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Décio Bragança 07/04/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
"Tenho sede"

A ONU - Organização das Nações Unidas - escolheu o dia 22 de março para celebrar o "Dia Internacional da Água", quando da realização do 3º Fórum Mundial da Água, em Kioto, Japão, em 2003, há dez anos. Se há um dia específico para comemorar alguma coisa é porque essa "coisa" tem problemas sérios. Dia da Mulher, porque as mulheres nunca foram respeitadas. Dia da Criança, porque a criança nunca foi respeitada e assim por diante. Na verdade, não é uma comemoração nem celebração, mas uma tomada de consciência. É possível, sim, que estejamos acabando com a água de nosso planeta ou, no mínimo, estamos degradando todos os nossos recursos hídricos. Sem água, não há sobrevivência. Há mais discussões do que ações concretas, pontuais dos governos do mundo inteiro, que estão muito mais preocupados com a economia - quanto vão levar - do que com a vida. A culpa também é nossa, porque entendemos que esse problema não é problema nosso e, por isso, os outros - os governos - é que têm de resolver. Se não estamos preocupados com a nossa sobrevivência e nosso futuro, muito menos estamos preocupados com a vida dos ecossistemas. 

"Os rios morrem de sede"
Os estudiosos e pesquisadores nos alertam que a preservação das nascentes dos rios está diretamente relacionada com a preservação das florestas e plantas em torno das águas, protegendo-as do assoreamento e erosão, principalmente nos climas tropicais. Sem florestas e plantas, não há mananciais nem rios. A água, principalmente da chuva, é que abastece os grandes reservatórios chamados aquíferos, lá do subsolo. Há uma interligação de todas as coisas e de todos os seres. As florestas e plantas protegem as nascentes e servem de alimento para os animais, que, por sua vez, espalham sementes por uma maior extensão de terras, criando novas plantas e florestas. Esse equilíbrio não entendido por nós é que nos mantém vivos. Mas, o homem - senhor da vida e da morte - filho de Deus - se julga maior e melhor dos seres, interferindo negativamente para matar a vida do planeta. Apesar do novo e do velho Código Florestal, apesar do Estatuto da Terra, apesar da Polícia Florestal e Federal, teimamos em fazer queimadas, derrubar árvores para pastagem, usar a mecanização ostensiva na lavoura, destruindo pequenos olhos d'água e nascentes. Paralelamente, as prefeituras já não sabem como "produzir" água para as populações pelas quais são responsáveis. 

"As florestas morrem de sede"
O caminho a longo prazo, todos sabem, é plantar mais árvores e plantas ao lado das fontes, mas preferem fazer represas enormes que submergem mais árvores e plantas, construir estações de tratamento de água e esgoto, adutoras, bombas de água cada vez mais potentes e mais consumidoras de energia. Alguns ambientalistas uberabenses já estão nos alertando que proximamente não teremos água suficiente, bastante para todos. Além de a água nos alimentar e nos proporcionar o cozimento de alguns alimentos, é necessária à nossa higiene pessoal: tomar banho, escovar dentes, lavar roupas... Em algumas situações e em algumas cidades, a água é tão mal tratada que as pessoas preferem para beber comprar água engarrafada. É o fim do mundo! 

"Os animais morrem de sede"
Um absurdo porque preferem gastar seu suado dinheirinho com a compra de água e exigir das autoridades um tratamento adequado e obrigatório. Sabemos ainda que água mal tratada é fonte de morte, porque fonte de muitas doenças, como cólera, tifo, paratifoide, gastroenterite, hepatite, leptospirose, giardise, disenteria amebiana, salmonelose, sarna, tracoma, verminoses, esquistossomose, febre amarela, filariose, malária... e tantas outras, inclusive a dengue que está nos aterrorizando a todos. Infelizmente, os cientistas ainda não conseguiram inventar água. Então, só nos resta cuidar da água que é um bem natural de todos. E se tivessem inventado a água, estaria sendo vendida a preço de gasolina que é mais barata ainda do que Coca-Cola, ou qualquer outro refrigerante - água açucarada engarrafada. Reclamamos do preço da gasolina e temos de reclamar mesmo, mas não reclamar do preço da Coca-Cola que a cada ano bate recordes de consumo. Por dia, a população mundial de pouco mais de seis bilhões consome um bilhão e quinhentos mil litros de Coca. Só imagine: se fosse vendido por um dólar apenas, seriam um bilhão e quinhentos milhões de dólares por dia. Quanta insensatez! 

"O planeta morre de sede"
O fato é que, hoje, a humanidade tem a seu dispor menos de 1% de água potável - pronta para beber. Por isso, o sucesso das fábricas de refrigerantes. A água potável é a maior fonte de lucro do planeta, daí a briga e a guerra entre os povos. Água - objeto de cobiça. Grandes empresas multinacionais, internacionais, transnacionais lutam desesperadamente com os governos para privatizar a água, isto é, transformar a água em mercadoria. Como não conseguiram a privatização, querem o controle de acesso às águas. Claro, quem tem o controle de qualquer coisa, mesmo que não seja a água, detém o controle da vida e da morte de milhões e milhões de pessoas do mundo inteiro. Os pesquisadores e estudiosos nos alertam que hoje há no mundo mais de um bilhão sem acesso à água potável e que daqui a alguns poucos anos serão 3 bilhões, quase metade da humanidade. Já se ensina nas escolas que se no século XX brigavam e faziam guerra por causa do petróleo, no século XXI as guerras acontecerão por causa da água potável. 

"O homem morre de sede"
O ser humano vive sem se alimentar por alguns dias, mas não sobreviverá sem água por dois dias consecutivos. O Iraque, antes da invasão, por causa dos rios Tigre e Eufrates, praticamente tinha sua água toda aproveitável; hoje menos de 1% dessas mesmas águas são prestáveis. Durante a guerra, víamos aviões sobrevoando o Iraque soltando de paraquedas garrafas de águas e se dizia na época que era uma ajuda humanitária. Quanta ironia! Um país que tinha praticamente toda a sua água disponível, agora recebe água de avião, dos céus motorizados e interesseiros. O rio Jordão é disputado por vários países, no Oriente Médio. O Rio Ganges nem se fala. Se já houve a máfia da maconha, da cocaína, do petróleo, seguramente haverá a máfia da água. Enquanto entendermos que a água poderá ser um dia mercadoria, enquanto a ganância do lucro superar todos os princípios da ética, da moralidade, da civilidade, enquanto não entendermos a água como o elemento vital - matriz da vida - mais importante e bem de todos, claro não haverá nenhum pacto mundial, ou acordo internacional quer possa salvar o planeta e a raça humana. O corpo humano é composto de 70% de água. E se nossa "água" secar? E se nossa água não for reposta? 

"A vida 
morre de sede"