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Em Questão

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Décio Bragança 27/04/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Orquestra 
 O caos e a ordem convivem harmoniosamente no universo, nos países, nas cidades, nas casas, entre as pessoas. Faço sempre a comparação com uma orquestra. Cada instrumento traz seu timbre e seu som, sua escala e são diferentes entre si. Sem maestro, o caos, a baderna, a confusão, a desordem, o tumulto, apesar de cada músico saber o que deve fazer. Com o maestro, a ordem, a harmonia, a organização, a melodia, o sucesso. Há muito poucos maestros no mundo.

Cordas 
 Cada músico-instrumentista tem muito talento e sabe o que tem de ser fazer, de executar, mas necessita de um comando, de um líder, de um abre-alas, simplesmente, sem arrogância e prepotência, sem ser dono da verdade e rei todo-poderoso. Todos precisam de um maestro. Há muitos prefeitos, governadores, presidentes, primeiros-ministros, vereadores, deputados, senadores, reis, imperadores, ditadores no mundo. Há muito poucos maestros no mundo.

Metais 
 Claro, o sucesso é partilhado e compartilhado entre o maestro e todos os instrumentistas. O sucesso é da orquestra. O interessante, para quem já assistiu a um concerto de uma filarmônica é que a plateia raramente observa o maestro, já que os músicos chamam muito mais atenção, porque estão de frente para a plateia, e o maestro, normalmente, de costas. Vale dizer que o maestro harmoniza os instrumentistas que exercem um fascínio sobre a plateia. Este é o grande desejo do maestro: diminuir-se para engrandecer os executores-instrumentistas. Esta é a primeira grande virtude do maestro: valorização da equipe, da orquestra, sem vaidade e orgulho. Há muito poucos maestros no mundo.

Madeira 
 Os aplausos ao maestro aparecem depois das muitas palmas aos músicos, depois de se mostrar à plateia. A alegria de uma boa execução é dividida entre todos. “Combati um bom combate.” Vale dizer que não há sucesso e alegria pessoais, individuais. “Ninguém se salva sozinho; ninguém se perde sozinho” – porque em tudo que fazemos há uma cumplicidade imperceptível e latente. “Ninguém é feliz sozinho.” “Homem nenhum é uma ilha.” Isso para dizer que um líder que não expanda essa ideia de coletividade permite um clima de competitividade e rivalidade, disputa de poder e espelhos narcisistas. Há muito poucos maestros no mundo.

Pentagrama 
 No mundo globalizado, governado pelo deus-mercado, o discurso é para que tudo seja individualizado – eu mesmo. “Corra atrás de seus sonhos.” “Cada um por si e Deus por todos.” Por isso, pregam a tal desgraça da meritocracia – a maior possibilidade de exclusão. Pregam a infernal e demoníaca ideia de seleção natural. “Ao vencedor, as batatas.” “Que vença o mais forte, o mais poderoso, o mais bonito, o mais rico, o mais inteligente.” “O mundo é dos espertos.” Há muito poucos maestros no mundo.

Ritmo 
 Isso não significa que cada músico não tenha a sua história, o seu trabalho, o seu estudo e esforço e desejo. Na orquestra, ninguém é excluído. Todos têm importância, do tocador de triângulo ao pianista-solista. Assim, também em sociedade, do lixeiro ao prefeito, ao governador, ao presidente da República. Assim também na empresa, do trabalhador braçal e serviçais ao diretor-executivo. Cada músico tem de saber de sua importância, porque o maestro sabe disso. Há muito poucos maestros no mundo.

Cumplicidade 
 Ampliando um pouco mais a ideia de coletividade, percebemos que em cada ato humano, no caso um concerto musical, a humanidade toda está presente. Se hoje temos vários instrumentos é porque alguém, há séculos, os inventou, aperfeiçoou, aprimorou. E todas estas pessoas estão presentes na hora do concerto. São pedreiros, eletricistas, varredores, pintores, marceneiros, técnicos de som e iluminação, costureiros, professores, além dos ancestrais e familiares. A humanidade está presente. E também tudo isso é percebido pela plateia. Que adianta assistir à melhor orquestra do mundo num teatro sem acústica? Ou estarmos num teatro com a melhor acústica do mundo, se a orquestra não tem harmonia, talvez pela ausência de um maestro? Há muito poucos maestros no mundo.

Batuta 
Um gesto de um maestro faz os músicos começarem a tocar. Outro gesto, uma pausa. Daí, a importância dos ensaios – espaço de acertos e erros. Vivemos num mundo onde ninguém mais admite erros. Um absurdo! Como somos intolerantes com os erros dos outros, principalmente! O maestro pacientemente ensaia os acordes até a exaustão, até a perfeição, nunca alcançada, como a utopia. Os músicos confiam tanto no maestro que obedecem aos seus comandos e gestos. E o maestro sabe que ele é o responsável pela execução perfeita do concerto. Há muito poucos maestros no mundo.

Ser inteiro 
 Cada um sabe o que tem de fazer e o faz em prol do todo, do coletivo. Mais ou menos, a mesma coisa acontece com as células de nosso corpo. Cada célula já nasce com uma função específica. Claro, vez e outra, há um “desvio” de comportamento e aparecem as doenças – esse é o processo de adoecimento. Não há muito o que fazer. No dia do concerto, um músico não está bem e toda a orquestra, com seus músicos e maestro, é vaiada. É o risco de se estar vivendo, de se estar sendo. Há muito poucos maestros no mundo. 

Aplausos 
 O maestro confia tanto nos seus músicos que deixa tudo acontecer naturalmente. O grande Strauss dizia que, se você está suando no final do concerto, é porque você fez alguma coisa errada, porque todo e qualquer concerto tem de lhe trazer muito prazer e muita alegria. Isso para dizer que todo trabalho tem de ser prazeroso e alegre. Numa empresa, os trabalhadores fazem ou devem fazer o que lhes compete. Não há liberdade, nem pode haver, para a harmonia do concerto. Uma orquestra só pode ser grande se houver um grupo forte de parceiros, de companheiros – com pane eirós – comem o pão que o diabo amassou juntos. O maestro, no final, sempre escolhe um músico, representando todos os outros, para dividir os aplausos, como quem dissesse: “Sem eles, nada sou; sem eles, nada posso ser.” “Trabalho, porque você trabalha.” “Sou feliz porque você é feliz.” Há muito poucos maestros no mundo.