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Em Questão

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Décio Bragança 10/08/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

É um bom tipo meu velho – Na realidade, qualquer atividade humana interfere nas suas relações consigo, com os outros homens, com os outros seres vivos e não-vivos. Não é possível falar em desenvolvimento, por exemplo da agropecuária sem que a erosão, a contaminação das águas dos rios, o lençol freático, os riscos de acidentes naturais ainda não são controlados. O comércio e industrialização dos produtos, a economia, as políticas governamentais... têm ser levadas mais a sério. 

Que anda só e carregando – Tudo é dependente, codependente, interdependente e independente, ao mesmo tempo. Vale dizer que discutir ecologia não é debater-se sobre temas românticos, utópicos, estéticos. É, sim, hoje, uma questão de sobrevivência da raça humana.  

Sua tristeza infinita – O ser humano – ser histórico e geográfico, porque encarnado num tempo e num espaço – se mostra, hoje, preocupado com a explosão demográfica, principalmente com o inchaço das cidades grandes. Daí, um trânsito e engarrafamentos estressantes e sufocantes, ares sujos e respiração ofegante e as doenças respiratórias, rios e mares fedorentos, falta de tratamento de água e esgoto, lixo espalhado por todos os cantos, a violência das ruas e a pouca intolerância das pessoas, um corre-corre infernal em busca de nada ou de quase nada. 

De tanto seguir andando - Nossa casa, nosso bairro, nossa cidade, nosso país, nosso planeta... são por excelência a morada dos homens. Mas o homem trata mal a sua morada. No caso do Brasil, há apenas 7,3%, por exemplo, da Mata Atlântica original - espaço de grande concentração de pessoas. Soma-se a isso a especulação imobiliária, as ocupações irregulares, o êxodo da zona rural, as melhores oportunidades são oferecidas nas cidades... Plagiando Civita, na revista REALIDADE, de 1972: “Nossas cidades estão doentes e cada vez mais doentes.” Às vezes, tem-se a sensação de que as cidades foram construídas para automóveis e as pessoas passam a ser um detalhe na paisagem de cimento armado, na cidade vertical. 

Eu o estudo desde longe – Observemos os automóveis: há um automóvel, em média, no Brasil, para cada três brasileiro – o que dá um número de quase 70 milhões de automóveis; os automóveis, porque jogam no ar óxido de nitrogênio, monóxido de carbono, partículas em suspensão, chumbo, enxofre, outras combinações em contato com a radiação solar, ozônio, são responsáveis por 70% da poluição das cidades. São Paulo tem 2,4 habitantes por automóvel; Belém tem 8,18 habitantes por automóvel; fala-se que, em Uberaba, há quase 200 mil automóveis em circulação. 

Porque somos diferentes – Voltar atrás é impossível, mas pode e deve ter algum controle, por exemplo, da emissão de carbono, consumo de água, utilização de matérias-primas na indústria. No século passado, o século XX, foi o século da desruralização – invasão das cidades por pessoas do campo. Desruralização significa favelização – aumento desmedido de zonas periferias das grandes cidades. Com o crescimento sem planejamento, cria-se a impermeabilização do solo que, por sua vez, cria enchentes, deslizamentos, transbordamento de córregos e rios – e tudo isso cada vez mais vai-se tornando comum e normal. Alguns chegam a dizer que é o preço do progresso que temos de pagar. As baratas, escorpiões, mosquitos, ratos convivem com seres humanos e as doenças fragilizam ainda mais o ser humano. 

Ele cresceu com os tempos – Os estudiosos, pesquisadores e cientistas afirmam que 70% das doenças, no Brasil, são produzidas por falta de saneamento básico e higiene. O próprio Ministério das Cidades tem um dado muito interessante: cada real investido em saneamento representa quatro reais de economia em saúde pública. Daí, os hospitais estarem cheios, filas de espera e desespero de muitos familiares. 

Do respeito e dos mais crentes - O mesmo Ministério diz haver 60 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto; outros 60 milhões têm a coleta de esgoto que não é tratado; 75% do esgoto coletado é jogado em córregos e rios, in natura, (sem tratamento); matéria orgânica em água significa aumento de algas e de plantas aquáticas que também respiram, diminuindo a quantidade de oxigênio, matando peixes; 15 milhões de brasileiros não sabem o que é água encanada; 17 milhões de brasileiros não sabem o que é coleta de lixo; 64% do lixo coletado é colocado a céu aberto, nos famosos lixões... 

Velho, meu querido velho – As cidades – a morada dos homens – vão cada vez mais criando contradições e absurdos ininteligíveis: a mesma cidade que dá escolas, hospitais, creches, energia elétrica, conforto, bem-estar... dá também a exclusão, a marginalização, o desespero, a pobreza, a miséria, as dores, os sofrimentos, as doenças e a morte.  Acrescente-se a tudo isso o desejo de consumir, consumir, consumir, consumir... 

Agora caminha lento – Na realidade, todos queremos viver na luxúria e no luxo, na riqueza e na opulência, na civilização do ter, do ter-mais, do ter-muito. Raramente, alguém se pergunta o que realmente o faz feliz, o que realmente compra o que é necessário, o que realmente é necessário para se viver, viver-bem, viver-melhor. 

Como perdoando o vento – Há um relatório da OMS – Organização Mundial da Saúde – de 2010: 3 milhões morreram por causa da poluição do ar; 2,7 milhões morreram por causa da Aids; 2,2 milhões de diarreia. Em outras palavras – a poluição mata mais do que qualquer outra doença. E mesmo assim, não há políticas reguladoras da poluição, porque os argumentos de que isso faz parte do progresso vencem a qualquer resistência. Todos, brancos e não brancos, ricos e não ricos, estamos num barco. Observemos os aparelhos de ar-condicionado – grandes transmissores de fungos, de bactérias; os conservantes dos produtos alimentícios... 

Eu sou teu sangue meu velho – Quanto menos ambientes saudáveis nas cidades, maior será o mau-humor das pessoas. Há muita gente mal-humorada, hoje, no mundo! O famoso IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – orgulho de umas cidades e desgraça de outras - deveria incluir critérios importantes para essa medida: qualidade do ar, qualidade da água, manejo do lixo, densidade populacional, níveis de ruído, disponibilidade de parques verdes, qualidade do transporte público, áreas de lazer, serviços de acessos à saúde, ao saneamento básico, qualidade das habitações, limpeza das ruas e avenidas, além, é claro, dos índices de educação (alfabetização e taxa de frequência), longevidade e renda per capita.      

Teu silêncio e o teu tempo - Seus olhos são tão serenos. Sua figura é cansada. Pela idade foi vencido, mas caminha sua estrada. Eu vivo os dias de hoje. Em ti o passado lembra só a dor e o sofrimento. Tem sua história sem tempo. Velho, meu querido velho, agora caminha lento, como perdoando o vento. Eu sou teu sangue, meu velho. Teu silêncio e teu tempo. Velho, meu querido velho! Eu sou teu sangue, meu velho. Teu silêncio e teu tempo. Velho, meu querido velho!