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Em Questão

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Décio Bragança 21/12/2014
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Um clima de sonho se espalha no ar - A história da serpente no Paraíso do Éden é uma das metáforas mais sensacionais e significativas para se entender a humanidade e cada um de nós. Depois do “pecado”, Deus pede explicações a Adão acerca de sua desobediência. Sem titubear, jogou a culpa em Eva. Então, chamou Deus a Eva, pedindo explicações. Sem titubear jogou a culpa na serpente, na cobra, na víbora, na peçonhenta. Arranjamos um culpado! E assim até hoje temos e criamos um culpado para todos os nossos deslizes e erros, pecados e crimes. Na maioria das vezes, o culpado é, foi e será o outro – a pessoa mais próxima de mim, firmando e confirmando a tese de Jean Paul Sartre (21/06/1905 – 15/04/1980): “O inferno são os outros”. Contrariamente, Martin Heidegger (26/09/1889 – 26/05/1976) defende a possibilidade de os outros serem o céu. 

Pessoas se olham com brilho no olhar - Para mim, quando escrevo ou falo de alteridade lembro-me do Evangelho de Mateus (25:35-40): “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” 

Os velhos amigos irão se abraçar - Na verdade, todos os outros são deuses. O outro é o grande desafio para a humanidade. Como tratar o outro, como tratar do outro? O fato é que, dependendo de nossa resposta, o outro poderá ser ou não a solução para os nossos muitos problemas sociais e morais. Estamos de alguma maneira irracional e irresponsavelmente dada a forte influência da pregação do individualismo levado e elevado ao extremo. Neste mundo, aqui e agora, as pessoas não passam de meros consumidores, porque também tudo virou mercadoria, tudo tem um preço. Falar de subjetividade é chover no molhado, é bater em ferro frio, é um clamor no deserto. 

Os desconhecidos irão se falar - Pessoas há que não mais se enfrentam, isto é não se colocam frente a frente, cara a cara, face a face. Preferem a comunicação por meios eletrônicos, mesmo estando muito próximas. Não pode haver justiça e amor, ética e comunicação, responsabilidade e respeito, sem a presença do outro. “Sou para mim e sou para os outros”, ao mesmo tempo e o tempo todo e em todos os lugares. Por isso, sou também responsável pelo outro. O Livro do Gênesis, talvez seja a metáfora mais perfeita ou a síntese mais completa do que foi, do que é e do que será a humanidade. Lembremo-nos da história do assassinato de Abel por Caim – primeiro homicídio e fratricídio da história humana. Depois de seu crime, Deus cobra de Caim uma explicação: “Onde está seu irmão?” Irônica, sacana, hipócrita, demoníaca e sarcasticamente, Caim disse que nada tem a ver com o seu irmão. 

E quem for criança vai olhar pro céu - Será mesmo que evoluímos, como seres humanos, segundo o que dizem por aí e por lá? Não continuamos tão individualistas quanto Caim? Não continuamos tão irracionais e invejosos quanto Caim? Não continuamos a acreditar que a felicidade é algo pessoal, individual, sem a encheção de saco do outro? 

A gente é capaz de espalhar alegria - Poderíamos passear em muitas canções modernas para ilustrar bem isso. Basta-nos “Ultraje a Rigor” com a sua música: “Eu me amo”: “Há quanto tempo eu vinha me procurando / Quanto tempo faz, já nem lembro mais / Sempre correndo atrás de mim feito um louco / Tentando sair desse meu sufoco / Eu era tudo que eu podia querer / Era tão simples e eu custei pra aprender / Daqui pra frente nova vida eu terei / Sempre a meu lado bem feliz eu serei / Eu me amo, eu me amo / Não posso mais viver sem mim / Como foi bom eu ter aparecido / Nessa minha vida já um tanto sofrida / Já não sabia mais o que fazer / Pra eu gostar de mim, me aceitar assim / Eu que queria tanto ter alguém / Agora eu sei sem mim eu não sou ninguém / Longe de mim nada mais faz sentido / Pra toda vida eu quero estar comigo / Foi tão difícil pra eu me encontrar / É muito fácil um grande amor acabar, mas / Eu vou lutar por esse amor até o fim / Não vou mais deixar eu fugir de mim / Agora eu tenho uma razão pra viver / Agora eu posso até gostar de você / Completamente eu vou poder me entregar / É bem melhor você sabendo se amar.” Vou rescrever algumas frases bem fortes dessa canção: “Sempre correndo atrás de mim feito louco” – “Eu me amo, não posso viver sem mim” – “Agora eu sei que sem mim eu não sou ninguém” – “Longe de mim nada faz sentido” .

A gente é capaz de toda essa magia - É possível ser feliz sozinho? Estamos carregando muitos medos e muitas culpas, consequências de nossos erros e crimes e pecados. Escravizados por nós mesmos – escravos por vontade – sem saídas, preferimos o individualismo. Para que o próximo, para que o outro? O outro é o meu limite. Se muito atrapalha, incomoda, desprezamos ou até matamos o outro. “Prefiro me amar”. Quanto egoísmo! Quanta insensibilidade! Daí, a crise de autoridade, de valores. “Vou para onde me levam os meus próprios passos” – nos ensinou José Régio no seu “Cântico Negro”. 

A gente podia fazer com que fosse natal todo dia - O interessante é que o pecado do outro nos será sempre maior do que o nosso. As minhas falcatruas, independentemente se grandes ou pequenas, me são permitidas, mas as do outro são condenadas. Acostumamo-nos a projetar a culpa nos outros – talvez, seja essa uma herança maldita. Em Gênesis, Adão culpa a Eva; Eva culpa a serpente! A vida humana reflete a vida em todos os sentidos, seres vivos e não vivos. Nesse sentido, a razão tem muito pouca utilidade. Os sentidos escapam da razão, da racionalidade. As experiências humanas muitas vezes são indescritíveis, justamente porque irracionais. E tudo o que é irracional nos amedronta um pouco. Queremos explicações para tudo, porque também não queremos fazer conexões com o imaterial, com o espiritual e com o até divino. 

O melhor presente é sempre o amor - Vivemos afastados de nós mesmos e da natureza, fonte de vida e de todas as não explicações.  O outro é um chamado à responsabilidade e ao compromisso, à justiça e ao amor, mas poucos conseguem perceber essa dimensão, porque preocupados com a fama e o sucesso, riquezas e poder. Essas ideias de domínio e posse do outro têm colocado obstáculos à realização como pessoa e como profissional, de qualquer área do conhecimento. Cada um se julga autossuficiente, sabedor de todos os seus problemas e soluções. Quanta ilusão!  Cada um de nós traz, sim, a individualidade e unicidade, mas traz também a coletividade – todos e cada um. Somos ao mesmo tempo independentes e independentes – o que poderíamos chamar de interdependência ou codependência. Não existe auto suficiência. O bom é que nada disso precisa de ser racionalizado, mas sentido profundamente. Histórica e culturalmente, o ser humano sempre divinizou os elementos da natureza, porque muito ligado, conectado nela, com ela, por ela.