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Décio Bragança 14/04/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Não queremos somente pão

Todos nós sabemos da importância da boa ingestão de alimentos para o desenvolvimento do ser humano. Há muitas crianças com fome e, quando se alimentam, muitos dos alimentos não têm o valor nutritivo necessário a elas. Um corpo de criança ainda não tem a capacidade de manter um "reservatório" de nutrientes, mesmo porque suas necessidades são enormes. A nutrição não faz parte de nenhum tratamento de nenhuma doença, embora tenha uma ligação direta. Nutrição é direito constitucional. Uma criança saudável é criança bem nutrida, apta para ir à escola e aprender, fazer atividades esportivas e se cuidar, manter relações com as outras crianças, em clima de socialização e solidariedade. 

Não queremos somente hospitais
Claro, o aspecto nutricional está associado a outros problemas como saúde, direitos à cidadania, deveres da sociedade e do Estado. Alimento é vida.  A questão de alimentação é, hoje, uma das mais graves preocupações de todos os governos do mundo inteiro. Josué de Castro, um dos brasileiros mais ilustres e pouco conhecidos por nós, é a pessoa mais lembrada em todos os círculos acadêmicos quando se fala em nutrição e alimentação, porque já, em 1946, publicava sua obra-prima - orgulho para o Brasil - "Geografia da Fome" e, em 1951, "Geopolítica da Fome". Dois livros traduzidos praticamente em todas as línguas do mundo. Se, hoje, a ONU - Organização das Nações Unidas - tem essa preocupação, seguramente foi despertada por ele. 

Não queremos somente moradias
"A paz não é só ausência de guerra". Todas as linhas de ações de políticas públicas em busca da paz social, todas as pesquisas que se confundem com a própria história da humanidade, têm de necessariamente passar pela alimentação. O discurso religioso, principalmente nas Américas, é responsável e culpado de associar fome e miséria, pobreza e desnutrição a aspectos sobrenaturais e bíblicos. Com o discurso justificam a má distribuição de rendas, a apropriação indevida dos recursos naturais somente por alguns poucos, a escravidão e servidão humana, condições adversas e perversas de trabalho, os baixos salários e os subempregos, a falta de qualificação profissional e o desemprego. "Deus quer assim" - "Se Deus quiser" - "Deus sabe o que faz" - "Não cai uma folha da árvore sem que seja vontade de Deus" - "Graças a Deus" - "Quem dá aos pobres, empresta a Deus"...      

Não queremos somente escolas
Tudo isso são males produzidos pelos homens e/ou por conta do processo civilizatório. "Outro mundo é possível!" Governos - prefeitos, governadores, presidentes - que não se preocupam com a segurança alimentar e nutricional são criminosos e devem responder por esses crimes, em tribunais mundiais especiais, porque cometem genocídio a curto, médio e longo prazo. Na década de 30, por causa da crise econômica, os países desenvolvidos e industrializados estavam com excedentes de produção, porque o mercado e as pessoas não assimilavam, não compravam quase nada, por exclusiva falta de dinheiro. Principalmente as ciências biológicas começavam a dar passos muito significativos e, então, começa a discussão sobre a falta de alimentos e falta de segurança alimentar. Por causa da crise, os economistas - sempre os economistas - aconselhavam a produzir menos alimentos, já que muitos alimentos sobravam nos armazéns. Era uma maneira de controlar preços - a famosa lei de oferta e procura: "maior oferta, menor procura; menor oferta, maior procura". 

Não queremos somente leis
Na realidade, o mundo e os donos do mundo sempre estiveram mais preocupados com os seus lucros e prejuízos, seus investimentos e dividendos do que qualquer outra coisa. Comprovadamente, o mundo não pode ser governado ou controlado por economistas e pela Economia. Alguns estudiosos e estadistas exigiram e exigem novos estudos relacionados com agricultura, alimentação, nutrição, economia. Em 1945, 16 de outubro, já terminada a Segunda Grande Guerra Mundial, nasce a FAO - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Houve até um considerável equilíbrio até 1953, quando aconteceram novamente os excedentes alimentares e os economistas entraram novamente em parafuso. E agora? Como resolver o problema da oferta e da procura? 

Não queremos somente religiões
A FAO, não mais os economistas, resolveu fazer doações de todo o excedente. Esse foi o caminho para os economistas transformarem as doações em contratos comerciais. "Primeiro damos água, depois vendemos água!" - "Primeiro damos alimentos, depois vendemos alimentos".  Empresários começaram investir fortemente nas pesquisas científicas para a agricultura com a intenção de aumentar a produtividade. Em 1974, na grande Conferência Mundial sobre a Alimentação, todos os países se comprometeram a acabar com a fome num prazo de dez anos, consequentemente até o ano de 1984. Esse ano já foi ultrapassado e a fome aí está. Os conflitos entre os países ou por ideologia, ou pelo poder hegemônico, muitos acordos deixaram de ser cumpridos. Um dos graves problemas é que ainda muitos países não têm condições econômicas de acesso aos alimentos. Quem deve consumir mais alimentos não tem condições econômicas de comprá-los. 

Não queremos somente governos
A alimentação animal - produção de carnes - é um concorrente direto da humanidade no que se refere aos cereais. Todos os animais confinados só se alimentam de cereais. Se os animais não forem confinados, cria-se o problema ambiental com a derrubada de matas e florestas. A humanidade consome menos cereais do que os animais confinados, proporcionalmente, e o número de desnutridos está aumentando, também porque o preço dos cereais está mais alto. Nós, brasileiros, somos campeões na produção de grãos, de cereais, porque produzimos para exportar - melhores preços. Veja a crise do etanol: o ganho do açúcar, hoje é maior do que o do etanol. Então, as usinas preferem fabricar açúcar. Inventamos e fabricamos nossos carros para usar também o etanol que tem o preço controlado em relação à gasolina.