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Em Questão

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Décio Bragança 07/09/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo - O mandamento maior deixado por Jesus é o amor: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Nessa página do evangelista Mateus, ele explicita bem quem é o próximo, quem são os muitos próximos. Em outras palavras, quer ensinar-nos que a vida vale pelo amor que temos, em sua plenitude. De nada adianta amar a Deus, se desprezamos o outro. De nada adianta amarmo-nos a nós mesmos, se não amamos o outro. 

Porque tive fome e me destes de comer - “Nada se perde, tudo se transforma” – afirmam os químicos e físicos e biólogos. A transformação é, talvez, a única constante da vida, da existência. Em outras palavras, nada está acabado, tudo está em processo de nascimento e morte. Desde Demócrito, ninguém mais dúvida de que uma mesma água não passa debaixo de uma mesma ponte. É o eterno renascer. É o eterno retorno. É o eterno recomeçar. 

Tive sede e me destes de beber - Desejar que as coisas fiquem como estão, que nada pode ou deve mudar é estancar as correntes e as águas da vida, é aprisionar a vida. É comum ouvirmos pessoas dizerem que “uma decisão tomada não se deve voltar atrás”; “morro assim, não quero mudar!”; “Já tomei minha decisão, agora é tarde!”; “Não abro mão do que penso e quero!” São muitas frases soltas que nos levam a pensar de que há muitas cabeças duras, muitos corações inflexíveis consigo mesmos e com os outros. Assim é quando fazemos desaforo, desejamos vingança, insistimos na mágoa e no ódio. 

Era peregrino e me acolhestes - Tudo, na realidade, tem efeito bumerangue, ou conforme alguns, a força e energia da lei da atração. Isso revela os muitos medos do desconhecido, do ainda não experimentado, do não-vivido. Claro, ideias fixas – cabeça dura – deve causar muitos sofrimentos e dores e doenças. Construímos o futuro agora, aqui, hoje, tendo como alicerces o passado. 

Nu e me vestistes - Somos constantemente desafiados a nos construir, construir o outro, construir a humanidade, enfim, construir o futuro. Muitas vezes, os construtores do futuro são mal entendidos e compreendidos. Muitos são mortos, como rebeldes, subversivos, revolucionários, evolucionários, libertários, sonhadores, idealistas, utópicos. 

Enfermo e me visitastes - Infelizmente, gostamos do já experimentado, do já vivido, para não corrermos riscos algum. E assim cristalizamos a vida, estancamos as oportunidades, brecamos as iniciativas, fechamos as portas e as janelas, impedindo o sol e o calor de oxigenarem a existência. 

Estava na prisão e viestes a mim - O ser humano não pode viver sem desejos e sonhos. Sem sonhos e desejos contentamo-nos com as injustiças e com as dores, com as doenças e com os sofrimentos, com a miséria e com a fome, com a desventura e com a morte, como se fossem dádivas divinas. “Deus quis assim”; “Se Deus quiser”; “Essa é a vontade de Deus” Culpamos até Deus de nosso marasmo e falta de entusiasmo, de nossa imobilidade e falta de vontade. Caminhar para trás, jamais. O que passou, passou. Não podemos retroceder. Ninguém pode ou deve viver de saudades. O destino da humanidade depende de cada um e de todos, porque tudo deve ser construído. O medo de não-caminhar é prejudicial. 

Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? - Os gregos, inicialmente com Sócrates, diziam “Conhece-te a ti mesmo – Cura-te a ti mesmo”. Talvez soframos tanto porque pouco nos conhecemos. O autoconhecimento deve ser o caminho da realização. “Sou para-mim e sou para-os-outros ao mesmo tempo”. Conheço-me, conhecendo os outros; conheço os outros, conhecendo-me. 

Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? - Professores insatisfeitos reclamam de seus alunos. Pais pouco amorosos impõem sua autoridade e poder sobre os filhos. Maridos ciumentos e infiéis proíbem a autonomia das esposas. Empresários sem escrúpulos vigiam e controlam seus funcionários. Isso para dizer que não assumimos a nossa identidade, a nossa eudade, a nossa hominicidade. Sempre jogamos a culpa para outros. 

Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? - Vejamos alguns exemplos: na metáfora bíblica do Jardim das Delícias, Deus proíbe a Adão e Eva de “comerem” os frutos da árvore da sabedoria. Eva, induzida pela serpente, mas livre para dizer NÃO, para resistir – a vontade – come o fruto e o leva a Adão que também o come. Deus, meio que indignado, mas tentando dialogar com os homens, chama a Adão e lhe pergunta por que comeu o fruto proibido. Adão, sem titubear, afirma que foi Eva que o fez comer. Talvez, mais indignado ainda, Deus chama a Eva e lhe pergunta por que comeu o fruto proibido. Talvez, irônica e sorridente, disse que foi induzida, quase obrigada, pela serpente a comer o fruto. Seria muito humilhação Deus ter chamada uma serpente para uma conversa e lançou-a no fundo dos infernos. Foi a primeira grande desculpa da história. 

Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos - Depois dessa história, o ser humano encontrou uma saída para seus crimes e pecados e erros: o outro ser, o outro homem. Se pudéssemos entender as mitologias greco-romanas, com seus deuses e deuses e semi-homens e semideuses e heróis, poderíamos dizer a criação deles nada mais é do que desculpas para amar e/ou odiar, fazer guerra e paz, promover suingues e surubas e infidelidades, produzir a desgraça e o mal. Os povos criaram deuses para tudo e assim um homem violento e guerreiro dizia ser a inspiração de Marte, do Poseidón. Para cada ato do ser humano, um deus inspirador. Assim é Zeus, deus de todos os deuses, senhor da céu e da terra; Afrodite, deusa do amor, do sexo e da beleza; Hades, deus das almas dos mortos, dos cemitérios e do subterrâneo; Hera, deusa do casamento e da maternidade; Apolo, deus da luz e das obras de artes; Artemis, deusa da caça; Ares, divindade da guerra; Atena, deusa da sabedoria e da serenidade; Cronos, deusa da agricultura e do tempo; Hermes, deus do comércio e das comunicações; Hefesto, divindade do fogo e do trabalho... Para cada ato do ser humano, um deus inspirador. Quando não dizia ser inspirado, a culpa recai sobre os animais: vaca louca, o mosquito da dengue, da malária, febre suína, gripe do frango, tosse de cachorro... Claro, não é bom viver cheio de culpas. Por isso, o homem sempre inventará um culpado. Colocar a culpa nos outros seres não a solução, já que poderá trazer algum problema de consciência, se o “pecado” for grave, ou muito grave, se “arrependimento” for grande, ou muito grande. 

Foi a mim mesmo que o fizestes” - A verdade é que o homem se conhece pouco e, em pouco se conhecendo, cria alguns problemas para si mesmo. Os iluminados nos ensinam que a melhor coisa que a gente deve fazer com a gente e para a gente mesmo é assumir o que fez e perdoar. Nada disso é muito fazer. Tive um amigo que dizia que não sabe o que fazer com o ódio, com a raiva. Teórica ou academicamente sabemos que o perdão é o caminho para a libertação. Mas, como fazer para perdoar? Como perdoar? Os mesmos iluminados nos ensinam que o perdão abre caminhos, deixa o ser humano livre para novas empreitadas, para tocar a vida em frente. De qualquer maneira, a vida será sempre um aprendizado e é preciso aprender a perdoar. “É perdoando é que se é perdoado!”