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Em Questão

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Décio Bragança 06/07/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

AUTONOMIA - Por que será que não são eliminados todos os subsídios de todos os produtos no mundo inteiro? Essa é a arma que muitos países têm para aumentar a dependência dos mais fracos em relação aos mais fortes. Observemos as redes de super e hipermercados brasileiros. Quantas dessas redes são brasileiras? Não se trata de nacionalismo ou de bairrismo ou de xenofobia, mas de proteção a nossos agricultores. Estamos vivemos a época das grandes corporações. É preciso, sim, uma coordenação internacional de controle de oferta, que não seja a atual OMC – Organização Mundial do Comércio – ou a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação, impondo principalmente um preço mínimo a cada produto. 

INDEPENDÊNCIA - Os países não podem ficar navegando em águas turvas do mercado, num jogo obscuro de interesses e intenções. O chamado agronegócio – corporações internacionais – usam o Brasil para as suas experiências científicas. Não é por acaso que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Tudo o que é proibido em outros países, aqui é permitido, usando o argumento de ser uma empresa privada e que não tem de dar satisfação ao Estado, ao Governo, ao Povo. São grandes extensões de terras de um único produto – monocultura de soja, de cana, de batatas, de laranjas – produtos de exportação. 

DÚVIDAS - Que mal fazem esses agrotóxicos? Ficam os alimentos contaminados? Os trabalhadores do campo têm sua saúde afetada? Que mal faz para os trabalhadores nas fábricas desses agrotóxicos? Têm toda a segurança necessária? Esses agrotóxicos não fazem mal ao meio ambiente? O uso desses produtos não tem de ser melhor fiscalizado? Os trabalhadores rurais têm todas as informações necessárias e importantes sobre o uso desses produtos? Quais os efeitos sobre os animais? Os trabalhadores usam todos os equipamentos de proteção? Quais os produtos são permitidos e quais são os contrabandeados – proibidos? Os trabalhadores sabem disso? Qual a análise é feita dos produtos alimentícios que vão à mesa do consumidor? Qual é a função da ANVISA – Agência de Vigilância Sanitária? 

INTERROGAÇÕES - Que são os organofosforados? Quais seus efeitos? O que produz a neurotoxicidade? O que produz a imunotoxicidade? E a carcinogenicidade? E como é feito o tratamento das intoxicações? Essas intoxicações são fáceis de ser detectadas? Há riscos de transtornos psiquiátricos? Por quanto tempo permanece a sua toxicidade? Que alterações podem ser sentidas na água, no ar? Os agrotóxicos não produzem desequilíbrios no solo, no ambiente? Esses desequilíbrios não pode fazer aumentar o número de outras pragas? Daí, novas pragas, novos produtos com maior toxicidade! E que dizer dos fertilizantes químicos? Quais as condições de trabalho do aplicador de agrotóxicos? Qual sua escolaridade? Qual o destino das embalagens? 

LUCROS - São perguntas que nossas autoridades e governo têm de responder à população. O fato é que já existem solos “cansados”, de baixa produtividade, pouco vitais, depois do uso excesso de agrotóxicos e de fertilizantes. Estima-se em quase 400 mil casos/ano de intoxicações no meio rural. São vidas sacrificadas, expostas a doenças e morte. Claro, pragas têm de ser combatidas, mas de que forma? É aí que entra a função primeira das universidades e centros de pesquisas: fazer ciência. Não há agrotóxico sem tóxico, é lógico, mas é possível sim diminuir o grau de toxicidade dos produtos. Normalmente, os agrotóxicos são aplicados na mais alta escala, inclusive para diminuir o trabalho e ganhar tempo. “Tempo é dinheiro”. Perder tempo é perder dinheiro – pensam os donos das terras e das pessoas. Apesar dos produtos agrícolas não terem um valor significativo na composição do BIP de um país, poderá ser o motor de desenvolvimento saudável, sustentável, humano. 

MERCADO - É inconcebível que países tenham de importar alimentos com tanta terra ociosa por menor que seja o país. Nem sempre as pessoas têm recursos suficientes para comprar alimentos. Desde a antiguidade, na Grécia, por exemplo, a agricultura era tida e havida como a mãe de todas as artes e de todas as ciências. Dois estudiosos brasileiros, respeitados no mundo inteiro, Josué de Castro e Milton Santos, sempre firmaram, afirmaram, confirmaram que há alimentos suficientes para alimentar todas as pessoas do mundo. O problema, então, não é produção, é comercialização e distribuição nas mãos de interesses econômicos, capitalistas, anônimos corporativos, neoliberais, individualistas e lucristas. 

CITAÇÕES - Os países afiliados da ONU se comprometeram até 2015 eliminar a fome e a miséria do mundo – uma das oito metas do milênio. O problema é que a fome e a miséria nos são indiferentes. Até justificamos essa indiferença com argumentos religiosos: “Não cai uma folha de uma árvore que não seja vontade de Deus”. Isso para dizer que Deus criou um mundo desigual e é assim é que deve ser. “Sempre houve gente muito rica e gente muito pobre”. A fome e a desnutrição enfraquecem a capacidade físicas e intelectuais das pessoas, favorecendo o aparecimento e desenvolvimento de muitas doenças – o que também é uma das maiores fontes de renda. 

E DAÍ? - A industrialização e a monocultura – agronegócios – trazem lucros astronômicos. Outro problema sério que os Estados terão de enfrentar é a questão da água, do controle da água. Uma monocultura – agronegócio – por exemplo, que usa a agricultura irrigada gasta três vezes mais água do que a chamada agricultura pluvial, além de lavar o solo tirando-lhe alguns nutrientes importantes e levando alguns venenos para os mananciais de água. Projetos de drenagem, de abertura de pequenos poços, de construção de barragens pequenas para a reserva de água são urgentes, para aumentar a produtividade e criar opções de alimentação, como a criação de peixes. 

QUESTÕES - O controle de água é fundamental para que todos tenham o mesmo direito a ela, inclusive nas áreas de deserto. Não há vida sem água. Tudo isso nos mostra como a vida no campo para os pequenos agricultores, da agricultura familiar, não é fácil, além da falta de estradas que dão acesso às cidades, ao mercado consumidor, armazéns para a conservação de seus produtos, falta de mão de obra, sem acesso aos bens e eletrodomésticos, sem acesso à saúde e educação, convivendo, às vezes, até sem energia elétrica. Pior de tudo é que achamos isso absolutamente normal, natural. “Sempre foi e será assim.” Nada detém o apetite voraz dos senhores financistas e especuladores, em busca de matéria-prima para a indústria, por exemplo, de alimentos. Os ambientalistas nos alertam que, caso não sejam acertadas algumas medidas de contenção do lucro, teremos mares sem peixes, por causa da indústria da pesca e campos sem cereais e frutas, por causa do agronegócio. Com o avanço do agronegócio, com a monocultura, foi criada uma situação no mínimo paradoxal: as terras dos pequenos proprietários que por muitos motivos não têm condições de produzir, são arrendadas aos grandes que as fazem produzir. 

AFINAL - Normalmente, o arrendamento é feito por dez anos. Na verdade, os pequenos passam a ter alguma renda com as suas propriedades e proporcionam um lucro astronômico aos grandes. Trocando em miúdos: os meios são legais, bacanas, mas, talvez, os fins não tenham essa mesma avaliação. Se assim não age é pior para ele. Isso não é contraditório? Paradoxal? Estranho? Quando as suas terras voltarem para as suas mãos, talvez nada mais possam produzir. E daí? Os problemas futuros têm de ser resolvidos no futuro. Isso não é imediatismo? Inconsequência? Irresponsabilidade? Não é depredação de um patrimônio? O que fazer?