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Em Questão

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Décio Bragança 04/12/2016
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Pensamentos de Hannah Arendt - Estar em solidão significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solitária das atividades, nunca é realizado inteiramente sem um parceiro e sem companhia. - Basta-nos crer na Bíblia? O interessante é que temos entre nós 1.500 crenças, religiões, ministérios, seitas, denominações religiosas baseadas no mesmo texto Bíblico. Na verdade, são 1.500 interpretações. E qual é a melhor interpretação? Há ainda outra questão: lemos a Bíblia no seu original, na língua em que foi escrita? Ao traduzir qualquer texto, não há uma dose mesmo que pequena de interpretação do tradutor? Por que existem Bíblias com números diferentes de livros?  Não se encontra, por exemplo, em algumas Bíblias o livro “Judite”, o livro “Tobias”, o livro “Macabeus”, o livro “Sabedoria”, o livro “Eclesiástico”, o livro “Baruc”, trechos do livro “Daniel”, trechos do livro “Ester”? Quem tem a autoridade de acrescentar ou de tirar algum livro ou trecho de livro da Bíblia? Por que há tantas brigas de interpretações? A Irlanda já se viu dividida entre católicos e protestantes – derivados do mesmo texto bíblico. Que interesses e intenções há nessas interpretações? 

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço - Muitos ainda hoje com as melhores intenções trazem interpretações diferentes. “Sola Scriptura” – só a Bíblia, nada mais do a Bíblia, a Bíblia apenas. “Livre Exame” – todos podem ler e interpretar a Palavra de Deus, porque é tão simples e ninguém corre risco de interpretá-la erradamente. Os meus desejos, meus estados de espírito, minhas leituras e meus estudos, minhas frustrações, minhas decepções e desilusões, minha utopia e meus ideais, tudo isso interfere sobremaneira na minha interpretação de mundo e naquilo que leio. O que interpreto não é, portanto, absoluta verdade, porque eu não sou a verdade.

A suposição de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir é um elemento indispensável da dignidade humana. - O fato é que o Ocidente foi cristianizado, apesar das interpretações, perseguições e cisões. O interessante é que com a cristianização, as pessoas se organizaram e se organizam, viveram e vivem cada vez mais secularizados, mais distantes das igrejas e dos cultos, privilegiando a vontade e os desejos, os sonhos de consumo, o lucro e a riqueza, os bens e a fama, o poder e a hegemonia.

A alteridade é, sem dúvida, um aspecto importante da pluralidade; é a razão pela qual todas as nossas definições são distinções e o motivo pelo qual não podemos dizer o que uma coisa é sem a distinguir de outra. - Nietzche, o Frederich Wilhelm (1844-1900) matou Deus, Sartre, o Jean Paul (1905-1980) enterrou Deus, Dostoiesvski, o Fiodor Mikhailovich (1821-1881) nos ensinou que sem Deus tudo podemos fazer. Em nome da liberdade – fazer o que quiser – nem Deus nos segura. Assim, o apodrecimento de ideias e da subjetividade se processa: Pensar para quê? Crer em Deus para quê? Sem crenças e sem razões, vamos tocando aos trancos e barrancos a vida livre, exclusivamente permissiva na busca do prazer imediato e urgente.

No homem, a alteridade, que ele tem em comum com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se singularidades e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade dos seres singulares. - Nesse clima, foi mais fácil o discurso do mercado livre, do capitalismo consumista, já que podemos viver sem razões e sem Deus ou sem deuses. Que cada se vire! Cada qual no seu quadrado! Cada macaco no seu galho! Ao vencedor, as batatas! Que vençam os melhores, os mais ricos e os mais poderosos! Para que serve a liberdade aos mais fracos, aos mais pobres, aos humildes? O que podem fazer com a liberdade? Essa é a lógica e as razões das desigualdades sentidas e consentidas. “Não melhoram porque não querem, porque são preguiçosos e indolentes”.

O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar alguma. - Nesse sentido, ser livre é aceitar, admitir, permitir o isolamento, a exclusão, a alienação, a marginalização, a pobreza, a miséria, a fome, a violência com situações e condições absolutamente naturais. Sabemos, hoje, que tudo é construído social e coletivamente, por isso cultural – oposto do que é natural. Preferimos muitas vezes esse fatalismo natural, esse determinismo social, esse destino “divino” da humanidade. “Não cai uma folha de uma árvore sem que seja vontade de Deus”.

A educação é onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo. - Os estudos de Filosofia são importantes e necessários para nos conhecermos a nós mesmos e aos outros. Aristóteles fez o estudo das potências, das potencialidades humanas que podem caminhar para a sua plenitude. Os gregos entenderam, sim, o homem como um ser cheio de potência, força, energia, mas limitado, mortal, por isso capaz de grandes feitos e descobertas e invenções, mas também capaz de piores e grandes crimes e pecados e aberrações. É assim o homem poderoso e mortal – maior herança da cultura grega.