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Em Questão

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Décio Bragança 03/08/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Exportar é o que importa - Se continuar a mecanização da agricultura neste mesmo atual ritmo, muito brevemente camponeses, agricultores, campesinos, produtores de alimentos ficarão sem nada poderem fazer. Dizem que a natureza é sábia e por isso, graças a ela, nem todas as terras poderão ser mecanizadas por causa da acidentalidade do solo. As tecnologias avançaram tanto que os agrônomos dizem que hoje não há mais terra ruim para agricultura, por causa dos adubos naturais e químicos. Anos atrás ninguém poderia imaginar que, por exemplo, o cerrado brasileiro poderia produzir alguma coisa. Com a chamada “correção do solo”, tudo pode ser produzido, acrescentando a isso o uso de agrotóxicos agressivos. Como produzir alimentos necessários, respeitando a natureza, privilegiando e valorizando as comunidades rurais? São muitas perguntas sem respostas. 

Novos tempos - A verdade é que se deve sempre levar em conta a fragilidade dos seres humanos, diante do poderoso mercado. E como fica a OMC – Organização Mundial do Comércio – que tem como objetivo estimular o comércio, o mercado livre e senhor de todas as atividades humanas?  Acredito que as soluções passariam pela criação de novo modelo de desenvolvimento, já que o atual exige apropriação de todos os recursos naturais, para estimular uma indústria altamente lucrativa, um comércio voraz e um consumo insaciável. Tudo isso é muito perigoso. Até quando? Esse modelo, acredito, está comprometendo o nosso presente e o nosso futuro já bem próximo, porque acentua as desigualdades sociais, nacionais, internacionais. 

Nova humanidade - As culturas de exportação destroem a diversidade de produtos. São as chamadas frentes de expansão do agronegócio, ou monocultura. É uma competição desigual: o agronegócio X as comunidades rurais. Como, por exemplo cultivar uma soja não-transgênica numa região cercada por todos os lados de soja transgênica? E ainda mais: o preço da soja não-transgênica é maior do que a transgênica. E isso acontece com todos os produtos alimentícios. Aquelas práticas de agricultura antiga, tradicional já não existem mais e os conhecimentos herdados de muitas gerações são jogados no lixo. Como competir com máquinas, com sementes modificadas, com insumos químicos e agrotóxicos? 

Novas mulheres - Vale dizer que as pesquisas e a ciência trabalham para esse modelo de desenvolvimento. E a fome aumenta a cada dia no meio rural. Sem alternativas, ou os campesinos vendem ou arrendam suas terras. Preferem a exclusão nas cidades, na esperança de ainda continuarem vivos. Praticamente, está fora de moda a relação de compra e venda entre o produtor e o consumidor. Os produtores, hoje, não sabem quem são seus consumidores, porque produzem exclusivamente para a indústria. Hoje, liga-se a televisão e, praticamente, em todos os canais, programas falam de dieta, de obesidade. Que dieta? A dieta é determinada e definida pelo mercado. Já ouvimos algum nutricionista falando, por exemplo, que ovo faz mal à saúde; depois de alguns dias, outro nutricionista fala que o melhor alimento é o ovo. 

Novo mundo - Os produtos e a dieta são definidos pela oferta e pela procura, sem dúvida nenhuma. Daí, a padronização de gostos e sabores. Em outras palavras, não comemos o que queremos, mas comemos o que nos é oferecido, via mídias, via marqueteiros. Pior ainda, os preços são definidos nas bolsas de mercadorias que se situam nos países das grandes corporações, em países distantes. Em outras palavras, os preços vêm de fora e os problemas sociais e ambientais são locais. Vez e outra, brinco que a capital do Brasil – maior produtor de grãos e carnes – não é Brasília, mas as bolsas de valores e de mercadorias de Los Angeles, Nova Iorque, Frankfurt, Paris, Londres, Hong Kong, Tóquio... Um país se faz com política e políticos. Nunca com economia e com economistas. 
Nova política - Por isso, sempre fazemos questão de falar mal de todos os políticos e elogiarmos a economia, o desenvolvimento econômico. A economia, ouso dizer, coloca em risco a democracia, pela pregação e adoração do mercado. Como é difícil falar e defender a ideia de diversificação agrícola, se a monocultura é mais lucrativa? Como é difícil falar e defender a ideia de produção familiar, se o agronegócio é muito mais lucrativo? Como é difícil falar e defender a reforma agrária – limitação do tamanho de terras – se o agronegócio precisa, por causa da mecanização, principalmente, de grandes extensões de terras? Com é difícil falar e defender a ideia de diversificação de produção, se as sementes já vêm patenteadas? Como é difícil falar e defender a produção local e regional, se os preços dos produtos são definidos pelas grandes corporações? 

Nova cidade - Observemos o que acontecer com a cooperativa de leite de Uberaba – Coopervale: adquiriu um maquinário para processar até 200 mil litros de leite. A cidade e região já não produzem essa quantidade, por causa do arrendamento de terras para a plantação de cana, produção ora de açúcar, ora de álcool, dependendo das oscilações do mercado. E essa região já produziu muito mais do que essa quantidade. É mais econômico “vender” o leite às grandes corporações, como Parmalat, Nestlé... Sabemos que o Brasil é um país continental, mas usa apenas 250 milhões de hectares de terras para a produção (agricultáveis), com 120 milhões de terras ociosas em uma área total de 850 milhões de hectares de terras, segundo dados do governo. E levamos ainda a fama de ser o país com a maior concentração de propriedades da Terra: 60% das áreas rurais pertencem a 3% dos proprietários. 

Novo país - Segundo dados do IBGE  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – são 4 milhões de famílias sem terras que querem terra para produzir. Sem alternativa, entram nos muitos movimentos de trabalhadores sem-terra. A impressão que se dá com tanta terra ociosa – tantas são as dificuldades e empecilhos para uma reforma agrária – é que os governos e os grandes proprietários de terra temem que essas pessoas possam ser produtores de alimentos necessários e não dependerem do mercado. Como é difícil o acesso à terra! Muitos trabalham para dificultar o acesso à terra! Nesse modelo de desenvolvimento, escolhido por nós, o mais penalizado, sem dúvida, é o trabalhador rural. 

Nada de novo - A modernização agrícola, a absorção de novas tecnologias visando à produtividade aprofundaram ainda mais as desigualdades entre os grandes proprietários e os pequenos: de um lado, enxada, ancinho, rastelo, picaretas, pás; de outro, tratores, colheitadeiras computadorizadas. Criou-se uma guerra com “armamentos” altamente diferenciados. O atraso e a modernidade não podem conviver pacificamente nos cantos, recantos e encantos de nosso país. Assim, temos 500 mil estabelecimentos rurais altamente “modernizados” e produtivos contra 5 milhões de unidades agrárias altamente “atrasados” e de baixa produtividade, mas responsáveis por grande parte da produção de alimentos. 

Tudo velho - Claro, a violência está instalada nos campos, principalmente nas regiões onde há maior concentração de terras, de bens, de riquezas, de poder. Temos assim o aumento de pobreza. Contrariando a lógica democrática – chances e oportunidades iguais – os pequenos proprietários e “atrasados” são os que mais precisam de apoio e ajuda financeira, são os que menos recebem investimentos públicos, através do Banco do Brasil, ou Caixa Econômica Federal, ou BNDES – Banco Nacional do Desenvolvimento Social.  No fundo, não há qualquer possibilidade de desenvolvimento agrícola dos mais pobres. Que desgraça ser pobre! E muitos ainda pensam e falam que os brasileiros são, por natureza, preguiçosos, indolentes, vagabundos, malandros...