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Em Questão

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Décio Bragança 02/03/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Serpentina 
 A polissemia exige que o leitor seja um bom intérprete do mundo e das coisas do mundo, para criar a possibilidade da intertextualidade – agregação de outros textos e outros discursos ao texto lido, em questão. Sem isso, o texto em questão não passa de um amontoado de palavras, de frases, de orações. O leitor é mais do que um simples decodificador. É o produtor de sentido, porque capaz de dialogar, segundo tantos pensadores, dentre eles Bakhitin. Dialogar é tornar-se múltiplo, transformar o que poderia ser um ato individual em ato coletivo.   

Confete 
 Não é fácil perceber as estruturas externas das frases, das sentenças, das orações. Muitas vezes, é preciso lançar mão de imagens – o que facilita um pouco, já que o mundo está imerso em imagens, na mídia, na imprensa escrita, na literatura infantil, nas persuasões das publicidades. Tudo isso são ideias, sentimentos, emoções, comoções. Não há verdades absolutas em ciências humanas. A escrita, a leitura não são neutras e não são acessíveis a todos os sujeitos. Toda ação verbal se desenvolve em um contexto social, com fins sociais, com papéis sociais definidos. Há um incentivo para que sejam lidas obras consideradas literárias, ou de autores bons. Há até grandes escritores que não constam na lista dos clássicos. 

Tamborim 
 O discurso é o momento da prática social. A leitura dos clássicos da literatura passou a ser considerada desnecessária/inútil – perfumaria sem utilidade. Há um certo menosprezo e desprezo pelos estudos literários. A escrita e a leitura são condições necessárias para a integração do ser humano à sociedade. Nesse sentido, o professor é fundamental na construção do processo reflexivo do indivíduo. Dá-se muita importância aos estudos da Matemática e pouca aos estudos da Linguagem – interpretação do mundo e das coisas do mundo. Para que serve saber extrair uma raiz quadrada? O estudo de matrizes? Inequações? Equações do segundo grau? 

Cavaquinho 
O professor será tanto melhor quanto mais se aproximar da maiêutica de Sócrates; o inquisidor, o provocador, o perguntador, o questionador, o rompedor, o deflagrador... Os alunos constroem o próprio conhecimento. Numa visão vygotskiana, a aprendizagem é motivada pelo ambiente e pelos indivíduos próximos do aprendiz. Muitos escritores e poetas utilizam a palavra como instrumento de renovação cultural, de revolução social, de libertação das ideologias dominantes e dominadoras. O homem é o único ser capaz de repensar e reconstruir o seu destino. Daí, a aprendizagem e ensino de linguagens serem instrumentos, meios, roteiros, caminhos, atalhos para a construção de novos homens e novas mulheres que poderão viver, conviver, sobreviver num mundo novo.    

Agogô 
 O professor é o profissional capaz de analisar, criativa e criticamente, os desafios postos na realidade. Capaz de refletir e intervir no contexto escolar. Há ainda muitas escolas que remanejam alunos de turmas na busca, por exemplo, de uma homogeneização – movimento ilusório de redução das diferenças. Isso culmina na aceleração da exclusão escolar, pois a sala de aula é um lugar constituído por sujeitos singulares, com potencialidades diversas, talentos e competências próprias e particulares.
Atabaque 
 Assim, a escola estabelece uma hierarquização de turmas – o que é muito ruim. Ética, cidadania, respeito às diferenças... são jogados para o espaço, contradizendo as razões e os motivos, as intenções e os interesses, as funções e as missões, por que a escola existe. Não é bom que ninguém, pelo menos na escola, se sinta desfavorecido, desestimulado, desamparado, excluído. Há algumas crises que nos interessa, aqui, diretamente: crise dos cursos de licenciaturas, crises da leitura e crise do letramento literário. 

Arlequim 
 As ideias de mercado, de produtividade, de eficiência, de eficácia, de competitividade... batem de cheio nas instituições formadoras de professores e de educadores. Toda ciência tem seus entraves. As humanas são ainda mais complexas, e as da Educação muito mais obscuras. E o que é ciência? 

Pierrô 
 A ciência é uma reunião de fatos, teorias e métodos. Os cientistas são homens que, com ou sem sucesso, empenharam-se em contribuir com um ou outro elemento para essa “constelação” específica. O cientista, então, enfrenta dificuldades para explicar a prática, a aplicabilidade dos fatos, das leis, das teorias. Nada em ciência é fácil.  Também não é fácil descrever e explicar erros, mitos, superstições, mentiras que fizeram e fazem arte de qualquer avanço científico.

Colombina 
A linguagem, em relação à idade do homem no planeta e do planeta, é um fato novo, novíssimo, novinho, já que uma língua, no sentido formal e estrutural, tem pouco mais de 50 mil anos. Se o homem existe na face na terra há mais de 12 milhões de anos, claro é que, nesse espaço de tempo, nunca deixou de comunicar com os outros seres humanos e, talvez, com todos os seres da natureza.

Samba 
Isso só para dizer que o homem comunicava muito antes de ter organizado e estruturado uma língua. O sistema linguístico será sempre aberto e dinâmico. Talvez, esteja aí o prazer da leitura e da escrita. O lúdico e o criativo formam o prazer da escola. Ferdinand de Saussure é considerado o “Pai da Linguística”, tendo como marco o seu “Cours de Linguistique Général” – Curso de Linguística Geral. O interessante que o livro não foi escrito por ele, mas por seus alunos, discípulos e seguidores. Ferdinand de Saussure, no início do século XX, chama palavra de “Signo linguístico” – composto por uma imagem acústica (significante) e a ideia, o conceito (significado). Os significantes não tem valor em si mesmos, mas se enchem de valor em relação ao conjunto de palavras de um segmento.

Repique 
 O primeiro fato que se deve ter em mente, para compreender a função da análise de texto, vem de uma fala de Fidelino de Figueiredo: “Estudar literatura, ou ensiná-la, é apenas estudar ou ensinar a ler. Ler é uma técnica e uma arte, é um anelo dramático e doloroso dos que mais nobilizam o homem.” Lembro-me ainda de Darcy Ribeiro: “Ler é mais importante do que estudar.” Isso porque tudo o que você ler, você não esquece jamais. Quando se estuda, corre-se o risco de esquecer. Quando você pensa que vai ler um texto de um jornal ou de revista, você condiciona o cérebro para a leitura. Quando você pensa em estudar, seu cérebro, sem que ninguém possa entender, guarda as informações em outro “local” que não o da memória.