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Em Questão

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Décio Bragança 26/03/2017
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em questão

Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem - Desde o momento em que o homem se conscientizou de que é mortal, desejou a imortalidade. Daí o medo da morte. Quase tudo é feito, criado, inventado pelos homens por causa do medo da morte. A ciência busca a juventude eterna. A indústria de cosméticos nunca teve, tem, terá crise, como se a felicidade fosse a juventude eterna. A humanidade sempre associou a imagem de Deus à imagem de animais, não sei por que. Por exemplo, os babilônicos tinham seus deuses na forma dos signos do zodíaco: Leão, Escorpião, Peixe, Touro; os egípcios tinham Hator com cabeça de vaca, Amon, Anúbis com cabeça de chacal; Ganesha, deus hindu com cabeça de elefante, Vishnuu de javali, Hanuman de macaco; os gregos representavam Zeus como touro e às vezes águia... O próprio Cristianismo representa Lucas, como boi; João como águia. Jesus foi apresentado como Cordeiro de Deus e foi representado como um Peixe. O homem é a único ser capaz de controlar por vontade própria, porque livre. O homem é a único ser capaz de reprimir os instintos, porque livre. 

 

Por que me abandonastes? - Por tradição, Deus deu ao homem-Adão o domínio sobre todo o resto da criação: “Crescei e multiplicai-vosenchei e dominai a terra” (Genesis 1, 28). A Alma imortal foi dada a esse dominador, destruidor, predador, devastador, assolador de tudo, porque ele acreditava que só ele tinha alma. A alma não é para esse domínio. A alma é vida, ânimo, animação, vivência, liberdade, experiência, Inteligência e consciência de que a alma existe e não lhe é exclusividade. O homem é livre – isso é verdade. Dizer que só ele tem consciência dessa liberdade também é verdadeiro. Dizer que só ele tem alma, não é verdadeiro. As religiões fizeram questão de separar o homem em corpo e alma. A alma estará e será para sempre, eternamente, salva e vai para o céu; ou para sempre, eternamente, desgraçada e vai para o inferno. Salvar o homem é salvá-lo por inteiro, todinho, inteirinho, completamente. Os animais, porque as religiões nos ensinaram não têm alma, estão livres dessa ordem: céu ou inferno depois da morte. Os animais, os vegetais e os homens vão se deixando nos seus descendentes, de geração em geração – é a força, energia, latência, potência, possibilidade dos gens, dos genes. Vale dizer, então, que um homem santo ou ladrão, honesto ou estúpido, genial ou bandido é construído bem antes de seu nascimento por seus ancestrais, sob o ponto de vista biológico. Nem animais, nem vegetais, nem os homens nascem sem carga biológica, genética, familiar. Não há mágica.

 

Mãe, eis aí teu filho! Filho, eis aí tua mãe! - Isso também faz parte dos planos de Deus: a evolução, a seleção natural, a luta pela sobrevivência, o exercício da liberdade. É assim também que se constrói o bem ou o mal. Mas o homem não é somente fruto dessa carga genética. Ele é ser físico, químico, biológico, psicológico, social, transcendental, individual, espiritual – tudo ao mesmo tempo, porque também não a soma disso tudo, porque também não é soma de partes. Não há partes. É inteiro, um, completo, todo, individual, irrepetível, intransferível e sobretudo livre – por isso responsável por si mesmo. Não é Deus que faz ou deixa nascer uma pessoa com má formação; fruto, por exemplo de um incesto, de um estupro, de uma suruba, de uma promiscuidade; vítima de vícios, de drogas, de pecados, de doenças; produto de enganações, de ilusões mercadológicas; objeto de submissão, de subordinação, de obediência aos muitos deuses criados por interesses e intenções dos próprios homens, de alguns poucos homens que inventaram religiões.

 

Hoje mesmo estarás comigo no paraíso! - Esse foi o momento de Deus – seus desígnios, seus mistérios, sua vontade: criou tudo e entregou tudo aos homens, a Adão – os homens como cocriadores – como nos relata o Livro do Gênesis. Deus é bondade absoluta, verdade absoluta, justiça absoluta, perfeição absoluta, misericórdia absoluta, beleza absoluta, vida absoluta – é o próprio Absoluto; para os homens tudo lhe é relativo – causas e efeitos de sua liberdade. Por isso, pecou, peca e pecará. O homem é um ser relacional. Estabelece relações – amorosas ou odiosas, por causa de liberdade – consigo mesmo, com os outros seres homens, com todos os seres vivos e não vivos, com Deus. Para a maioria das pessoas, não importa se tempo, espaço, força, energia, inteligência, vida, morte sejam absolutos ou relativos – o que é uma pena! O homem é um ser holístico – indivíduo indivisível – para ser e estar em todos os momentos e espaços. Por isso também mutável, metamorfoseável, evoluível, dinâmico, transformável e sobretudo livre.

        

Tenho sede - “O céu são os outros” – “O inferno são os outros”. Viver é, então, deixar-se nos outros para que possa lhe ser céu ou inferno. Na realidade, eu sou o outro, os muitos outros. Por isso, quero fazer morada no coração de todos os homens pra lhe ser céu, o seu céu. Células, moléculas, átomos, sem que ninguém perceba, ora se combinam e se atraem, ora se rejeitam e se separam. Com inteligência e sabedoria, com liberdade e fé, com bondade e ciência, quem sabe num dia os homens poderão entender essas combinações e separações, essas atrações e rejeições naturais, portanto criadas por Deus há bilhões de anos. O Jardim do Éden foi entregue ao homem para cuidar dele, para o seu bem e não para ser destruído. Porque livres, os homens ou muitos homens ainda não entenderam isso.

        

Tudo está consumado - As experiências de dor e prazer, de raiva e emoções, de amor e sensações, de ideias e sonhos se cruzam sem parar no tempo e no espaço. Podemos, por exemplo, ir ao Egito com suas obras faraônicas sem sair daqui – o passado. Podemos, por exemplo, ir a Marte, a Júpiter com seus anéis e luas, sem sair daqui – o futuro. As ações, as decisões, sob qualquer ponto de vista, são frutos da liberdade para o bem ou para o mal, individual e coletivo. O homem existe para si e para os outros. Assim, só é bem o que é bom para si e para os outros; só é mal o que é ruim para mim e para os outros. Se alguma coisa for boa só para si, não é bem; se alguma coisa for ruim só para si, não é mal.

 

Em vossas mãos entrego meu espírito - O pecado e a virtude são a consciência de que se faz o mal e o bem para si mesmo e para os outros. Um sádico faz muito mal à uma pessoa considerada normal. Um masoquista faz muito mal à uma pessoa considerada normal. Talvez, numa relação sadomasoquista não haja tanto mal para os envolvidos nessa relação – daí a doença que precisa de uma interferência médica externa. Ninguém, em sã consciência, gosta de apanhar. Muitos homens ainda batem, esmurram, ferem, machucam muitas mulheres e crianças – daí a doença-crime que precisa de interferência médica e jurídica. Essa é uma responsabilidade do Estado: cuidar da saúde física, mental, psicológica, espiritual das pessoas. Essa é a única razão para a existência do Estado. Por isso e para isso cobra impostos. Pois é, a liberdade é importante, mas mais importante é a consciência da liberdade que traz a responsabilidade – talvez isso seja exclusividade humana – o que faz o homem a imagem e semelhança de Deus. Além disso, é capaz de cooperar com os outros homens, por vontade, e não somente por instinto de preservação e sobrevivência. As formigas, as abelhas, os elefantes se cooperam por instinto e os homens, por vontade, porque livres até dos próprios instintos.