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Em Questão

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Décio Bragança 22/01/2017
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

LINGUAGEM - A globalização nos impõe também o uso de palavras estrangeiras no nosso dia a dia. A importação e exportação de palavras sempre aconteceu no mundo inteiro. Isso para dizer que não há praticamente nenhuma língua pura, assim como também não há uma raça pura. Isso é um fenômeno linguístico importante para a própria evolução das línguas. Alguns puristas da linguagem, como um Cândido de Figueiredo, hoje teria uma explosão de nervos e ira, por causa da linguagem dos computadores, da informática.

 

DESNACIONALIZAÇÃO - Para alguns, perder a língua-mãe é perder a identidade social e nacional. Há muita intolerância também no que se refere à linguagem. Defender a Língua Portuguesa é importante, sim, mas sem preconceitos e intolerância. Para alguns, a importação de palavras revela ao mesmo tempo uma importação ideológica, uma importação de domínio e de poder. Não se trata de ser contra ou favor dessa importação, mas de formar e preservar uma identidade nacional ou grupal ou cultural.

 

PATRIMÔNIO - Enganam-se aqueles que pensam que o patrimônio cultural de um país – inclusive a sua língua pátria – possa ser preservado com leis, decretos, punições, sanções, mas só poderá ser preservado, protegido, interiorizado através da educação. Nossas lendas, nossa fauna e flora, nossos remédios de folhas e raízes, nossas tradições, nossas crenças, nosso folclore, nossa música, nossos causos, nossa língua, nossa cultura têm de ter um lugar permanente: escolas de todos os níveis e graus. Tudo isso sem preconceito e sem xenofobia.

 

CAUSAS E EFEITOS - Entendemos pouco e não queremos entender as possíveis relações entre política, economia e sociedade. Qualquer projeto democrático tem a obrigação de passar por essas relações. Não pode haver democracia onde as desigualdades são gritantes, berrantes, assustadoras. A democracia se constrói levando-se em conta essas relações entre política, economia e sociedade. Que interessa se somos a sexta economia do mundo e o septuagésimo país em desenvolvimento humano? Que importa se temos eleições a cada dois anos com candidatos carimbados, viciados, profissionais, sem nenhum projeto social. A fome, a miséria, a falta de saúde e de educação, a exclusão social, o desemprego, a violência, as agressões insistem e persistem e sobrevivem, apesar de alguns esforços de alguns governos.

 

GOVERNABILIDADE - Em termos políticos, o maior entrave é a famosa “governabilidade” – raposas, ursos, leões, camaleões, águia se assentam na mesma mesa. “Toma lá, dá cá” – “É dando que se recebe”. Esse acordo ou conchavo impede importantes avanços e impõe sacrifícios às pessoas. Pressões populares existem, mas são facilmente dominadas, porque consideradas desordem, baderna pelos meios de comunicação. A própria população critica, protesta contra os baderneiros, arruaceiros, perturbadores. Torcedores, por exemplo do Flamengo protesta contra os torcedores do Flamengo! Que jogo fantástico! Em síntese, em nome da governabilidade – apoio do legislativo – tudo é possível ao executivo. Daí nascem os mensalões e messalinas, os caixa dois e corrupção.

 

GOVERNANÇA - Não há espaços mais para a ditadura institucionalizada, mas há uma ditadura disfarçada porque os mesmos que estão no poder há anos são eternos candidatos aos cargos eletivos. Não há democracia sem renovação. Os mesmos grupos, formados por grandes corporações e grupos financeiros e econômicos, que se perpetuam no poder significa ditadura também. Ditadura do poder econômico. O que vemos é o Estado abrir mão de suas prerrogativas e funções e passou a obedecer à lógica perversa do mercado. Por isso, propõe privatizações, destituição de direitos, mudanças e emendas na constituição, deteriorização de políticas públicas e sociais, desemprego e informalidade, depreciação de salários, minimizando o próprio Estado.

 

FUTURO - Com o desemprego, a informalidade. Com a informalidade, a desindustrialização. Com a desindustrialização, a depreciação de salários. E assim uma coisa vai puxando a outra, até que todos sejamos puxados para o buraco, principalmente com o aumento da violência e da criminalidade. O pior de tudo é que essa situação atinge forte e profundamente os jovens – perspectiva de futuro. Sem jovens, não há futuro.

 

SOBREVIVÊNCIA - Sem perspectiva, os jovens e os adolescentes, muitos deles para a própria sobrevivência, entram no mercado ilícito de tráfico de drogas e armas e tantos outros crimes iguais. Existem, número da ONU, cerca de 25 milhões de latino-americanos vivendo ilicitamente em outros países, vivendo em situação de escravidão. É melhor viver e sobreviver como escravo de um sistema capitalista perverso a entrar para o mundo do roubo e sequestro, tráfico e toda a espécie de maldade.

 

O QUE É? - Ah! Democracia! Mas o que é isso? Será que funciona como um órgão de representação e deliberações políticas? Ora, caso seja isso, somente os partidos ligados às tramoias do poder tem vez e voz, benesses e bônus. Será que funciona como pleno exercício da cidadania, portanto trazendo em seus princípios a participação das pessoas, criando novas formas e fórmulas de relações entre governo e sociedade? Ora, caso seja isso, aí, sim, vale a pena vivermos numa democracia.

 

DE QUEM? - Na democracia, igualdade de oportunidades e chances, distribuição de bens e riquezas, com bases na justiça social e exercício de liberdade. Isso é uma utopia e como utopia tem de ser buscada sempre, porque, na verdade, ela se realizará completamente. O direito, por exemplo, de propriedade, na verdade, é uma garantia, uma defesa dos mais ricos e dos mais poderosos contra os mais pobres e dos mais excluídos. Não por acaso, o filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952) disse: “A política é a projeção na sociedade dos interesses das grandes empresas. E continuará sendo assim enquanto o poder residir nas empresas, mediante o controle privado dos bancos, da indústria, da terra, reforçado pelo comando da imprensa e de outros meios de publicidade e propaganda”.