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Em Questão

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Décio Bragança 14/09/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

SOU PARTE DE UM TODO - Precisamos de pessoas iluminadas ao nosso lado, pra nos estimular, para fazer conhecer-nos mais e mais, melhor e melhor. A maioria de nós repete as ideias dos outros, o jeito de ser dos outros. Isso não é ruim, para o início de uma caminhada. Com o tempo, somos obrigados a buscar o próprio caminho, as próprias ideias. O que os outros são muitas vezes nos fascina e nos atrai. Chega uma hora em que a gente se define: “sou obrigado a ser, ser-mais, ser-melhor!” Não existe verdade humana definitiva. Estamos sempre em constante mudança, em transformação. Os cabeças-duras entrarão fatalmente por um beco sem saída. 

SOU A SÍNTESE DA HUMANIDADE - A educação é um fenômeno tão fascinante que se tem a impressão de que estamos sempre começando a caminhada pelas estradas da vida, porque cada passo que damos é uma nova experiência, novos desafios nunca enfrentados antes. Por isso, também a sensação de que quanto mais se sabe, maior é a sensação de que menos se sabe. A educação é provocação. O ser humano que não é provocado não aprende, não conhece. Educar é perguntar sempre. Para alguns, educar é descobrir-se o que se é. Às vezes, iludimo-nos com o que dizem sobre a liberdade. Só é livre quem se conhece e quem se aceita. Há muito mais coisas para a gente se aceitar e encantar-se com a vida, pela vida. Ninguém escolhe por exemplo o seu sexo, seu pai, sua mãe, seus avós, seus bisavós, sua raça, seu tempo, seu espaço, suas condições econômicas, sua pátria... Escolhemos muito poucas coisas. 

SOU O QUE SOU - “Nasci mulher, filha de pais solteiros, negra, pobre, uberabense, em 1950. Não tem como mudar esse quadro. Então, o que fazer comigo?” Revoltar-se? Não resolve a vida! Aceitar-se é abraçar a existência e para isso é necessária a presença do outro, da educação libertadora, entender-se gente, pessoa humana. 

SOU PARA MIM - Não nascemos para enterrar os talentos. Nascemos para nos experimentar gente, como indivíduo que escolhe, que tem necessidades e preferências, crê e ama. Isso não significa isolamento e/ou solidão. Não somos caracóis que carregam suas casas para onde vão. Não somos um sistema fechado, ensimesmado, enrolado nas próprias tripas. Todos somos participantes de uma mesma sociedade, de uma mesma humanidade. A quântica nos ensina que nada existe isoladamente, na solidão. Tudo faz parte de um todo indefinido e indefinível. Quanto mais educados, mais integrados no todo. Vez por outra, “brinco” com alunos de odontologia: “Vocês não estão curando uma cárie. Estão curando um ser humano, portanto estão curando a humanidade!” Nisso consiste o milagre! Educar é preparar todos os seres e cada um para ser milagreiro.   

SOU PARA OS OUTROS - Quando ainda fazia graduação, achava muito estranho a fala do professor Santino Gomes de Matos ao dizer que “as palavras só representam, são símbolos, são índices e indicadores de uma coisa, de um ser, mas não são as coisas.” Para aguçar nossa curiosidade, mostrava-nos um apagador de quadro negro, por exemplo, e perguntava-nos o que era aquilo. Claro, todos diziam como quase um coro: “um apagador, professor!” Ria e dizia: “Isto é o que fizermos dele. Se colocado sob um pé de mesa, um calço; se lançado na cabeça de um aluno, uma arma; se colocado sobre a mesa, estático, um pedaço de lenha e assim por diante...” Mais do que entendermos a linguagem humana, queria nos ensinar sobre a alma humana. Assim, ele nos explicava as metáforas, as conotações, a ficção. 
 

SOU O AQUI E O AGORA - Muitas vezes, é preferível viver sem razão a morrer com razão. Observemos uma rodovia: um grande caminhão, uma jamanta, vem a toda velocidade na contramão. Eu, fusquinha, tranquilo, na mão correta. Não adianta eu colocar a cabeça de fora e gritar que estou certo, que estou na minha mão, que tenho razão, que as leis estão do meu lado, porque a jamanta fatalmente passará por cima do fusca. Melhor será o fusca ir para o acostamento, para o barranco, para a contramão, para o abismo, do que ser esmagado pela jamanta. É preferível viver sem razão, mas viver. Muitos morrem, infelizmente, buscando um sentido para a vida. O sentido da vida é viver com intensidade, a flor não se pergunta se deve ou não desabrochar e perfumar. Infelizmente, desabrocha e perfuma.  

SOU O SAL DA TERRA - A nossa cegueira nos empurra, sem que muitas vezes tenhamos consciência, para profundas desventuras e aventuras, desvios e desvarios, frustrações e desilusões, doenças e depressões. “Conhece-te a ti mesmo” – cantavam os gregos em prosa e verso. A ciência, a sabedoria, o desejo de saber e de conhecer nos são um diferencial dos homens e os outros seres. Não querer avançar já é um retroceder, porque a inteligência fica presa ao passado, ao já sabido, ao já experimentado, ao já vivido, ao já sido. 

SOU A LUZ DO MUNDO - Nesse sentido, o passado são trevas. Iluminar, entender, esclarecer o passado é ligar os faróis do carro, em alta velocidade, à noite, numa autoestrada, virados para trás. O passado é imutável, estratificado, acomodado, petrificado. A humanidade, as instituições estão precisando de luz, muita luz. Uma luz, uma palavra, um gesto serão tanto mais nobres e dignificadores, quanto mais alto elevar o homem. 

SOU VOCÊ E VOCÊ EU - O melhor que se pode esperar do ser humano é que ele se experimente a si mesmo e deixa ser experimentado pelos outros; em outras palavras, vive-se tendo a consciência da vida, ou se é admirando-se de ser. Contrariando os positivistas que impõem uma distinção entre o eu e o tu, entre o sujeito e o objeto, Sabe-se, hoje, que a subjetividade é um dado essencial em todas as relações humanas. Subjetividade adquire conotativamente um caráter de unidade entre um eu e um tu, entre o objeto e o sujeito. Nas relações humanas, nas organizações, não há objetos. Talvez, a humanidade esteja pagando os erros do racionalismo que divide tudo para entender: homem = corpo e alma; matéria e espírito.    

SOU NÓS - As ideias e as palavras, as sociedades e as instituições, as transformações e as mudanças no espaço e no tempo, todos os fatos e acontecimentos externos e perceptíveis para os sentidos, todos os fatos internos e reais, concretos e invisíveis, tudo isso somado ainda não é o homem. O que esse ser assim tão complexo? É possível que as ideias e as palavras estejam à procura da verdade e da expressão. É possível que as sociedades e as instituições, criadas pelos homens, estejam à procura do bem-comum e o bem-estar de todos os homens e de cada homem. É possível que as mudanças e transformações no tempo e no espaço estejam à procura da liberdade e da libertação da possível pequenez humana. É possível que os fatos e acontecimentos externos e perceptíveis para os sentidos estejam à procura da ciência perfeita. É possível que todos os fatos internos e reais, concretos e invisíveis estejam à procura da harmonia entre os povos e as pessoas. Mesmo assim, tudo isso ainda não é o homem.