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Em Questão

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Décio Bragança 01/06/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Venha a mim o seu reino 
Lembremo-nos de Gandhi: “Há recursos suficientes neste planeta para suprir as necessidades de todos, mas não haverá nunca o bastante para satisfazer os nossos desejos de posse.” O fato é que estamos construindo muitos castelos de areia, chamada, hoje, de Pirâmide de Ponzi – um castelo de cartas de baralho, sem bases sólidas e éticas. Com tudo que estamos vivendo, por causa da privatização de todos os espaços nas cidades, nada mais nos é permitido. Sem ruas e sem praças, sem avenidas e sem gente, sem esgoto e sem água tratada, as pessoas pobres vão sendo empurradas para os morros, para a periferia, sem ser donos dos locais que levantam seus barracos. 

Comida de urubus 
 As cidades e as pessoas das cidades passaram a ter donos. Os prefeitos “comem” nas mãos dos empresários que passam a dar as cartas, definindo tudo de acordo com os seus interesses. Até o lixo ou a coleta de lixo foi terceirizado. Qual é a função das prefeituras e dos prefeitos? Entregarem-se e entregarem suas obrigações a outros. Isso para dizer que a política e os políticos nada mais têm para fazer. A economia e o mercado são os nossos “donos”. Essa é a razão por que gostamos de falar mal de prefeitos, governadores e presidente, de todos os políticos. Enquanto falamos mal dos políticos, não questionamos os interesses e intenções das corporações e do capital. “A culpa é dos políticos”. 

Bezerro de ouro 
 O dinheiro é fascinante e o poder do dinheiro corrompe. Culpados os que foram corrompidos, mas nunca culpamos os corruptores. O argumento falacioso é que os corruptores tudo fizeram para o bem comum, para o bem coletivo, para o bem de todos; os corrompidos levaram vantagens individuais, pessoais. Com esse argumento, os corruptores ainda saem por cima, são elogiados e, algumas vezes, até idolatrados. Fazemos questão, via meios de comunicação, de desmoralizar todas as empresas públicas e dar bons exemplos de empresas privadas. Se saímos das mãos de safados, caímos nas mãos de mais safados ainda e não percebemos isso. 

Vão-se os anéis 
 As operadoras dos serviços públicos, quando privatizadas, têm estímulo do governo com recursos da CEF – Caixa Econômica Federal – e do BNDES – Bando de Desenvolvimento Econômico e Social.  Pronto! O Estado perdeu a capacidade de gerir, controlar, defender os interesses dos cidadãos. Pronto! Está garantido o lucro das operadoras. Assim, cidadão virou consumidor, coisinha, joguete do mercado. Quem pode pagar, sobrevive nas cidades; quem não pode, é marginalizado. O mercado imobiliário, sabemos, talvez, seja o mais cruel de todos. 

Aos amigos, tudo 
 A isso chamamos de maximização dos lucros. Não é por acaso que o Ministério Público de São Paulo entrou com uma ação acusando apenas uma das concessionárias de ter se apropriado indevidamente de mais de 2 bilhões das pessoas que pagam pedágio. E o governo de São Paulo? É conivente ou cúmplice? E o cidadão argumenta: “Prefiro pagar a não ter boas rodovias.”  E assim vamos construindo nosso país: bairros ricos têm tudo (bons hospitais, serviços públicos disponíveis, boas escolas, shoppings, espaços de lazer, segurança pública e privada, câmaras nas ruas e avenidas...) e os bairros pobres não têm absolutamente nada.

Aos inimigos, a lei 
 Porque a cidade do Rio de Janeiro é quase vertical, esses contrastes são visíveis, ao passo que São Paulo com os mesmos problemas a situação não é tão visível, porque é geograficamente horizontal. O Estado com as suas polícias, dentro dessa lógica, criminaliza e sempre criminalizará a pobreza. Tudo isso compõe o que costumamos chamar de política neoliberal – tudo é negócio, tudo é mercadoria. São poucas cidades brasileiras que levam a sério o seu Plano Diretor de Urbanização, apesar de leis e do Estatuto das Cidades. Claro, o Brasil tem avançado bastante com o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, o “Minha casa, minha vida”, mas ainda falta muito para caminhar.

É dando que se recebe 
 É preciso ainda lutar pela Reforma Urbana. “Cidade é para gente.” O grande problema ainda continua sendo a especulação imobiliária – o que contraria qualquer proposta do direito à vida. Em outras palavras, poucas pessoas ainda participam da gestão do orçamento das cidades – o que é fundamental na formulação de políticas públicas. Reclamar a gente reclama, mas participamos muito pouco dos projetos importantes para o modelo de desenvolvimento das cidades e do país que queremos para nós e nossos filhos. 

Quem dá mais? 
 As cidades têm de ser os espaços privilegiados de encontros e solidariedade, de exercício de cidadania e ética. Todos nós queremos uma vida digna, um emprego bem remunerado, bons serviços públicos. Um discurso desses arrepia aos capitalistas desejosos de que os governos lhes satisfaçam em todos os sentidos. Daí, o atrito entre economia e política. Infelizmente, a política almoça, janta, dorme com a economia – senhora absoluta de nossos desejos. São esses capitalistas que financiam as campanhas eleitorais. Na realidade, os governos municipal, estadual e nacional não têm interesses a favor do povo, mas com quem os financiou. Vira e mexe, uma ou outra voz se levanta contra a corrupção. 

Dou-lhe uma 
O interessante é que criticamos os corruptos, mas não responsabilizamos os corruptores. Os marqueteiros dos capitalistas vorazes – temos de admitir – são altamente competentes, porque nos tornamos maximamente individualistas, consumistas, imediatistas, hedonistas. Se alguém se diz contrário a tudo isso é imediatamente tachado de passadistas, retrógrado, demodê, ultrapassado, saudosista, utópico, rebelde, quando não subversivo, pessimista, inconformado, doido varrido. A verdade é que “nos direitamos”. 

Dou-lhe duas 
O povo japonês, talvez seja o povo mais místico do mundo. Sabemos que o Japão sofre terríveis catástrofes naturais. E povo sempre associa as catástrofes aos maus governantes e à maldade do próprio povo – o que ele chama de vingança dos deuses – vingança celeste. As próprias autoridades pensam assim. Na última catástrofe de grandes proporções, o prefeito de Tóquio, depois do desastre da usina nuclear em Fukushima, fez referência ao individualismo exacerbado, ao lucro imoral, às relações humanas e sociais deterioradas, ao hedonismo irracional, ao materialismo insano, ao imediatismo sedutor, ao modo e jeito de vida inconsequente e irresponsável, ao consumo desregrado, ao culto do dinheiro, à falta de fé em Deus e nos homens. 

Dou-lhes três 
 Essa tática política também é uma maneira de os governantes culparem as pessoas. Para não fazerem o que deve ser feito, culpam o povo. Os nossos prefeitos, fugindo de suas responsabilidades, porque não querem investir e não investem no combate, por exemplo, à dengue, responsabilizam as pessoas. “O povo tem de fazer a sua parte!” Quando não fazem isso, jogam a culpa para São Pedro, para o destino. Quanto fatalismo!