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Em Questão

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Décio Bragança 11/05/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Quem dá mais? 
 Tudo virou mercadoria. E para que tudo seja comprado e vendido, é preciso um verdadeiro exército de publicitários com a finalidade exclusiva de engolirmos tudo goela abaixo, sem o mínimo de reflexão ou análise ou necessidade. Ficamos meio sem defesas, porque o mundo da ilusão, queiramos ou não, é fantástico, maravilhoso, convincente, cativante. Pais e mães não sabem o que fazer diante da insistente birra de filhos de comprar, comprar, comprar. Os pais, sem tempo porque trabalham fora de casa, deixam seus filhos, principalmente os menores diante da televisão e os publicitários, sacana e intencionalmente, criam seus anúncios visam a esse público infantil. Na realidade, usam a fragilidade das crianças. 

Dou-lhe uma 
Se os adultos, menos frágeis, são enganados e iludidos, o que dizer da fragilidade das crianças? Os automóveis, vendidos a adultos, nos são mostrados sempre em cenas gostosas, prazerosas, idílicas, paradisíacas. E quem não quer viver no paraíso, com tanto prazer assim? Quem não quer a felicidade, mesmo sabendo que ela possa ser aparente? Não é por acaso que a venda de automóveis bate recordes, uns atrás do outro. Ficamos e somos seduzidos por tanta tecnologia e modernidade. Raramente, conseguimos resistir a tamanha sedução, a tanto prazer. Muitas vezes, nem analisamos a nossa capacidade de comprar determinado produto, mas compramo-lo assim mesmo. Somos imediatistas. Sabemos que algumas coisas que compramos, logo são descartadas ou deixadas de lado. 

Miojo 
 Nossos desejos estão sendo momentâneos, como um flash, ou como nos ensina o professor Cortella: “Tudo virou miojo; tudo é feito em três minutos.” Estamos, sim, miojando nossos desejos e nossas relações. Isolar-se não é o melhor caminho. “Viver é estar no mundo”. O problema é sermos consumidores do necessário, consumidores conscientes. O que é isso? Não é fácil arriscar qualquer palpite ou análise sobre o consumo consciente, mas nunca podemos perder de vista as relações entre capital e trabalho, consumo e trabalho, consumo e necessidades, trabalho e economia. Poucos costumam pesquisar o valor real das mercadorias, assim como os graves problemas brasileiros de distribuição de renda e baixos salários dos trabalhadores das indústrias e do comércio. Há muitos preços abusivos! 

Dou-lhe duas 
 Além disso, porque compramos muitas coisas desnecessárias, produzimos muito lixo. No fundo, tudo passa pelos bancos escolares, pela escola, pela Educação. A temática: “Trabalho e Consumo” é proposta pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, quando houve a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Que escola trabalha isso com seus professores e alunos? Outra questão ainda de que não podemos nos esquecer é que todas as vezes em que se fala em consumo estamos falando também da saúde ambiental, da saúde do planeta Terra. Vale, às vezes, nos perguntarmos por que consumimos tanto? O que nos falta? Por que nos entregamos com tanta voracidade ao ato de consumir? 

Vale
quanto pesa 

 Sem entrar nos aspectos psicológicos, é sabido que estamos vivendo a era do “culto ao corpo” – a Era da Vaidade. Para tanto, sou o que pareço ser. “Sou o que consumo”. No fundo, é uma tentativa de busca de reconhecimento do outro: “Olha, fulano está com a camisa tal, com o tênis tal, com o carro tal”. Valho pelo que tenho, pelo que compro”. “Não consigo viver mais sem celular, sem meu iPhone.” Os grandes shoppings não foram feitos para os favelados, os excluídos socialmente, as pessoas das periferias da cidade. Aí, essas pessoas se organizaram em famosos rolezinhos. Não quero fazer aqui um juízo de valores, se estão certos ou errados, mas apenas lembrar que elas estão nos dizendo: “Nós também existimos”. 

Não vale
um vintém 

 O mundo tem mudado muito. As ruas não são espaços públicos de aprendizagem. São lugares de automóveis e veículos sempre em alta velocidade. Tirando as pessoas das ruas e das praças, para onde poderão ir? Muitos para aliviar esse tédio das ruas e das praças vazias vão aos shoppings. E por que nem todos têm direito ao shopping? O fato é que estamos sendo vigiados em todos os cantos, os recantos e encantos por câmaras e por muitos uniformizados. “Vigiar e punir”, ou vigiar para punir. Tudo está sendo vigiado, policiado, como se rodos nós fôssemos ladrões, bandidos, marginais. Pune-se o homem, mas protege-se a propriedade. O interessante é que mesmo as pessoas que vão ao shopping simplesmente para passear e não comprar, aguçam-lhes, nelas mesmas, o desejo de comprar, de consumir – o que já é um primeiro passo para a próxima compra. De qualquer maneira, todos têm de fingir que são consumidores. 

Dou-lhe três 
 Fato semelhante está acontecendo com os espaços do funk: ruas, avenidas e praças. Nem todos têm acesso a clubes, a teatros. Assim, cada grupo, cada tribo cria o seu espaço onde bem quiserem. Os prefeitos e as polícias ficam desorientados, mas ninguém pensa que todos também têm direito ao lazer, à recreação, à cultura. No Rio de Janeiro, depois de anos e décadas de descaso, criaram as UPP’s – Unidade de Polícia Pacificadora, como se isso resolvesse o problema. Paralelamente, quantas escolas, hospitais, clubes, espaços culturais e de arte, farmácias, canteiro de obras, oferta de empregos, obras de saneamento e esgoto foram criados? “A praça é do povo, a rua é do povo, a avenida é do povo” já cantava em prosa e verso Castro Alves, no século XIX. 

Vendido 
 Estamos fazendo as nossas cidades para automóveis e máquinas e aviões e concreto armado. Se alternativa, todos ao shopping! Tudo lá é muito bem planejado: sem luz natural, por exemplo, para que percamos a noção do tempo. Criamos a mais nova religião: o templo é o shopping, os vendedores são os sacerdotes e ministros da palavra, o objeto de adoração é o mercado, os sacramentos são os créditos e os débitos – mais débitos do que créditos, mais pecados do que virtudes. Todos os prefeitos estão vetando projetos populares de manifestações, festas, shows, exposições artísticas e teatrais, passeatas em ruas e praças. No interior, estão proibindo cavalgadas, quadrilhas, folias de reis, queima-do-judas. Só não pode ser proibido comprar e comprar muito. 

Isso não pode 
 Questiona-se, hoje, o que é espaço público e espaço privado. O shopping é mesmo um espaço privado? E onde está o espaço público? Onde está o espaço de convivência, de vivência, de troca de experiências e de vivências? Numa sociedade altamente consumista e capitalizada há alguma preocupação com a vivência, com a convivência e até com a sobrevivência? Não existe consumismo sem que não seja individualista, egocêntrico. É o cada um por si. “Sou para mim e sou para os outros”. Estamos sendo educados, adestrados, domados para ser uma sociedade de consumidores. Hoje, é muito comum ouvirmos frases como estas: “Como pode alguém viver sem celular? Como pode alguém viver sem ir ao shopping? Como pode alguém viver sem comprar?” O fato é que estamos perdendo espaços de expressão e de arte, de educação e de cultura. Sem esses espaços, a tendência é aumentar-se a violência e o estresse, a agressividade e a usura, a pressão e a repressão, a criminalidade e a desobediência às leis.