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Em Questão

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Décio Bragança 17/08/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

HOJE O SAMBA SAIU - Fala-se que vivemos numa democracia. Pode haver democracia onde muitos ainda vivem excluídos? Onde há uma péssima distribuição de rendas? Onde as riquezas e bens estão concentrados nas mãos de tão poucos? Onde miseráveis e favelados moram entre poderosos, esbanjadores? Onde a fome (há um bilhão de pessoas no mundo que vivem abaixo da linha da pobreza = menos de um dólar por dia) é uma realidade? Onde a ignorância grassa e existem restrições de acesso à saúde e educação? As estatísticas apontam para números assustadores: 10% dos brasileiros mais ricos detêm 47,5% dos bens e da riqueza nacional; os 50% dos brasileiros mais pobres detêm apenas 14% dos bens e riqueza nacional. 

PROCURANDO VOCÊ - As promessas da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Constituição Federal do Brasil ainda não ecoam em todas as partes e regiões do mundo e do Brasil. Há muito desrespeito e intolerância entre as pessoas e enquanto não houver respeito aos direitos, não há democracia. Qualquer forma de escravidão é inaceitável, inclusive a da lavagem cerebral feita pelo comércio e indústria. Os princípios e ideais da Revolução Francesa: Liberdade – direito de ser, Fraternidade – direito às diferenças e Igualdade – direitos e oportunidades iguais, são cantados em versos e prosa, mas ainda pouco praticados na vida social.  

QUEM TE VIU - Precisamente por sermos pecadores, ficamos cegos diante de nossos pecados, diante de nossos erros inconfessáveis. Pecamos contra nós mesmos e pecamos contra os nossos colegas de trabalho, de administração, de emprego, de empreendimento. Queremos, insistentemente, nos fazer ver que não há mal no que fazemos. Pelo contrário, queremos louvores, aplausos, mesmo quando erramos. Então o coração se endurece, torna-se insensível às exigências do amor, da amizade, do companheirismo. Herdamos sim muitas características biológicas, físicas, espirituais, culturais, econômicas e sociais. Nada existe da noite para o dia! Tudo foi construído consciente ou inconscientemente por todos, pela humanidade inteira. Por isso é obrigação, dever de todos participarem de organizações, da vida de uma comunidade, de um país, compartilhando também as coisas boas – bens materiais e culturais.  

QUEM TE VÊ - A natureza se renova processual e continuadamente. Muitas árvores, no outono, parecem estar mortas, sem vida e sem vigor. Algumas chuvas, mudança na temperatura e tudo volta a florir. O ser humano, parte integrante e essencial do universo, também é assim. Tem a capacidade de superação, porque seus atos e atitudes são também fruto de sua vontade. Qualquer mudança de comportamento, de atitudes, de modo de ver e viver a realidade será sempre um desafio. Ao contrário da cegueira, a possibilidade de mudança entusiasma e estimula, porque nos obriga a crescer e evoluir, desfazendo as ilusões e as mentiras, principalmente a nós mesmos. Só poderemos ser o que somos. A possibilidade de mudanças abala as nossas certezas, cria-nos novas dúvidas e nos faz descobrir novos caminhos e horizontes.   

QUEM NÃO A CONHECE - A vontade – fazer o que é possível – é força suave, porque cria um novo ser, reordenando prioridades e potencialidades, forçando novos relacionamentos e crenças, modulando e modelando novos horizontes e mares. Tudo o que faz é surpreendente e a perspectiva de ser-mais e ser-melhor nos impulsiona para frente. Muitas vezes, queremos que nossos filhos, nossos alunos cresçam da maneira que a gente acha correto. A vida de cada um é surpreendente, e os nossos filhos e nossos alunos crescem de maneira diferente, talvez muito melhor ou muito pior do que prevíamos. O problema é que ninguém pode fazer nada pelos outros, se os outros têm projetos diferentes dos nossos. Nem as coisas mais simples, como dormir, alimentar-se, namorar... ninguém pode fazer no lugar dos outros, muito menos amar ou odiar, conhecer-se e conhecer os outros, Por isso, o ser humano é sempre intransferível, isto é, só ele poderá fazer dele o que quiser. Essa é a solidão do existir. As coisas mudam e as pessoas mudam.

NÃO PODE MAIS VER - Não é possível conter as mudanças. Ao contrário, a nossa cegueira nos ofusca a evidência e a clareza de propósitos, de objetivos, de sentidos. Por isso, somos jogados de um lado para o outro como caniço tocado pelo vento do puxa-saquismo, das conveniências, dos interesses próprios, das opiniões dos outros, dos jogos com cartas na manga. Aprendemos, desde muito cedo, que precisamos de sistema mental que congregue conhecimentos certos para exercer determinada função numa sociedade, do sentido mais estreito ao mais largo. 

PARA CRER - Aprendemos que, pelo raciocínio e reflexão, é que o homem se apodera da ciência. E para que serve a ciência, se a vida é muito mais intuição e sensibilidade, muito mais relações afetivas e efetivas entre os seres? O puxar o tapete dos outros, fazer sacanagem com os outros, trair um amigo, superfaturar uma obra, desprezar as opiniões dos outros, não prestar contas dos próprios atos, jogar a culpa da desgraça nos outros, fingir desconhecer os avanços e progressos dos outros, explorar e humilhar os subalternos, impor normas só para se mostrar poderoso... e tantos outros pecados, aqui relatados, não precisam de ciência, de estudos, de pesquisas.

QUEM JAMAIS A ESQUECE - A perspectiva de mudança é o ponto de partida. Partindo da realidade humana, o homem vai se analisando e admirando-se de estar existindo, de estar sendo. Não há mudanças do exterior para o interior, mas do interior para o exterior. O passado já está escrito, apesar de a ciência tentar fazer uma reengenharia genética, dos cromossomos e dos genes. A herança dos nossos bisavós, dos nossos avós e dos nossos pais já está concretizada em mim. Sou o que eles fizeram de mim. Meus pecados e minhas virtudes já me foram entregues na mente e corpo, no coração e nos braços.

NÃO PODE RECONHECER - Perceber-se 15º elemento de uma família é ponto de partida para uma mudança mais radical. Não se trata de desprezar ou menosprezar a herança genética recebida, mas, pelo contrário, apelar para essa ancestralidade a meu favor. Fazer os 14 anteriores a mim trabalharem para mim, numa comunhão que costumo chamar de comunhão dos santos. Da mesma forma que muitos fazem promessa e juras aos santos, é possível exigirmos daqueles que nos fizeram ajuda e apoio nos momentos não tão bons e satisfatórios. A nossa cegueira, por causa de nossos pecados, nos impede de compreender e explicar o universo das instituições e o nosso universo e o universo dos homens. Preferimos a superficialidade, a mediocridade, a futilidade, a casca, as aparências. Aprofundar uma questão é responsabilizar-se por ela e nós preferimos não ter responsabilidade. 

VOU SAMBAR NA PISTA - Criativamente e com alegria podemos, sim, mudar o nosso presente e por consequência o nosso futuro. Só essa perspectiva, já nos faz melhores. Nascemos para ser. O passado não deve ser entendido como algo caótico e pecaminoso, radical e inflexível. Basta-nos invocar o passado e colocá-lo a nosso serviço. Sem quer analisar e pensar sob o ponto de vista espiritual e/ou religioso, o presente será sempre melhor do passado e o futuro melhor do que o presente. Ou assim, os filhos serão sempre melhores do que os pais, que são melhores do que os avós, que são melhores do que os bisavós. O que acontece, muitas vezes, é que queremos quebrar a linha evolutiva da vida, da existência, num processo de construção do bem, da verdade e da beleza.