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Em Questão

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Décio Bragança 23/02/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Singular

Quando se diz que uma comunidade é letrada, pressupõe-se que essa comunidade saiba escrever e ler corretamente. O interessante é que há um número infinitamente maior de leitores do que escreventes, escritores, escribas. Claro, é mais necessário, no sentido utilitário, saber ler. Muitos estudiosos e linguistas defendem a teoria da unidade de ação. Outros mais pragmáticos e imediatistas defendem a instrumentalidade da linguagem, isto é, defendem que ler, falar, escrever e ouvir uma língua são unidades independentes, já que também o analfabeto fala e ouve, mas não lê nem escreve.

Plural

O ideal, claro, é que as quatro ações fossem interdependentes, codependentes, dependentes. Quem escreve e quem fala levam vantagens sobre os que só leem e ouvem. Quando se fala em liberdade de expressão, está-se falando da liberdade de expressão de quem escreve e/ou fala. É direito de todos se expressarem, todos terem voz e vez. Quem só ouve e/ou só lê traz em seu “destino” a possibilidade de só obedecer, de “baixar” a cabeça e o topete, de submeter-se, de ser subjugado e humilhado e explorado. Libertação é criar a possibilidade de falar e escrever. Sentir-se excluído é ouvir e ler. As provas de concurso são normalmente escritas e as questões de leitura são de interpretação de textos também escritos. Uma avaliação séria e inteligente deveria passar pelas quatro habilidades: falar, escrever, ler e ouvir. As redações, muitas vezes, são decoradas e, nas provas, os estudantes adaptam “seu” texto ao tema proposto.

Número

Numa prova oral, em banca pública, todas esses “problemas” poderiam ser dissipados. A UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais – hoje, considerada uma das melhores universidades do Brasil, em sua seleção para mestrado, pede-se uma redação – linguagem escrita – sobre um tema sorteado e sabido anteriormente pelos candidatos. No dia seguinte, em sessão pública, o candidato faz a leitura de seu texto diante de três professores. Imediatamente, se a banca julgar necessário faz perguntas para que o candidato esclareça alguma coisa, ou se posicione diante de alguma nova ideia – linguagem oral - e o candidato é avaliado. A seleção não é só isso, porque ainda há uma entrevista, análise de currículo da graduação e um pré-projeto de pesquisa.

Gênero

A leitura, sem dúvida, nos ensina o funcionamento, a estrutura, as funções da linguagem. Um texto pode e deve ser o caminho de construção de novos textos. A diversidade de autores e textos facilita o jogo de palavras e de ideias, porque assim se pode fazer uma leitura plural da realidade, ou leituras da realidade. Um texto é uma unidade! O sentido do texto deve ser construído, primeiramente, entre o autor e suas intenções com o leitor e seus interesses. Não há texto que não seja prenho de intenções. Não há leitura de texto que não seja prenho de interesses. Depois, o sentido pode e deve ser construído entre os leitores, entre os muitos leitores. Um texto monossêmico é um texto técnico, portanto com um sentido único, sem valor estético e/ou artístico. A polissemia é a profundeza e a profundidade do texto. Um texto monossêmico fica na superfície, apesar de verdadeiro.

Grau

Saber uma língua é saber ler, falar, escrever e ouvir essa língua. O livro parece-me estar desaparecendo das escolas, cedendo lugar a filmes, a desfiles, a seminários, a CDs, a DVDs, a jogos, a estudos de casos, a trabalhos coletivos... Tudo isso é bom, mas ainda acredito ser a escola uma ilha rodeada de livros por todos os lados, como queria Monteiro Lobato e depois o então Ministro da Educação, Anísio Teixeira.

Aumentativo

Estudar é uma tarefa cada vez mais difícil, já que vivemos num mundo feito para ser visto e ser ouvido. Somos bombardeados por outdoors (quanta sujeira!), pela televisão (quanta mediocridade!), por cinema (quanta sacanagem!), pela Internet (quantos atalhos e desvios!), pelas pichações (quanta revolta!), pelos murais e panfletos (quantas cores e quantas festas!), pelas tiranhas e quadrinhos (quanto enquadramento!), pelos anúncios publicitários (haja dinheiro!), pelos CDs, DVDs, MP3, MP4 (quanto isolamento e solidão!)... Cegos, mudos e surdos somos sumariamente descartáveis por esta sociedade descartável.

Diminutivo

Vivemos no mundo onde tudo tem preço e há quem venda e há sempre alguém que compre. Tudo é mercadoria. Qual o valor de um conhecimento? Qual o valor de ser culto? Quanto vale conhecer as intenções e os interesses dos muitos artistas de todas as cores e dores e flores? As imagens, as fotografias, os filmes transmitem também múltiplas informações e são motivos e motivadores de produção escrita de textos. Cada texto, uma opinião. Cada texto, uma partilha.

Superlativo

Todo aprendizado é um meio individual, intransferível, insubstituível, isto é, ninguém aprende para ninguém, no lugar de outrem. Nem por isso não pode ser partilhado, compartilhado. É bom sempre nos lembrarmos de Guimarães Rosa: “Professor é aquele que de repente aprende.” Aprende-se com o outro, não no lugar do outro. A escola prepara o ambiente para essa aprendizagem e para a formação humana. O Brasil tem ainda muitas dificuldades para baratear o custo de livros, possibilitando maior acesso à leitura de todos. Sem leitura e sem livros são poucas as chances de entrar em contato com um bom código escrito da Língua Portuguesa.

Analítico

Não há, infelizmente, modelos de como devem ser as aulas de Português, mas uma coisa é certa: é preciso ler, escrever, ouvir e falar a “nossa” língua-mãe-padrão – traço de uma criação de uma nação. Assim, aprender Português é também uma questão de cidadania. Assim, saber Português é primordial para o desenvolvimento do ser humano. A organização, a cultura organizacional, as relações de trabalho, as estruturas sociais... são mediadas pela linguagem. A linguagem é assim, praticamente, o efeito dos sentidos, de significados entre os interlocutores. A leitura é, sim, um processo de produção de sentidos e gestos de interpretação. A leitura é, sim, a necessidade de recontar, modificar, desconstruir, decompor a trama da história, do fato, do acontecimento contado por um sujeito. Se a intenção dele não foi a ideológica – imposição de uma ideia que não seja outra senão a sua – teremos, como vimos, uma obra aberta à polissemia – possibilidades múltiplas de leituras e interpretações.