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Em Questão

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Décio Bragança 25/05/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Autonomia 
 Estamos vivendo momentos de muitos medos e inseguranças, para, propositalmente, estimular o consumo de produtos que se livrem dessas inseguranças e medos e fragilidades. Porque frágeis, compramos alarmes, cercas elétricas, carros com air bags, câmaras de segurança, sistemas sofisticados de segurança residencial e patrimonial, seguro de vida, planos de saúde, móveis e utensílios à prova de água e de choque, tapetes térmicos, ar-condicionado, roupas térmicas, olho vivo nas ruas e avenidas, policiais armados e despreparados, cães de guarda, portas giratórias, catracas em todos os lugares, pedágios, antenas parabólicas e sistema fechado de televisão, forno de micro-ondas... tudo para a busca inconsciente de autonomia. 

Bem-estar 
Que autonomia?  Autonomia de não sair de casa para ir a um cinema, ou teatro, ou show, porque tem acesso via computador, ou canais abertos e fechados, ou iPod? Autonomia de não visitar um amigo, porque conversa com ele nas redes sociais? Autonomia de não fazer um almoço, ou jantar, porque já tem tudo pronto, estocado no freezer? Autonomia de fazer tudo isso na hora e dia que quiser? “Estou conectado” – “Sou ready to go” – “Sou delibery” – “Sou drive through” – “Sou feliz porque tenho tudo à minha disposição”. E assim cada vez mais vamos nos prendendo a essa tal autonomia – eu-mesmo, eu sem o outro, porque o outro também tem essa tal autonomia. 

Solidão 
O pior é que entendemos tudo isso como liberdade. Não é isso uma paranoia, uma pantomima, uma doença? Um amigo meu ensina a seus amigos que precisamos apenas de cinco AS: ar – água – agasalho – alimentos – abrigo. Estamos criando necessidades ilusórias, enganadoras, voláteis, artificiais, aparentes, sedutoras, efêmeras, passageiras, rápidas, momentâneas, imediatas, fugazes. A sedução é tamanha que se deixarmos para comprar alguma coisa depois – por exemplo, amanhã – não compraremos aquela coisa mais. Estamos embriagados, narcotizados pelo desejo de comprar. 

Eu quero 
Será mesmo que essa compulsão de comprar existe para compensar o sofrimento e/ou vazio de existir? Caso isso seja verdade, comprar passa a ser o que nos resta para fazer. Assim, compra-se para não morrer. “Nada mais tenho para comprar, nada mais tenho para fazer!” Os marqueteiros com ajuda de psicólogos estão escaneando o nosso subconsciente e inconsciente. Eles conhecem todas as fraquezas e fragilidades humanas. Observemos um grande supermercado: há quantos vendedores lá? Nenhum! Nenhum? Não é preciso, porque os donos já sabem de antemão que todos nós somos compulsivos para o consumo. Eles não dão liberdade de, pegando um carrinho, enchê-lo de tudo o que quiser. Quanta liberdade! Que liberdade? 

Eu posso 
No fundo, nós nos deixamos escravizar pelas próprias mãos. E o pior, pagamos aos donos imediatamente, na hora. Existem várias pesquisas que provam e comprovam que se você for a um supermercado com fome – antes do almoço – você comprará, no mínimo, 30% a mais do que tinha planejado. Pesquisas semelhantes acontecem quando você leva crianças aos supermercados. Pesquisas também demonstram uma diminuição de batimentos cardíacos, o brilho aumentado nos olhos, dilatação das pupilas das pessoas nos supermercados, quase em estado hipnótico, diminuindo a capacidade de resistência. 

Eu devo 
A vida – poucos sabem disso – não é um conto de fadas, tendo tudo à mão e tudo pode ter um efeito mágico, basta usar a varinha de condão moderna – cartão de crédito. Luzes e cores e sons sempre estimulam a compra, bem sabem os marqueteiros que nos criam todas as sedutoras armadilhas e arapucas. No universo do comércio, do consumo, nada acontece por acaso. Tudo tem de ser testado anteriormente dando a sensação ao consumidor de que aquele determinado produto foi feito somente para ele. “Era isso que precisava!” 

Dividir 
Para mim, o grande problema não é comprar, mas a pessoa ter a certeza de que o que comprou é dela e só dela, ou até é ela. Para mim, comprar é ter o direito de usar. Se não uso não é meu. Assim o é com o automóvel, terras, casas, terrenos, fazendas. Quão bom seria se a gente pudesse e conseguisse partilhar e compartilhar todas as coisas que compramos. Um amigo meu que já morou na Bélgica nos ensinava que, aos sábados, domingos e feriados, ia para as praças, pegava um livro, um CD, um DVD, levava-os para casa e no próximo feriado deixava-os no mesmo lugar e levava outros. Morou três anos por lá, comprou apenas um livro para trazer de presente e nos disse ainda que nunca leu tanto em sua vida. 

Multiplicar 
Não gostamos da partilha! Não gostamos de dividir! Gostamos mesmo é de acumular, multiplicar! Em minha casa, há milhares de livros, de discos, de filmes que já fiz uso deles. E agora o que faço com eles? Não quero nem vou ler o livro novamente, ouvir o disco novamente, ver o filme novamente, já que se tem muita coisa para ser ainda lida, ouvida e vista. Já propus levá-los para as praças e emprestar tudo. Ninguém quer nada emprestado. Muitas pessoas preferem roubá-los. A nossa cultura não nos permite partilhar. A desgraça maior ainda é que tudo isso um dia, não muito distante, vai virar lixo. Muito lixo. 

Somar 
Muitos ambientalistas e utópicos já iniciam uma campanha mundial da nova era: ERA DO ACESSO – precisamos de músicas, mas não precisamos de CD e DVD; precisamos de transporte, mas não precisamos de automóvel; precisamos de poesia, mas não precisamos de livros; precisamos de alimentos, mas não precisamos de geladeiras e freezers. A nossa cultura nos imprime na mente e no coração que TER algumas coisas dá status. Alguns economistas não se cansam de nos ensinar que pagar um táxi para ir ao trabalho fica muitas vezes mais barato do que a manutenção de seu próprio automóvel. Ficaria ainda muito mais barato – e o ambiente agradeceria – se os prefeitos se preocupassem mais com o transporte público coletivo, rápido, eficiente, de boa qualidade. 

Subtrair 
Mas, como ficariam as fábricas de automóveis? Seria a mesma situação se tivéssemos uma vacina contra o câncer, o que seria dos oncologistas? É urgente pensarmos na exaustão dos recursos naturais, da matéria-prima, construirmos objetos de maior durabilidade, acabarmos com a obsolescência programada, repensarmos num desenvolvimento sustentável e tantas outras ações importantes.