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Em Questão

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Décio Bragança 09/03/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão


Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

EMISSOR - Muitos estudantes, alguns até meus amigos, insistem para que eu escreva sobre um texto, sobre a interpretação de um – matéria obrigatória de todos os concursos públicos, além de ENEM, ENADE... Como é difícil a tarefa de interpretar. Uma vez, uma universidade usou um texto meu, escrito aqui mesmo no Jornal de Uberaba, para que os candidatos o interpretasse. Eu arrisquei, não era candidato, claro, a fazer a prova. Foram dez questões relativas ao texto. Acertei sete das dez, segundo o gabarito oficial. Errei três questões de interpretação de um texto meu. O professor que fez as questões interpretou com muito mais sabedoria e seriedade um texto escrito por mim. Isso para dizer que depois que o autor escreve e publica um texto, o texto não é mais dele.

 

RECEPTOR - O único fato concreto que o estudante tem diante dos olhos é o texto. A ação desse fato concreto manifesta-se pela leitura. Ação, aqui, significa, sua interferência e inferência no texto. Todo texto vem cheio, carregado anteriormente de um contexto e um pretexto. O que é o contexto? Contexto, para facilitar as coisas de leitura, pode ser resumido assim: todo texto foi produzido no tempo e no espaço, numa determinada geografia e determinada história. Não existe, pois, um texto “desencarnado”. Ele traz uma história e uma geografia. O seu autor viveu ou vive num espaço e num tempo. Onde escreveu? Quando escreveu? Assim, o espaço e o tempo trazem todas as interferências políticas, sociais, culturais, políticas, religiosas, psicológicas, emocionais, imaginárias, pessoas de próprio tempo e de próprio espaço.

 

CÓDIGO - Não estamos falando de gênio, porque esse “ultrapassa” o seu tempo e espaço. Vai morar no espaço que se costumar chamar de perenidade. Vai viver no tempo que se costumar chamar de imortalidade. Quem é esse emissor/autor? É bom você procurar saber um pouco sobre a vida, as aspirações e as frustrações, as loucuras e lucidezes, os desejos e os desgostos do autor, antes de ler qualquer texto dele. Emissor é sempre considerado um EU. Sem querer fazer tratado de filosofia, ou psicologia, ou sociologia, é bom ler um pouco sobre o EU – fonte, emissor, codificador, enunciador, anunciador, cifrador... Quais as suas intenções? Hoje, há estudos importantes sobre as intenções de um autor.

 

MENSAGEM - Ler não é um fato gratuito, como não o é escrever. Um leitor curioso e interessado é aquele que está em constante conflito com o texto. Esse conflito poderá ser entendido até por uma ânsia incontida do leitor de compreender, de concordar, de discordar do autor, de suas experiências humanas e intelectuais. Na realidade, ler é uma forma superior de autoeducação, de autodidatismo, de desenvolver todas as forças, as possibilidades, as potencialidades do espírito humano. Claro, a leitura também poderá ser lúdica, ou hedonista. A compreensão plena de um texto depende exclusivamente do leitor, do estudante. Não há como ensinar a compreender um texto. O que se pode fazer são algumas orientações e não um manual, um roteiro, uma rota. A leitura é o desenvolvimento máxima do gosto e da sensibilidade. Isso para dizer que o leitor, aos poucos educa seu gosto, seu prazer e sua sensibilidade para perceber toda a riqueza de um texto lido.

 

CANAIS - Um texto de Chico Buarque de Holanda foi escrito, quando ele ainda era muito jovem, estudante de História, na USP. Participava de muitos festivais – aliás, vivíamos na Era dos Festivais. Com a música “A Banda” praticamente Chico Buarque inicia a sua carreira de grandes sucessos. Os “donos” do poder, na época, não gostavam muito dele e para menosprezá-lo diziam que a música era muito simples, muito fraca, muito bobinha, e que qualquer um teria composta essa canção. O interessante é que ninguém a fez antes. Depois de feito, tudo se torna fácil. Esse, talvez, seja o mérito de um bom texto. Se desejar, ouça a canção, seguindo a letra transcrita: “Estava à-toa na vida, o meu amor me chamou / Pra ver a banda passar cantando coisas de amor. / A minha gente sofrida despediu-se da dor / Pra ver a banda passar cantando coisas de amor. / O homem sério que contava dinheiro parou, / O faroleiro que contava vantagem parou, / A namorada que contava as estrelas parou / Pra ver, ouvir e dar passagem. / A moça triste que vivia calada sorriu, / A rosa triste que vivia fechada se abriu / E a meninada toda se assanhou / Pra ver a banda passar cantando coisas de amor. / O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou / Que ainda era moço para sair no terraço e dançou. / A moça feia debruçou na janela / Pensando que a banda tocava pra ela. / A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu, / A lua cheia que viva escondida surgiu, / Minha cidade toda se enfeitiçou / Para ver a banda passar cantando coisas de amor. / Mas, para meu desencanto, o que era doce acabou, / Tudo tomou seu lugar depois que a banda passou. / E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, / Depois da banda passar cantando coisas de amor”.

 

PRETEXTO - Vamos, agora, tentar entender, compreender esse texto. Algumas inferências, de imediato, de cara, a gente pode intuir: a passagem da banda livra o povoado, por alguns momentos, do tédio da rotina. Isso significa que a banda divide a rotina ao meio: A cidade antes - a passagem da banda - a cidade depois. Observa-se que é possível concluir também que as criaturas do texto vivem num mundo próprio, com sua solidão, com seus desencantos, com seus problemas profundamente pessoais. Pensando numa leitura mais ampla, pensando na vida dos homens e das mulheres, pensando até na minha, na sua vida, sabemos que muitos fatos, muitas ideias, muitos acontecimentos, muitas pessoas, quando por nossa vida passam, nos assustam, nos atormentam, nos abalam, mas também nos desacomodam, nos tiram do “lugar” em que estávamos e nos levam para outro. O meu desejo é depois “que a banda passar”, a sua vida, a minha vida, a nossa vida não volte ao normal. Que sejamos mais! Que sejamos melhores!

 

CONTEXTO - A leitura de um texto abre as portas para uma leitura de mundo. Para Paulo Freire, é preciso que as duas leituras aconteçam simultaneamente: a leitura de mundo e a leitura de texto. Uma sem a outra é perda de tempo, ou ainda navegar nas nuvens e viajar pelas estrelas. Vários pensadores e filósofos escreveram muito sobre o universo das palavras e o universo da verdade. Não queremos, aqui, discutir teorias, mas é preciso conhecer a história e a geografia dos homens, a organização econômica, social e política das nações, alguns conhecimentos científicos e noções básicas de tudo, para poder tirar maior proveito dos textos. Todas as palavras têm uma FORMA (significante) e um FUNDO (significado). O significante é o que toca nos nossos sentidos. Se a palavra for falada, o significante será os sons da fala, os fonemas. Se a palavra for escrita, o significante são as letras, os sememas, os sinais gráficos.

 

INTERESSES - Claro, se eu lhe falar ou escrever a palavra SELENITA, você conseguirá ouvi-la, ou lê-la corretamente. Mas, isso é muito pouco, quase nada! Se eu lhe perguntar qual o significado, claro, você pode e deve sabê-lo; mas se não souber, será um sino que toca, ou rabiscos no papel. Concorda? O segredo, então, é o significado, o sentido da palavra, ou ainda o que ela pode simbolizar, significar! Para você entender o que estou dizendo é só olhar os sinais luminosos de trânsito. Se você não sabe o que significa um sinal vermelho, um sinal amarelo e um sinal verde, as cores serão só cores, enfeites, ornamentos das ruas e das avenidas das cidades. Da mesma forma uma cédula. Se você não atribuir valor a ela, será apenas um pedaço de papel colorido.

 

INTENÇÕES - Se não soubermos o significado das palavras e se não soubermos ler o mundo e as coisas do mundo, você poderá encontrar uma frase correta, sob o ponto de vista gramatical, e nada significar. Observe esta frase: O triângulo é um círculo retangular.  Diante dessa frase, você tem uma sensação absurda, porque traduz contradições da geometria; no entanto, gramaticalmente a frase está correta: tem um sujeito, um verbo, um predicado, termos complementares. O que é triângulo é triângulo e pronto! O que é círculo é círculo e pronto! O que é retangular é retangular e pronto! Num esforço terrível de imaginação, navegar na manteiga ou na maionese, alguns podem até tentar entender a frase, como um aluno meu fez: “o triângulo ali é amoroso que circula, que roda, que gira, criando a possibilidade de um quarteto, um retângulo amoroso.” Quanta loucura! Argumentou ainda: Se esse texto tivesse sido feito por um grande poeta, todo mundo acharia maravilhoso, belíssimo, criativo. Claro, o aluno estava se referindo à conotação e à denotação – assunto de que trataremos num outro momento.