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Opinião

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Complexo de vira-lata. Será mesmo?

15/07/2017

Carlinhos Sete

 

Ontem à tarde, enquanto fazia algumas pesquisas – sim, eu adoro pesquisas. Acredito que você já notou isso –, me deparei várias vezes com a expressão “complexo de vira-lata” e fiquei instigado a ler os textos em que elas estavam.  Na maioria deles, os embates eram acirrados e as discussões acaloradas.

Antes, porém, de tecer minha experiência no assunto, vamos à origem dessa expressão. Ela foi criada por ninguém menos que Nelson Rodrigues, referindo-se ao trauma sofrido pelos brasileiros em 1950, quando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai na final da Copa em pleno Maracanã – Pois é... Pra você que é novo ou de alguma forma desinformado, não sofremos em casa apenas com o famigerado 7X1 da Alemanha... – e a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente em face do resto do mundo. Segundo ele, o brasileiro é um “narciso às avessas, que cospe na própria imagem”. O escritor ainda enfatiza na conclusão: “Eis a verdade: Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

Não faz muito tempo eu estava em um desses botecos de Uberaba, frequentado pelas mais variadas classes sociais e políticas quando ouvi esse assunto ser abordado. Como bom curioso que sou, sentei-me de camarote e me pus a ouvir as mais variadas opiniões enquanto os defensores de ideias bradavam em meio a goles de cerveja.

De um lado, alguns diziam que o Brasil estava longe de ser respeitado internacionalmente por qualquer país, uma vez que as notícias que saem daqui relatam apenas sobre carnaval, futebol ou desastres naturais – ah, e corrupção, claro –, sendo não apenas um país que sofre pelo abandono político, mas merece isso, já que existe uma verdadeira veneração por tudo que é proveniente do estrangeiro. Para estes, bastava uma única oportunidade para sair das terras tupiniquins sem olhar pra trás.

Por outro lado, alguns defendiam que o Brasil tem tudo o que os outros países gostariam de ter, e que por mais problemas sociais encontrados, nenhum lugar se comparava à beleza brasileira, seja na terra ou nas pessoas, especialmente as mulheres. Ah, as mulheres... Divagavam.

Aquela conversa durou mais de hora, passando pelos mais variados argumentos. Trânsito, comprometimento das pessoas, maneira de se vestir e falar, comida, burocracia, corrupção, mais corrupção, educação e saúde – e a falta deles – e por aí foi...

Enquanto via os grupos quase se digladiando, prestei atenção em tudo o que eles disseram e comecei a refletir. Será culpa da mídia, que enfatiza ou superioriza a cultura estrangeira? Ou nossa, que temos a opção de consumi-la ou não? Será que somos mesmos inferiores ou apenas não vemos os defeitos dos outros? Será que não temos nada de bom a oferecer ou não sabemos valorizar o que temos?

O fato é que fiquei sem respostas. Assim como aqueles ébrios filósofos de boteco que entendem de tudo. Uma resposta para tais questionamentos não é tão simples assim, acredite. Aliás, foi essa a sensação que tive quando li os textos que citei lá no começo. No meu entender, se acaso exista mesmo tal complexo, ele só vai se extinguir no momento que o brasileiro souber usar o potencial que tem. A começar por deixar de lado o chamado “jeitinho brasileiro”... E pra você, o “complexo de vira-latas” existe ou é papo furado?

 

Carlinhos Sete – Cronista, escritor e entrevistador. Também
é autor do livro “Crônicas do incorrigível Jesse”