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Em Questão

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Décio Bragança 18/05/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Eu consumo 
 O professor Alexandre Barbosa Pereira, da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo – doutor em Antropologia Social, pesquisador e estudioso dos jovens no espaço urbano, nos ensina que os jovens, principalmente, das periferias têm três perspectivas na sua vida: bandido, vítima ou herói. Isso não é perspectiva, é desgraça mesmo. Os jovens são o que são, porque escolhemos e criamos uma sociedade para que eles sejam isso. “Colhe-se o que se planta”. Escolhemos, talvez, a pior das formas de se viver em sociedade. Também não queremos qualquer mudança. Nas compras eletrônicas, os nossos problemas podem se agravar um pouco mais, porque, sem que a gente saiba, os sites de venda sabem mais da gente do que a gente mesmo e podem manipular os preços dos produtos colocados à venda. 

Tu consomes 
 Todos os produtos parecem superar todas as suas expectativas. Assim, não há cristão que resista. Existe o que se chama “marketing personalizado” ou “filtragem colaborativa” – grupo de pessoas com perfis bem definidos. Recebemos pelos Correios ofertas personalizadas, com o nome da gente, como se fôssemos velhos amigos. Da mesma forma, basta a gente clicar em algum álbum de ofertas. A gente passa a acreditar que o vendedor só quer o nosso bem. Observemos o Facebook (mais de UM BILHÃO de usuários): quantas informações sobre nós mesmos oferecemos gratuitamente. Claro, essas informações vão sendo armazenadas para se compor o seu perfil e incluir seu nome num grupo de pessoas com perfis semelhantes. Vale dizer que não existe mais privacidade. Estamos vivendo na sociedade do controle, como nos ensinou o filósofo francês Gilles Deleuze. Em outras palavras, o marketing, hoje, é usado como instrumento de controle social e individual, coletivo e pessoal. Adeus privacidade! E tudo isso foi feito para que consumíssemos mais e mais. Adeus privacidade! 

Ele consome 
 Perdemos o sentido do indivíduo – a individualização. Somos coisas, coisinhas, coisonas! Estamos submissos ao consumismo, ao mercado. Vivemos moldados, amordaçados, escravizados, com comportamentos padronizados e estratificados. Há poucas alternativas fora desse modelo capitalista. Quem me governa? A quem devo obedecer? Sigmund Freud já, em 1930, escrevia e nos ensinava que mesmo o homem sendo imagem e semelhança de Deus sempre se sente infeliz. Aí, para ser curada essa infelicidade, partimos para as compras. Como não temos tanto dinheiro assim, começamos a trabalhar muito mais para comprar muito mais. Nesse sentido, somos escravos do trabalho e do dinheiro. Somos massa de manobra, porque nossos comportamentos são sempre do consumo – possibilidade de nos tirar da angústia, da solidão, da amargura, da infelicidade. 

Nós consumimos 
 Isso assegura a expansão industrial e comercial, mantendo a atividade econômica. Daí, o lançamento sempre de novos produtos. Compramos um novo carro, mesmo se o anterior ainda estivesse bom. Quanta perversidade! Acredito que a violência esteja associada a essa coisificação da humanidade. O fato é que temos aversão a tudo que seja velho, usado, tornando as coisas obsoletas cada vez mais num tempo menor. Onde vamos parar? E a produção de lixo? Como existem pessoas com compulsão pelo consumo. Aí, a frustração, o estresse, as fobias, as manias, as neuroses, as doenças da modernidade. Tudo tem seu prazo de validade, inclusive o amor e a justiça, a fé a transcendência, o emprego e os muitíssimos remédios e medicamentos. Tudo é absolutamente passageiro. 

Vós consumis 
Quando comemos a mesma comida, bebemos a mesma bebida, desejamos os mesmos desejos de todo o mundo, nada somos. Somos ninguém. Não por acaso, Reich escreveu: “Escuta, Zé Ninguém”. Não conseguimos selecionar o que retemos e aí passamos a reproduzir – como papagaios – a linguagem, os gestos, os gostos, os comportamentos. Mais do que ninguém, os marqueteiros, hoje, sabem tudo – até mais do que Freud – sobre o Eros e o Tânatos. “Para fugir da morte, consuma, compre, beba, coma, divirta-se”. Para alguns estudiosos e filósofos, a isso dá-se o nome de processo autodestrutivo – isto é, as pessoas vão se destruindo aos poucos, a cada dia, a cada compra. A título de exemplificação, Nietzsche nos ensina que a democracia industrial gera uma sociedade-rebanho; Marx, bem antes, já afirmara que massa não pensa. Tudo isso são ameaças da modernidade: a morte da subjetividade, da eudade, das nossas capacidades racionais, mentais, intelectuais, culturais, afetivas, psicológicas, ontológicas. 

Eles consomem 
 O ser humano não precisa de predador, porque é predador de si mesmo e de seus semelhantes. Não por acaso, Thomas Hobbes reeditou, reescreveu, repensou e repassou-nos a frase do filósofo latino Plauto: “O homem é o lobo do próprio homem” – “Homo homini lupus”. Assim também, na política. Um candidato político faz questão de anular, denegrir, massacrar a honra, a dignidade de um outro – lobo X lobo. Os eleitores veem os políticos também como um produto à venda: necessário ou supérfluo? Essencial ou acessório? Os filósofos sempre se perguntaram: qual é o código do ser humano? Qual é a natureza humana? Sem muitas dúvidas, os pensadores, os estudiosos, os professores diriam que o código, a natureza do ser é o código, a natureza, a lógica do consumo. Todos nós estamos vivendo em função do ter, da fama e do sucesso, do dinheiro e do poder, do luxo e do bem-estar, da comodidade e lucro, do que eu ganho com isso e do culto do corpo. 

Eu te consumo 
 Já nos classificaram como homo erectus, homo sapiens, homo faber. Possivelmente, hoje seríamos classificados como homo consumericus. Consumimo-nos consumindo os outros e os outros se consomem consumindo a nós. Somos ao mesmo tempo caça e caçador, presa e predador. Consumir é a forma moderna de nos relacionar com os outros. Entre nós, tudo é negociação no sentido mais econômico possível. Seis meses de namoro valem uma indenização depois do relacionamento. Não será isso prostituição? Quem dá mais? Tudo virou leilão, a começar pelas Bolsas de Valores. Quanta sedução! Quanto prazer! Assim é a sociedade plutocrata – adoração do Bezerro de Ouro. 

Tu me consomes 
 Quando ainda era jovem li um grande livro de Konrad Zacharias Lorenz – Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1973 – nascido em 1903 e morto em 1989, publicado em 1973, “Os oito pecados da Civilização”. O livro é, para mim, quase que profético. A título de informação, citarei os pecados: a superpopulação da Terra que gera principalmente comportamentos agressivos e violentos; a devastação do espaço vital natural ocasionando doenças antes desconhecidas; a competição do homem consigo mesmo que afasta o homem dos verdadeiros valores humanos e sociais; o esmorecimento, mediante a efeminação, de todos os sentimentos e afetos viris que estimula o uso de analgésicos, antibióticos, germicidas, antibacterianos, inseticidas, antivirais, antirretrovirais; a decadência genética que cria parasitas-humanos; a ruptura da tradição que transforma seres humanos em máquinas; a uniformização das ideias e de comportamentos, através dos efeitos dos meios de comunicação de massa; rearmamento da humanidade até com armas nucleares.