Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 16/02/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

giz

Pensamos que é possível haver escolas lúdicas, polêmicas e ideológicas. A escola ideológica é odiosa, porque ninguém tem o direito de impor ideias, comportamentos, atitudes e, hoje, pior ainda, vender conhecimentos como mercadorias, transformar os estudantes em clientes e fregueses, transformar os professores em vendedores. Uma escola ideológica é exclusiva, excludente e acredita que nada pode mudar. A escola, enquanto instituição social, só existe para a libertar do homem da ingenuidade, da mediocridade, da apatia, do comodismo, da pobreza, da miséria, da exploração, da humilhação...

 

caneta

Os professores se queixam da apatia dos alunos, porque, convenhamos, a sala de aula é um espaço muito chato e enfadonho, desencarnado e impessoal. Enquanto a escola não for um local de experiências, de vivências, de existências humanas, presas na história e no espaço, na geografia e no tempo, os professores continuarão a dar murros em pontas de faca. Pensadores, professores, psicanalistas, filósofos, pedagogos estão preocupados com as crianças e adolescentes que pouco lhes é exigido e cobrado em termos de trocas de experiências. Toda experimentação é fascinante e libertadora. Libertação, no sentido de quebra dos padrões anteriormente propostos, é o nascimento, desenvolvimento e construção de novos desafios.

lápis

As grandes editoras, porque também parte do mercado industrial-mercadológico, impõem seus livros didáticos, com texto e imagens, muitas vezes, deslocados da realidade dos alunos. As editoras, na realidade, ditam os conteúdos para as escolas e para os professores. Os Parâmetros Curriculares e os Temas Transversais, propostos pelo próprio MEC, são desprezados, pisoteados, escrachados pelas escolas e pelos professores. Poucos professores leram e discutiram os Parâmetros Curriculares e os Temas Transversais. Quem não lê, não escreve, não discute não pode exigir (interesse ideológico: mandar) que os alunos leiam, escrevam, discutam.

 

livro

Há um abismo entre a vida das crianças e dos adolescentes e o que as escolas estão propondo. Muitas vezes, os problemas de alfabetização e de raciocínio lógico não são vencidos porque esse “abismo” impossibilita a aproximação da realidade. A escola perdeu, sim, sua função educativa e educadora, e, por extensão, libertadora, porque repete, repete, repete, repete, enfadonhamente modelos ultrapassados e que nada significam. A repetição mata qualquer possibilidade de criatividade, de inventividade, de poesia. Por isso, a escola ainda classifica, seleciona, exclui, ou privilegia os que conseguem repetir as lições ditas, ditadas, impostas pelos professores. Para muitos, aluno bom é aluno que repete o que o professor pediu nas provas, nos exames.

 

caderno

A escola perdeu, sim, a dimensão da dignidade, da subjetividade, da eudade, da individualidade humanas, quando coloca todos numa mesma jaula de aula, como se todos, conforme Rubem Alves, gostassem das mesmas comidas, tivessem os mesmos desejos, trouxessem a mesma história de vida. Uma imagem forte que, depois de muito tempo, ainda não me sai da cabeça está no livro: “Cuidado: Escola!” O livro "Cuidado, Escola!", lançado em 1980 pela editora Brasiliense, 32ª edição, de autoria da equipe componente do IDAC - Instituto de Ação Cultural - Babete Harrper, Claudius Ceccon, Miguel Darcy de Oliveira e Rosiska Darcy de Oliveira, apresentado pelo grande escritor pernambucano Paulo Freire, traz um estudo crítico sobre a educação desde sua origem até sua sistematização com surgimento das instituições de ensino.

 

borracha

O livro é escrito numa linguagem acessível, traz criativas ilustrações, busca refletir sobre o processo educativo, aborda temáticas como a crise escolar, busca a origem da escola atual, o seu funcionamento, as desigualdades socioculturais que envolvem o processo de ensino-aprendizagem, as alternativas pedagógicas e faz um questionamento sobre a origem dos problemas que envolvem o sistema educacional brasileiro. A imagem mais forte inclusive está na capa. Amarelos, vermelhos, cor de rosa, roxos passam por um funil e saem todos iguais e da mesma cor.  Todos passam pelo mesmo crivo escolar, violentando-se, adaptando-se, repetindo os mesmos padrões e comportamentos e atitudes. Fora do enquandramento, a marginalização dos indivíduos. 

 

mochila

Não me esqueço do Filme: “Pink Floyd – The Wall”. Crianças em fila indiana, em ordem, marchando como numa parada militar, vão caindo numa moedora de carne – ESCOLA – e vão saindo salsichas – prontas para o mercado. Veja o filme “The Wall” e preste mais atenção na parte em que Pink Floyd canta sobre a Educação. A letra da música é de Roger Waters. “Papai se foi através do oceano, / Deixando apenas uma lembrança: / Um instantâneo no álbum de família. / Papai, o que mais você deixou para mim? / Papai, o que você deixa para trás, para mim? / No total, foi apenas um tijolo no muro, no total, foi tudo apenas tijolos no muro... / Nós não precisamos de educação. / Nós não precisamos de controle mental. / Nenhum sarcasmo obscuro, na sala de aula. / Professores, então, deixem as crianças em paz!! / Ei, professor, deixem as crianças, em paz!! / No total, você é somente mais um tijolo no muro. / No total, você é somente mais um tijolo no muro. / Não preciso de braços em volta de mim. / E não preciso de nenhuma droga para me acalmar. / Eu vi a pichação na parede. / Não vá pensar que eu precise de qualquer coisa. / Não! não pense que precisarei de coisa alguma. / Ao todo, foram apenas tijolos no muro. / Ao todo, vocês foram apenas tijolos no muro.”

 

provas

Uma sala, uma humanidade. Isso não significa que os alunos devam ser tratados como uma massa informe, acéfala, amorfa. Cada aluno é uma humanidade e deve ser tratada como tal. Isso também não significa que vamos trabalhar com alunos ideais, perfeitos. Nada disso! Todos temos problemas de aprendizagem, de relacionamento, de comunicação, de sociabilidade.