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Em Questão

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Décio Bragança 20/04/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Aleluia 
 Todo Domingo de Páscoa tem de passar por uma Sexta-feira Santa. Depois da tempestade vem a bonança. Depois da escravidão, a libertação. Depois da Paixão e Morte, a Ressurreição e Vida. Para mim, há dois momentos muito importantes no ano para o Cristianismo. O primeiro é o Natal: Deus conosco. Deus se faz homem, habita entre nós. É Deus que vem a nós. O segundo é a Páscoa: o movimento ao contrário: os homens que buscam a Deus pelo arrependimento, os homens se fazem deuses – “Vós sois deuses” – e habitam em Deus. Páscoa é passagem das trevas para a luz; da morte para a vida; dos pecados e dos crimes e dos vícios para a vitória, para a virtude.

Salvação 
 A proposta de salvação, para mim, é sempre coletiva: a libertação de todos e de cada homem. “Ninguém se salva sozinho; ninguém se perde sozinho.” Eu me levo e levo a muitos para a alegria, para a vida, para a felicidade ou para a tristeza, para a morte, para a desgraça. Isso não significa que não reconheço o esforço individual, pessoal. Afinal, o ser humano é o único ser que escolhe os próprios caminhos e seu destino. Só que os desejos da humanidade dependem fundamental dos desejos de cada um e vice-versa. Colhe-se o que se planta. Se semeamos abóbora, é-nos impossível colher chuchu; se plantamos ódios, é-nos impossível colher amor.

Prazeres 
 Reclamamos da violência, do desrespeito, da agressividade. Acredito que tudo isso foi semeado, adubado, plantado, como qualquer outra coisa no mundo. Nada existe por acaso. Construímos ou, no mínimo, consentimos que fosse construída uma sociedade competitiva, agressiva, violenta, opressiva, intolerante, individualista e principalmente consumista, tendo um novo deus: o bezerro de ouro. Infelizmente, tudo virou mercadoria. Esse novo deus tem também os seus mandamentos – o seu Decálogo: 1- visitar o shopping pelo menos uma vez por semana; 2- amar o ter, o comprar, o vender, o consumir acima de todas as coisas; 3- fazer e honrar as suas dívidas, já que são as dívidas que alimentam o sistema; 4- viver todos os prazeres (drogas, viagra, bebidas, dipirona...) oferecidos porque não existe amanhã e amanhã poderá ser tarde demais; 5- enganar, explorar, humilhar porque você vale pelo que tem, afinal o mundo é dos espertos; 6- não exigir fidelidade, amor, dedicação, companheirismo, porque ninguém é de ninguém; 7- lutar, defender com unhas e dentes, com todas as armas, seu patrimônio mesmo que o tenha adquirido através de fraudes, sonegações, propina, corrupção; 8- comprar órgãos vivos (cabelo, dente, coração, rim, fígado, pâncreas, ossos, tecidos...) mesmo que para isso muitos tenham de morrer; 9- banalizar a vida, o corpo, através dos meios de comunicação, para que ninguém se sinta angustiado, deprimido, inquieto, escravizado; 10- salvar-se e o resto é que se dane. 

Consciência 
 A consciência nos atesta que não só somos capazes de desejar ou repelir, mas também saber que somos livres que traz no seu bojo responsabilidades. Não há liberdade sem responsabilidade. A responsabilidade, nesse sentido, não pode ser uma ameaça. Caso assim não seja, a liberdade é uma ilusão. Não pode haver liberdade de fazer o mal que por si só não se legitima. Não escolhemos nosso sexo, nosso pai, nossa mãe, nossa família, nosso tempo, nosso espaço, nem condições financeiras. Nem por isso temos motivos de nos revoltar; pelo contrário, existem mais motivos para agradecer. A consciência de si mesmo traz assim a certeza de que também ninguém escolheu nada para si mesmo. Estamos no mesmo barco, bebemos a mesma bebida, comemos a mesma comida, vivemos a mesma vida. Ou nos salvemos todos juntos, ou todos nós juntos pereceremos.

Construção 
 O Evangelho de Mateus, principalmente o capítulo 25, para mim, resume bem o sentido da vida dos homens na terra. Mateus, talvez, seja o evangelista mais severo e mais suave, mais bravo na doutrina e nos ensinamentos, mais revolucionários e o que mais cobra de seus seguidores. Este texto me abala profundamente. “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 

Resposta 
 E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. (Mateus 25:34-46) 

Caminho 
 Sempre me lembro de Dom Helder Câmara quando nos ensinava: “Enquanto houver apenas um de nossos irmãos passando fome, não dá para ser feliz!”