Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 05/10/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório. Um nome... estranho!    Para o romano e filósofo Sêneca (4 a.C – 65 d.C), ser sábio é buscar, procurar e conhecer as causas das coisas naturais. E por que citamos e gostamos de ler os filósofos? Certamente, porque a filosofia busca as causas, os princípios, as razões (Por quê?) e os efeitos, consequências dessa procura (Para quê?) serão sempre benéficos, enobrecem a inteligência, apontam caminhos e atalhos da verdade, aperfeiçoam a vontade, guiam os passos na prática do bem e na consecução da felicidade e da liberdade. 
Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessa vida. A maior característica humana, somada a possibilidade de errar, é questionar alguma coisa até a sua exaustão. Duvidar, inquirir, investigar, interrogar, checar, dessabsolutizar, desmistificar, desmitificar, dessacralizar... é função humana. Um homem que não pergunta nada sabe, nada poderá saber (Sofia). Assim podemos ir fundo nas questões, sem esperar respostas definitivas, porque também nada pode ser definitivo. “O livre pensar é só pensar!”
Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. Como exercício de investigação, podemos colocar no banco dos réus tudo e todos: o poder e a justiça, a ciência e a escola, o amor e a família, o emprego e o trabalho, a fé e as religiões...  usando observação, indução, dedução, intuição, inspiração, análise, critério, quesitos, conhecimentos, não importa. Nos regimes totalitários (e nós experimentamos isso a partir de 1964 à metade da década de 80), a filosofia é vista como um problema, um perigo para os homens do poder, porque uma resposta será sempre inesperada. E esse caráter imprevisto é perigoso, porque poderá produzir uma atitude, um comportamento, uma ação também inesperada, até contrária à ideia de quem perguntou. Proíbe-se a pergunta e não haverá respostas. 
Minhas meias falam de produtos que nunca experimentei, mas são comunicados a meus pés. Imaginemos, por exemplo, uma infinidade de perguntas em relação à fé, às religiões, a Deus: por que criamos Deus? Para que criamos Deus? Deus é anterior aos homens? Deus foi criado pelos homens ou ele existe independentemente das criaturas? Os animais, os outros seres têm consciência da existência de Deus? Por que somente os homens têm essa consciência? A quem interessa ou interessou a criação de Deus? Existe religião sem fé? Existe fé sem religião? A quem interessa a criação das religiões? Por que as religiões têm uma preocupação maior com o que vem depois da morte e não com a vida, aqui e agora, concreta e real? 
Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada por este provador de longa idade. O que é fé? É possível a existência do homem sem considerar a existência de Deus? Um homem ateu é melhor ou pior a um homem crente, piedoso, pio? Qual o destino de um homem sem Deus, sem fé, sem religião? O destino é determinado por Deus? Poderá cair uma folha da árvore sem que Deus queira? Por que Deus, então, permite tanto sofrimento, tanta dor, tantas doenças? Se Deus é um espírito, pode o espírito interferir na matéria? Se o espírito é infinito, como poderá interferir na realidade finita? E se Deus não interfere, para que serve a existência dele? Cabe o infinito dentro de um mundo finito? 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete, meu isso, meu aquilo. Se Deus sabe, porque onisciente, que alguém será um bandido da pior espécie, por que deixá-lo nascer? Se Deus é o Bem supremo, como permite o Mal? Que utilidade tem Deus? Para que serve Deus? Quais os atributos de Deus? Se Deus é o Bem Maior, não existe também, em contrapartida, um Mal Maior? Como é possível pensar o bem, sem pensar no mal? Quem é o Diabo? Tem o Diabo o mesmo poder de Deus? Pode o Diabo, também espírito, interferir na matéria? Deus e Diabo não são a consciência do homem? Será o homem joguete ora de Deus, ora do Diabo? Poderá a Teologia estar em desacordo com a Filosofia? Pode a Filosofia estar em desacordo com a Teologia? 
Desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. Se Deus se deixou revelar pelos livros sagrados poderá nos enganar? Por que assuntos religiosos são questão de fé, e não de razão? Existe, então, uma fé que não seja filtrada pela razão? Se fé e razão são absurdos e contrários a si mesmos, Deus, então, é um ser irracional, ou, no mínimo, imperceptível à razão? Se Deus é Amor e Misericórdia infinita, existe verdadeiramente o inferno? O que significa obedecer a Deus? O que significa desobedecer a Deus? Quais são suas leis? Existe lei sem sanção? Quais são as sanções impostas por Deus? 
Estou, estou na moda. É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade, trocá-lo por mil, açambarcando todas as marcas registradas, todos os logotipos do mercado. Se está em todas as partes, porque onipresente, por que muitos o representam e se dizem seus ministros, ou apóstolos, ou discípulos? São muitas perguntas, mas as possibilidades de respostas são infinitamente maiores. A resposta a qualquer uma dessas perguntas poderá nos fazer mudar de rumo, ter um comportamento nunca experimentado antes, agir como nunca tínhamos pensado. Experimente jogar nesse mesmo crivo o poder e os governos, o amor e as famílias, a ciência e as escolas, as leis e a justiça, os empregos e o trabalho... Claro, perguntas nunca deverão ser feitas!
Com que inocência demito-me de ser eu que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e solitário com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição. Por isso, como diz o Espírito Santo: “Se escutardes hoje MINHA voz, não endureceis o coração... Atenção irmãos! Que nenhum de vós tenhais um coração mau e incrédulo...” (Hb 3). A voz divina, segundo essa carta de Paulo, nos amolece e consola o coração. Os pensadores nos ensinam que há dois caminhos, dois métodos para chegar e checar a verdade: a síntese, ou a análise. A síntese usa principalmente a dedução (os princípios, as causas são anteriores aos efeitos, os princípios precedem a observação); enquanto a análise mais a indução (os fatos, os acontecimentos, a existência precede a essência, aos conceitos, as ideias). Seguramente, a fé escapa tanto à síntese, quanto à análise.  
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro. Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer, principalmente.) E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação. Não sou - vê lá - anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares festas praias pérgulas piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste se ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa? Sou gravado de forma universal, saio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros, objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial? Peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente. (Carlos Drummond de Andrade)