha de prioridades. Somente uma população altamente escolarizada será capaz de desenvolver com liberdade, igualdade e autonomia um grande projeto coletivo para o país. Uma nação de 80 milhões de analfabetos estará fatalmente condenada ao fracasso.
André Azevedo da Fonseca é professor da Universidade de Uberaba |