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Em Questão

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Décio Bragança 21/09/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

QUERO APENAS CINCO COISAS - A natureza humana – o que diferencia o homem de todos os outros seres – é uma matéria que pensa, que sente, que chora, que ri, que morre? Qual é a identidade desse ser? É pelo conhecimento de nós mesmos que nós nos aproximamos dos outros seres e também até de Deus. Definir o ser humano como animal racional é reduzi-lo minimamente a uma matéria pensante. Platão, Aristóteles, Sócrates, há mais dois mil anos, tentaram em vão explicar a natureza das coisas e a natureza humana. Nessa loucura da procura, Platão chega a imaginar, a criar um mundo perfeito, ideal, que não pode ser percebido pelos sentidos, experimentado, mas que se deixa “copiar” num mundo perceptível e experimentável. 

PRIMEIRO É O AMOR SEM FIM - O mundo ideal é um livro original que poderá ser xerocopiado, escaniado, copiado. O mundo real é a cópia; portanto, sempre imperfeita, mentirosa, feia, falsificada, piorada, já que só o original traz a verdade, a perfeição, a beleza. Nós, brasileiros, recebemos por herança uma educação greco-romano-judaico-cristã. E nesse modelo, crescemos e vivemos. Afinal, existimos no mundo ideal, ou no mundo real?

A SEGUNDA É VER O OUTONO - O invisível (ideal), manifestado pelo visível (real), é, na realidade, o objeto de todas as ciências e de todas as ações do homem. Os fenômenos sociais e fatos humanos e vitais derivam dos princípios invisíveis. Os governos, os poderes constituídos, as instituições, as escolas, as igrejas, as famílias, as cidades, as guerras, as revoluções... são fenômenos visíveis que têm por causa ideias e ideais, sentimentos e sonhos, paixões e utopias, invisíveis, indizíveis, indivisíveis. Será, então, o invisível, o indizível, o indivisível, a razão de tudo? Será, então, o invisível o que rege, governa, ordena, organiza tudo no mundo?

A TERCEIRA É O GRAVE INVERNO - Por herança educacional e cultural, todos temos idealmente a imagem de um marido ou de uma esposa, de um filho ou de um neto, de um professor ou de um estudante, de um patrão ou de um empregado... No despertar do amor, por exemplo, toda moça quer encontrar seu “Príncipe Encantado” e todo rapaz quer encontrar a sua “Princesa”. Tanto um quanto outro, impossibilitados de realizar o esperado encontro se conformam, se confortam, se acomodam na condição de imperfeição, chatice, burrice, enjoamento, concretude, exigências, limites, ciúmes, traições... de um homem ou de uma mulher. O fato é que pouco nos conhecemos a nós mesmos e, por extensão, pouco conhecemos o outro, os outros. 

EM QUARTO LUGAR O VERÃO - Para o orador e filósofo romano Cícero, “a filosofia é a ciência das coisas divinas e humanas, e das causas que as contêm.” (Rerum divinarum et humanaram causarumque quibus hoe res continentur scientia) Quando fala das coisas divinas quer dizer das coisas invisíveis, intocáveis, imateriais, intangíveis, transcendentais, espirituais... – o ideal – a perfeição. Quando fala das coisas humanas quer dizer das coisas palpáveis, tangíveis, visíveis, dizíveis, concretas... – o real – a imperfeição. 

A QUINTA COISA SÃO TEUS OLHOS - A Igreja Católica apropria dessas ideias e chama a isso de: matéria e espírito, de corpo e alma. A alma é eterna, o corpo é mortal. Para que serve a alma sem um corpo? Para que serve um corpo sem uma alma? A preocupação do homem passa a ser a salvação da alma. É possível salvar a alma sem salvar o corpo? É possível salvar o corpo sem salvar a alma? Será que existe mesmo no mesmo homem um corpo e uma alma? Que importa ao homem salvar o seu corpo se tem uma alma apodrecida? Que importa ao homem salvar a sua alma se tem um corpo apodrecido, maltratado, machucado, explorado, humilhado? Se o que importa é a alma, por que não nos matemos? Se o que importa é o corpo, por que não nos entreguemos a todos os prazeres possíveis? Quando será possível afirmar que o que se faz é bom para o corpo, ou é bom para a alma? O que é bom para o corpo é bom para alma? O que é bom para a alma é bom para o corpo? Não é o ser humano uma unidade, uma totalidade?                

NÃO QUERO DORMIR SEM TEUS OLHOS - Essas idéias criaram duas tendências da mesma Igreja Católica: a Igreja Católica Carismática e a Igreja Católica Progressista. Tentando simplificar o que não deve simplificar, para a Carismática, importa a salvação da alma – o encontro da alma com o criador no Céu; para a progressista, importa a salvação do homem inteiro, todo – o encontro do homem com os outros homens. A salvação da alma depende exclusivamente de cada um, de sua opção e esforço, de sua disponibilidade e interesse; a salvação do homem depende também das condições sociais, econômicas e políticas. 

NÃO QUERO SER - A Carismática fala de um Céu e de um Inferno, de uma salvação, ou perdição eterna, depois da morte; a Progressista fala e prega um Reino de Paz e Justiça, aqui, agora, na Terra. Para a Carismática, porque a salvação é individual, trava-se uma luta terrível dentro do indivíduo entre as Palavras de Deus e as Tentações do Diabo. No meio, o homem obrigado a optar. Para a Progressista, porque a salvação é coletiva, trava-se uma luta terrível entre as tentações e beneces das luzes e cores do capitalismo amorfo, acéfalo, sem ética, sem pátria, em busca sempre da fama, do sucesso, do dinheiro e a criação possível de uma outra organização com bases na solidariedade, na divisão de bens e de riquezas, igualdade de chances e oportinidades para todos e para cada um. “Ninguém se salva sozinho, ninguém se perde sozinho.”

SEM QUE ME OLHES - Pensadores e filófosos, professores e teólogos, queiramos ou não, concordemos ou não, acreditemos ou não, entendem, hoje, cada ser humano e todos os seres humanos como sendo o 15º membro de uma família qualquer. Cada um traz, no mínimo, 14 membros de uma mesma família: oito bisavós, quatro avós, um pai e uma mãe. 

ABRO MÃO DA PRIMAVERA - As pesquisas genéticas, iniciadas para valer no final do século XIX, provam e comprovam essa afirmação. Se somos, mesmo que não queiramos, geneticamente o 15º, por que também não podemos ser o 15­º em relação à cultura e à inteligência, à religiosidade e à fé, a pecados e a virtudes, à saúde e à doença, ao bem e ao mal? Não se trata de culpar o passado, culpar os 14 anteriores, mas exatamente o contrário: fazer os 14 “trabalharem por mim e para mim”. Assim: “sou a humanidade!”
 
PARA QUE CONTINUES ME OLHANDO - Se considerarmos vinte anos para cada geração, nascemos sessenta anos antes de vir ao mundo, no mínimo. Igualmente morreremos sessenta anos depois de sairmos do mundo, de sermos enterrados, no mínimo. Pesquisas genéticas, pesquisas do DNA, dos cromossomos... estão caminhando nesta direção. 

POEMA DE PABLO NERUDA - A filosofia também caminha nessa direção quando considera o ser humano a síntese da humanidade. Fernando Pessoa inicia o seu poema “Tabacaria” assim: “Não sou nada / Nunca serei nada / Não posso querer ser nada / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Na verdade, podemos entender que cada um tem em si mesmo todos os sonhos de todos os homens do mundo, do presente, do passado e do futuro.