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Em Questão

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Décio Bragança 29/06/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

A culpa é da serpente - Lembro-me de um texto de Leonardo Boff referindo-se à gripe do frango, à febre suína, às vacas loucas como vingança dos porcos, das galinhas, das vacas, em represália a maneira como são tratados pelos homens. Não acredito em um Deus punitivo, mas acredito que o desequilíbrio ecológico, da natureza, na tentativa de busca do equilíbrio, provoque muitos acidentes. Quando era mais jovem, falou-se da explosão de piranhas no pantanal mato-grossense. Os pesquisadores e estudiosos chegaram a conclusão que, por causa da caça e morte indiscriminadas dos jacarés – predadores naturais das piranhas – tenha provocado essa superpopulação. Foi preciso proibir a caça e matança de jacarés para ser vendida – fazer dinheiro – a sua pele ou couro. 

A culpa é do progresso - O desequilíbrio cria, sim, problemas para todos, inocentes e culpados. Os recursos naturais – matéria-prima das indústrias – estão chegando a exaustão, além da produção de lixo e poluição. Muito lixo! Muita poluição! Assim é o capitalismo! O argumento é sempre o mesmo: “Esse é o preço do progresso!” – “Não pode haver crescimento sem riscos!” Estamos passando por momentos de escassez de água em São Paulo, em Uberaba. Diferentemente de São Paulo, no rio que abastece a cidade de Uberaba, não há nenhuma reserva de água. Por que não fazem pequenas represas nesse rio? Até as formigas sabem que é preciso reservar, guardar alimentos e água para os momentos difíceis. 

A culpa é de São Pedro - As formigas não sabem culpar São Pedro. Nós nos acostumamos a fazer todos os sacrifícios, pois acreditamos também que o sofrimento purifica a alma. Para os empresários, trabalhador bom é o que é leal, fiel, acomodado, que chega na hora certa, não reivindica, não tem desejos, inerte, calmo, amorfo, acéfalo, dedicado, paciente, resignado, submisso, acrítico, humilde, que não se revolte e ainda adore seus superiores. “Prefiro pingos a sequidão”. A questão primordial é conceituar com clareza e objetividade o que seja desenvolvimento. É crescimento econômico? É produzir para exportar, equilibrando a balança comercial? É a capacidade de consumir, ou fazer empréstimos? É o dever de administrar dívidas? É viver bem e com dignidade, tendo respeitados todos os direitos? 

A culpa é de Santo Antônio - Talvez tenhamos aumentado a nossa capacidade de comprar. Só que paralela e paradoxalmente tem aumentado também o desemprego, a exclusão, os preconceitos, as desigualdades, a violência, a destruição do ambiente, a poluição, as doenças, a angústia, o estresse. A impressão que se tem é que o atual modelo de desenvolvimento não deu certo. A produção não pode ser um fim em si mesmo. A produção é meio para a satisfação de necessidades e prioridades. Isso significa melhorar as condições de vida: segurança, lazer, cultura, transporte educação, saúde, habitação, trabalho, alimentação... 

A culpa é de São João - Isso significa tirar o pé do acelerador que provoca desequilíbrio do clima, aquecimento do planeta, a morte e extinção de espécies animais e vegetais. Isso significa repensar os sentidos e valores da vida, além do lucro e das riquezas, da fama e do sucesso, dos bens e do poder. Um país não pode valer pelo seu PIB – Produto Interno Bruto. E o que é o PIB? “Representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos em uma determinada região (qual seja, países, estados, cidades), durante um período determinado (mês, trimestre, ano), dividido pela média populacional. O PIB é um dos indicadores mais utilizados na macroeconomia com o objetivo de mensurar a atividade econômica de uma região” (Wikipédia). É usado pelo FMI para efetuar os seus famosos empréstimos. O PIB do mundo inteiro é aproximadamente US 72 trilhões. 

A culpa é dos números - Eis a lista dos dez primeiros ranqueados, a título de curiosidade, do PIB, em 2013, feito pelo FMI – Fundo Monetário Internacional: Estados Unidos 16.799 trilhões; China 9.181 trilhões; Japão 4.901 trilhões; Alemanha 3.635 trilhões; França 2.737 trilhões; Reino Unido 2.535 trilhões; Brasil 2.242 trilhões; Itália 2.671 trilhões; Rússia 2.118 trilhões; Índia 1.870 trilhões. Também para ilustrar os dez países mais bem classificados pelo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, em 2013: Islândia 0.968; Noruega 0,968; Canadá 0.967; Austrália 0,965; Irlanda 0.960; Holanda 0.958; Suécia 0.958; Japão 0,956; Luxemburgo 0.956; Suíça 0,955. Por esse índice o Brasil está em 70º lugar.  O bem estar das nações não pode ser medido apenas por sua riqueza e produção de bens. Por isso, muitos estudiosos e pesquisadores, hoje, estão interessados em criar critérios para ranquear o Índice de Felicidade Interna Bruta dos países – FIB. O problema é que envolve alguns critérios subjetivos de difícil mensuração. A busca de um índice de Felicidade passa por perguntas feitas aos cidadãos de determinada nação, ou região, ou cidade. 

FIB ou FED - Quais os níveis de satisfação com a sua vida, com a família, com o emprego? Níveis de ansiedade e de angústia? Quais suas grandes emoções? Seus sentimentos positivos? Os estudiosos e pesquisadores, usando nota de 0 a 5, perguntam sobre o bem estar material associado ao Produto Interno Bruto; a saúde associada à expectativa de vida e ao número de suicídios; estabilidade política; vida em família, vida em comunidade; clima associado às emissões de dióxido de carbono, temperatura; geografia associada ao desenvolvimento; trabalho associado ao desemprego, rendimento e as condições de trabalho; liberdade e participação política; igualdade de sexos. Países como Butão (talvez, por causa de sua religiosidade ou a religiosidade do povo), Vietnã, El Salvador, Guatemala, Honduras, Cuba (talvez por causa das políticas públicas de saúde e educação), Panamá (talvez, por causa do respeito ao meio ambiente), Costa Rica (talvez, por causa do respeito ao meio ambiente), Colômbia apresentam altos índices de Felicidade Interna. O ranque mundial – os dez melhores – é o seguinte: Dinamarca – Finlândia – Noruega – Holanda – Canadá – Suíça – Suécia – Nova Zelândia – Austrália – Irlanda. O Brasil figura em 25º lugar.  Não importa. Importa que sejamos o país do futebol, do carnaval, do sexo.

Ditadura da economia - O único critério, claro, não pode ser o desenvolvimento econômico, através de seu PIB – produzir mais – vender mais. A verdade que muitos insistem em não admitir é que esse modelo de desenvolvimento está destruindo o nosso planeta. Os recursos naturais são finitos. A economia está e sempre esteve centrada na produção e consumo de bens. Será sempre assim? Será que não está na hora de se buscar um novo modelo? Alguns economistas nos alertam que se continuar no mesmo ritmo de consumo, nos próximos anos teremos de “inventar, descobrir uma nova terra”, porque esta  estará esgotada. Pior de tudo: sabemos que 80% do consumo está concentrado nos países desenvolvidos. Em outras palavras: alguns poucos estão decretando a morte de muitos outros.