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Em Questão

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Décio Bragança 30/11/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em questão

EU TE VI - Quanto menor a necessidade e a praticidade e a utilidade, dizem, melhor a obra de arte. Uma canção, um filme, uma peça de teatro, uma escultura, uma tela, um poema, um monumento... são mais importantes quanto menos úteis, utilitárias. Mais ou menos a mesma coisa acontece com o amor: quanto menos necessário, mais livre, mais intenso. O ideal do amor é a própria desnecessidade. Se o amor estiver no nível da necessidade será apenas uma necessidade. “Eu preciso de você como preciso do ar para respirar, do sol para viver. Sem você não vivo!” – isso é uma necessidade – o que já é muito bom. O melhor do amor seria: “Eu não preciso de você, não preciso de seu sexo, de seu dinheiro, de seu corpo, de nada seu, por isso, estou livre para dizer que te amo!"

 

EU TE OBSERVEI - O amor à verdade é o princípio da ciência. O amor ao bem é o princípio da virtude. O amor ao belo é o princípio da arte. A inteligência humana não se satisfaz com uma parcela da verdade, uma parte da beleza, uma fagulha do bem. Organizar o que é espontâneo e desnecessário – no caso o amor – não é tarefa fácil. Por isso, exista muita minfobia ou minfilia.

 

EU TE CURTI - É inegável a influência das circunstâncias externas num processo amoroso e de paixão. A nossa imaginação apresenta a imagem do que desejamos. A vontade pode concorrer para o desenvolvimento da imagem, consentindo ou tornando-se cúmplices das próprias ideias. Estamos acostumados, fomos aculturados para entender o mundo e a vida, com todos os seres, com todas as ideias, em contrapontos, em seus extremos e contrários. Daí, termos noção de um em oposição a outro conceito: amor e ódio; desejo e abominação; alegria e tristeza; esperança e desespero; audácia e medo; temperança e ira.

 

EU TE TOQUEI - O bem gera o amor; o mal gera o ódio – talvez o princípio e causa de todas as virtudes e vícios. Se o bem está ausente, nasce o desejo; se o mal está presente, nasce a abominação – combustível realizador do amor, ou ódio. Se o bem está presente, causa alegria; se o mal está presente, nasce a tristeza – aceleração das atividades amorosas, ou odiosas. Se o bem não se consegue sem lutas, sem dificuldades, nasce a esperança; se o mal impede a realização do bem, cresce o desespero – termômetro da aceleração. Se houver necessidade de vencer um obstáculo necessário para a conquista do bem, nasce a audácia; se o mal torna-se um obstáculo intransponível, cresce o medo – último esforço de aceleração.

 

EU TE GOSTEI - Fomos formados e historicamente aculturados para obedecer. Teoricamente obedecer não é ter responsabilidade. Um soldado na guerra não é considerado criminoso, porque só obedece. Criminoso é seu general, seu presidente, ou seu primeiro-ministro que decretou a guerra. Para o soldado que passou por uma lavagem cerebral – matar ou morrer pela pátria – só lhe restam os traumas, as neuroses, quando não a morte. Os jovens, imensa maioria, quer um emprego no mercado de trabalho.

 

EU TE OUVI - O emprego passa a ser um de seus mais fortes referenciais. As pessoas não olham com bons olhos para as pessoas que não têm emprego. O que é um absurdo! Possivelmente só podem trabalhar os que não têm emprego, os livres dos entraves das cargas horárias, das estratégias de mercado, das funções e dos cargos. Apertar um parafuso numa fábrica de automóvel durante a vida inteira não é trabalho é emprego. Trabalhar é ter a capacidade e vontade e meios de transformar alguma coisa em outra.

 

EU TE CHEIREI - Só aparecem nos manuais e nos livros de administração, de contabilidade, de economia, os exemplos dos grandes e megas empreendimentos, como se fossem a verdadeira empresa, a verdadeira organização. Empresas familiares pequenas não são objeto de estudo, de investigação e pesquisa acadêmica. Se é verdade que nas universidades concentram maior número de inteligências por metro quadrado do planeta, elas consequentemente têm de ter o papel de vanguarda, de propostas inovadoras e renovadores e transformadoras e libertadoras.

 

EU TE COMI - Nesse sentido, as universidades não cumprem seu papel e sua missão, porque presas ao conhecimento já construído, já consolidado, já experimentado. Ou as universidades vão à frente, como abre-alas, ou como porta-bandeira, ou fatalmente, em breve, serão chamadas de velha-guarda ou fábrica de mão-de-obra barata.

 

EU TE ENFREITEI - Existem organizações de vários formatos – o que é muito bom! Há organizações inflexíveis e outras não tão inflexíveis. A inflexibilidade, a fixidez são produtos da razão, porque os princípios racionais são imutáveis e uniformes. Fora do domínio da racionalidade, existe um cabedal imenso de ideias criativas, nascidas das relações e muldiversidades sociais. Num mesmo indivíduo, assim como numa mesma organização, os gostos e os objetivos, as preferências e as justificativas, as inclinações e as metas mudam de grau e até de natureza.

 

EU TE BEIJEI - Claro, a razão dá estabilidade, segurança e regularidade da vida e dos comportamentos. O sentimento e sensibilidade produzem a inconstância e uma agitação infinda. Os estoicos preferem o aniquilamento de todas as paixões e a tomada da razão como único guia. A razão é inflexível e quem segue os seus princípios torna-se inflexível, inabalável. Existem, claro, organizações estoicas. 

 

EU TE AMEI - As funções intelectivas e as funções afetivas são tão diferentes que frequentemente se contrariam. A dor e o prazer, a tristeza e a alegria, a satisfação e a desmotivação, elevados a alto grau, interrompem um trabalho racional, ou intelectual. O ideal de uma organização estoica é que não houvesse gente que sofra, ou que goze a vida. (Há empresas, inclusive, que não gostam de pessoas felizes, ridentes, sorridentes, alegres...) O gozo e/ou encantamento (prazer) pela vida embota, arruína a inteligência, segundo normas internas de muitas empresas. Daí, normas como: Fale somente o estritamente necessário – Não entre no youtube – Fale o mais baixo possível – Abaixe o som de seu rádio com músicas – Não gargalhe – Não ria – Não seja feliz!