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Em Questão

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Décio Bragança 23/11/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
EM QUESTÃO

Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

Feliz aniversário - Para Baruch Spinoza (24/11/1632 ‘coincidentemente amanhã seria seu aniversário’ – 11/02/1677), a alegria, o gozo, o prazer são a passagem de uma menor para a maior perfeição; ao contrário, a dor, a tristeza, o desgosto são a passagem de uma maior a uma menor perfeição. No fundo, o encantamento é a materialização do bem, da verdade, do belo.  O prazer é a construção das possibilidades, das potencialidades.

 

Mapa da mina - As potencialidades, as inclinações nos levam ao reconhecimento de um “objeto” que nos serve de roteiro, de mapa, de atalhos para a existência. As funções e as faculdades de ser humano são a causa da diversidade e multiplicidade de nossas inclinações. A inteligência é o amor ao conhecimento, à ciência e à verdade. Aristóteles já nos ensinava que todo ser humano é inteligente, porque somos naturalmente desejosos de conhecer.

 

Solidão absoluta - O homem é um ser social, relacional e sociável. Daí, derivam a necessidade de sociabilidade e simpatia. Pela sociabilidade, somos para os outros. O homem se organiza socialmente, porque também só em sociedade poderá sobreviver e lutar pela sobrevivência. Só em sociedade o homem poderá ter satisfeitas as suas necessidades físicas, sociais, emocionais, intelectuais, morais. A personagem Robinson Crusoé sofria muito por não ter ninguém a seu lado. Um rastro, uma pegada na areia da praia, deu a ele uma nova esperança de vida, perspectiva de amar e ser amado, tornar-se simpático.

 

Sinfonia - A simpatia é uma partilha de nossos sentimentos, é uma vibração que busca uma harmonia de sentimentos. Há inclusive a simpatia por contato – presente também nos animais. Como numa grande apresentação teatral, a emoção de um é multiplicada pela emoção dos outros. Alguns estudiosos chegam a falar que a simpatia é uma espécie de metempsicose ideal – transmigração de sonhos e personalidades. Os cientistas e estudiosos de todas as áreas do conhecimento imitam os romanos quando afirmam: simile simili gaudet – o semelhante ama o que lhe é semelhante. Outros sentimentos nascem da simpatia – primeiro passo da amizade, por exemplo.

 

Sincronia - A amizade é a disposição de escolher outra pessoa para ser seu confidente de pensamentos e ideias, alegrias e tristezas. Já nos tempos dos gregos entendia-se a amizade em três níveis: amizade por prazer, amizade pelo interesse, amizade pela virtude. A impressão de que se tem da amizade é que ela se sustenta na adversidade e na prosperidade. Um amigo reconhece no outro seus próprios sentimentos. A mais importante na amizade é a sua horizontalidade, isto é, a quebra da verticalidade, da hierarquia, da ordem. Toda amizade, nesse sentido, tem de ser anárquica, se não é amizade, é luta de interesses e intenções.

 

Sintonia - Um outro sentimento originado da amizade é o amor. O amor é uma escolha, uma opção. O amor é uma entrega ao outro. Ninguém é obrigado a amar, porque o amor é ainda mais desordeiro, mais anárquico, mais louco, porque sem tempo e sem lugar, do que a amizade. Havendo reciprocidade, há um devotamento, uma fusão de dois seres, que desafia os deuses, como na mitologia grega. Muitos pensadores e filósofos, poetas e professores dissertaram  muito sobre o amor – talvez, a maior força, a maior energia concentrada do ser humano. Dentre as várias ideias e opiniões, a de Arthur Shopenhauer (22/02/1788 – 21/09/1860) é a mais aceita quantitativamente, isto é, por um número maior de pessoas: “O amor despreza o elemento intelectual e moral, em favor do elemento sensível: instinto de preservação e conservação da espécie.”

 

Sinestesia - O amor, por natureza, é desorganizado, desafiador de leis e de normas, produtor até de caos. A humanidade não conseguia viver nessa situação caótica, então, com a finalidade de organizar o amor, criou-se o casamento. E com o casamento, a família. A família é a primeira condição e forma de sociedade. Treina-se na família para se conviver em sociedade. Condicionado para os valores sociais na família – uma pátria em miniatura – não haverá grandes problemas no convívio social. Daí, também nasce a noção de pátria – uma família ampliada. Daí, também nasce a noção de humanidade – uma pátria elevada à enésima potência. No fundo, a pátria é o prolongamento da família.

 

Simbiose - Uma família existe para que seja construída uma unidade, assim deve ser a pátria – unida e múltipla, unida e diversificada. A união, a unidade de propósitos visando ao bem comum, ao bem de todos e de cada um. Assim, a pátria é uma comunidade de recordações e tradições, de lutas e defesa da integridade, de inteligências e vontades, de um mesmo ideal de honra e prosperidade, de solidariedade e respeito às diferenças.

 

Simpatia - A solidariedade das “partes” é um estímulo da luta contra o individualismo – um aglomerado impotente e sem coesão de pessoas que se julgam independentes. A solidariedade poderá ser até uma barreira aos abusos das corporações e instituições, tiranias das organizações e do poder. A solidariedade reata os vínculos da fraternidade.  A solidariedade nos faz participar de todas as dores e de todas as alegrias, de todas as glórias e avanços científicos, de todas as desgraças e sofrimentos da humanidade. – família humana. A solidariedade antevê o princípio do amor universal – solidariedade entre as nações.

 

Sine qua non - Alguns acreditam que também o que não é bom também é recebido como que por herança, já que também existem pessoas com tendências e inclinações para o mal. A antipatia, sem que haja muitas explicações e razões, é um sentimento que nos leva ao aborrecimento dos sentimentos dos outros. A antipatia poderá nos levar ao ódio – desejo do mal aos outros. Uma ofensa não assimilada visa à vingança – desforra de uma ofensa. Os sentimentos, porque não são engavetados, se misturam espetacularmente, dificultando os limites de um de outro. A inveja – privação de um bem encontrado nos outros – poderá fazer tanto mal quanto o ódio.