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Em Questão

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Décio Bragança 04/06/2017
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em questão

Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

Onde está você? Se o sol morrendo te escondeu... Onde ouvir você? - A produção não é e nunca foi feita para responder às necessidades do mercado. A produção é e sempre foi feita para criar mercados de necessidades, mesmo que sejam artificiais, inúteis, medíocres, atendendo simplesmente às exigências de produção. Aqui, vai uma crítica aos publicitários que estimulam o consumo.

 

Se a sua voz a chuva apagou, onde buscar, se o coração bater de amor para ver você - Há, hoje, objetos produzidos de tal forma que se estragam com facilidade e que não têm conserto. Exemplos: lâmpadas, alimentos, celulares, computadores que cada vez duram menos. Objetos descartáveis como meias de nylon que depois de desfiadas são inúteis.

 

Hoje a noite não tem luar, eu não sei onde te encontrar para dizer como é o amor que eu tenho pra te dar - Há, hoje, no mercado, objetos produzidos de tal forma que, passados alguns meses, tornam obsoletos, antiquados, demodês, criando a necessidade de substituí-los por outros de última geração. Exemplos: roupas, automóveis, eletrodomésticos, que não são aperfeiçoados no plano estético ou funcional, mas simplesmente porque ficam rapidamente fora de moda, criando até uma rejeição psicológica.

 

Vem depressa de onde está. Já é tempo de o sol raiar, meu amor que é tanto não pode mais esperar - Certa vez, conversando com um estilista, um costureiro de renome internacional, escutei dele o porquê do encurtamento das saias das mulheres, dizia que a curta, além de mais cara, obriga as mulheres a comprarem cosméticos, fazerem ginástica e malhação – uma forma de estimular o consumo, cada vez mais desenfreado.

 

Passa o tempo tão devagar, madrugada é silêncio e paz e a manhã que já vai chegar, onde te despertar? - Há inúmeros desfiles de moda e salões de automóveis com uma única intenção: colocar as roupas e carros o mais urgente fora de moda. Facilmente, percebe-se o absurdo das inovações dos automóveis. Aumentam-se alguns cavalos e o carro ultrapassa os 200 quilômetros por hora. As leis, em vigor, proíbem uma velocidade superior a 80 quilômetros e m quase todas as rodovias e a 110 em algumas poucas. Que incoerência! Que absurdo!

 

Hoje a noite não tem luar, eu não sei onde te encontrar para dizer como é o amor que eu tenho pra te dar - A publicidade, os comunicadores da propaganda, do marketing, são os “culpados” pela inutilidade e futilidade e mediocridade dos produtos, assim como nas campanhas políticas. Os produtos poderiam ser barateados, caso as empresas não investissem tanto em publicidade – essa técnica da mentira, da massificação, dos condicionamentos. Assim, a publicidade vai estimulando as glândulas salivares, as glândulas sexuais e todas as glândulas e sentidos, além de fazer pressão política sobre os jornais, revistas, canais de televisão, redes sociais, estações de rádio, que sobrevivem graças a ela.

 

Vem depressa de onde está, já é tempo de o sol raiar. Meu amor que é tanto não pode mais esperar - Hoje, produz-se saber a que necessidade o produto está correspondendo. O mercado e os manipuladores do mercado é que decidirão. Isso prova que a questão do desperdício é também uma questão cultural. A cultura são as relações do homem com a natureza, do homem com os outros homens, do homem com o tempo e com o espaço, do homem com Deus. A nossa sociedade consumista, consumista inveterada e inconsciente, contamina, apodrece essas relações.

 

Onde está você? Onde ouvir você? - Há ainda um desperdício maior e que afeta diretamente nos preços e nos bolsos do consumidor que é a ação dos intermediários, safados, parasitas, sanguessugas... A manipulação de preços é feita, em geral, por atacadistas-intermediários, que têm força de combinar e decidir os preços, ganhando dos dois lados: do produtor e do consumidor. Do produtor, porque os preços não têm relação com o custo, por exemplo, do agricultor. Do consumidor, porque baixando o preço da compra do produtor, prefere perder a safra, para não perder mais. O intermediário faz escassear o produto, subindo-lhe o preço. É a famosa lei da oferta e da procura.

 

Já é tempo de o sol raiar - Havendo uma melhor distribuição de um produto, barateiam-se os preços, desprestigiando os intermediários, suprimindo essa figura do senhor feudal. Essa função poderia ser assumida por cooperativas de produtores, evitando desperdício de dinheiro e principalmente evitando a manipulação de preços. O fato é que o enriquecimento sem causa ou sem explicação é antissocial, é absurdo, é abominável, é ilegal, é desumano. A função de qualquer investimento é social e nunca individual. É possível ainda salvar o homem, salvar a humanidade.