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Em Questão

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Décio Bragança 24/08/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Um dia ele chegou tão diferente – Um dia, Danilo chegou com seu jeitinho nipônico, tão diferente e forrozeiro, tão médico e humano, atravessou a Avenida São João, encontrou do outro lado uma menina, Alessandra.

Do seu jeito de sempre chegar – Um olhar, um aperto de mão, uma troca de olhares, uma troca de mãos. O sangue fervelhou nas veias e o amor fez morada. Cada qual já independente, já profissionais bem sucedidos e desnecessários um ao outro.

Olhou-a de um jeito muito mais quente – A desnecessidade é que dá prazer e alegria. As coisas são necessárias, mas não dão alegria e prazer, porque não fazem nascer e renascer o encantamento pela vida e pelas pessoas, pelo mundo e pelas coisas do mundo. 

Do que sempre costumava olhar – Não te amo porque preciso de ti, mas eu preciso de ti porque te amo – nos ensinou Erick Fromm. Assim, vi o casal – Alessandra e Danilo – abençoado por Deus e pelos amigos.

E não maldisse a vida tanto – O amor nasce exatamente como suplemento, nunca como complemento, já que nada falta a um e a outro. Cada um é completo, inteiro, intransferível, inédito, por isso desnecessários.

Quanto era seu jeito de sempre falar – Claro, a presença do outro – porque tão outro e diferente – pode transformar a vida num ambiente celestial ou infernal. O amor do outro – porque tão outro e desnecessário – só poderá trazer no seu bojo o céu.

E nem deixou-a só num canto – Como num Big Bang, o amor se explode, espalhando fagulhas e partículas no ambiente, no universo das pessoas e das coisas. Assim, tudo cheira a companheirismo, dedicação, amor.

Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar – O amor explode, porque não cabe em si mesmo. Se não fosse assim, não seria amor. Não por acaso, Camões chamou-o de “fogo que arde sem se ver”.

E então ela se fez bonita – Amar é causar. Já não sou eu que vivo em mim, mas você é que vive em mim e eu vivo em você. Sou eu, porque você está em mim. Por isso, o amor como ato de vontade não faz perder a identidade nem de um, nem de outro.

Como há muito tempo não queria ousar – “Arranca os meus olhos e eu arrancarei os teus. Coloca os meus olhos no lugar dos teus e eu colocarei os teus no lugar dos meus. Assim, tu me verás com os meus olhos e eu te verei com os teus olhos.”

Com seu vestido decotado – Nada disso é obrigatório, nada disso é necessário, mas tudo isso pode ser assim porque é assim que o casal deseja. Por isso o que mantém o casal unido é o desejo, a vontade de um ser para outro. 

Cheirando a guardado de tanto esperar – Só pessoas plenas, inteiras, únicas, irrepetíveis, cheias de si mesmas conseguem se explodir, se espalhar, se amar. Assim se parece a Trindade Única ou a Unicidade Trina de Deus. 

Depois os dois deram-se os braços – Muitos buscam e pesquisam as razões do amor e de repente quem ama começa a entender, a viver profundamente que não há razões, nem razão nenhuma de se amar. O amor escapa da lógica, da racionalidade, da razão. 

Como há muito tempo não se usava dar – Há muito não tinha visto, presenciado, vivido tanta alegra estampada, tanto encantamento experimentado no corpo e na alma de Danilo e de Alessandra. 

E cheios de ternura e graça – Verdadeiramente a ternura dos abraços e dos beijos, a graça luminosa e quente dos passos e dos amassos tinham sentido e significado. 

Foram para a praça e começaram a se abraçar – Rodeados de amigos – eram tantos – Alessandra e Danilo ficaram translúcidos, tão transparentes que a alma deles – e todos viram – gargalhava. 

E ali dançaram tanta dança – O mais legal é que a celebração do amor está fora de moda, porque as pessoas só buscam coisas descartáveis, muitas delas de pouca duração, da mesma maneira como se prepara um miojo. 

Que a vizinhança toda despertou – Coisas todos nós usamos e jogamos fora. Poucas pessoas conseguem dizer: “Eu te amo”, mas dizem na maior facilidade: amo viajar, adoro um churrasco gaúcho. 

E foi tanta felicidade – Temos pouco tempo para as celebrações do amor, da vida, mas temos todo tempo do mundo para consumir, consumir, consumir, até nos consumirmos. O novo bezerro de ouro é adorado nos shoppings. 

Que toda cidade se iluminou – No dia 16 de agosto, felizmente, a cidade de Uberaba estava muito mais iluminada do que no dia anterior – feriado – porque nada estava à venda nas muitas barraquinhas e parques.

E foram tantos beijos loucos – Haverá outros feriados, mas 16 de agosto nunca mais. Agosto não é mês de cachorro louco, mas é o mês dos loucos amantes que se entregam de corpo e alma, completamente.

Tantos gritos roucos como não se ouvia mais – Sempre devoto de Francisco e Clara – Nhô Chico e Nhá Clara – senti que Franco Zefirelli estava filmando um novíssimo “Irmão sol, irmã lua”.

Que o mundo compreendeu – Loucura do amor – amor da loucura. Danilo, que você seja um instrumento da paz necessária. Alessandra, que você seja um instrumento da paz de Deus entre todos os homens.

E o dia amanheceu em paz – Depois do amor, ou depois do fato de alguém amar, o mundo será melhor. Sinto as flores cantarem, os pássaros perfumarem...