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Décio Bragança 21/04/2013
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Água limpa

No Brasil que não faz guerra nem por água, a situação não é assim tão diferente. Dizem que 70% das águas de nossos rios já estão poluídas, não próprias para o consumo. São raras as cidades que não enfrentam o problema de abastecimento. São Paulo é um exemplo brilhante: uma cidade cortada por dois rios – o Tietê e o Pinheiros – que não podem fornecer água para seus habitantes, por causa da sujeira química e biológica de suas águas. Situação semelhante com a cidade de Recife, que tem suas terras cortadas pelo Tegipió, Capibaribe e Beberibe. A maioria das cidades foi fundada à beira de um riacho, exatamente por causa das águas e hoje suas águas não são usadas. Agora, com a transposição do São Francisco – teoricamente águas limpas – serão jogadas nas águas sujas dos rios do Nordeste. Que maravilha! As águas limpas limparão as águas sujas, ou as águas sujas sujarão as limpas? Claro, o Rio São Francisco não é assim também tão limpo, porque recebe agrotóxicos vindos dos projetos de irrigação em Minas e na Bahia. É preciso revitalizar todos os rios brasileiros! O grande problema é que não há fábricas de água. 

Da Água a vida
Até agora, o Planeta Terra é o único planeta com água em estado líquido – o que o diferencia dos outros planetas. Os astrofísicos, as astrônomos e tantos outros pesquisadores acreditam que a vida se iniciou nos oceanos há mais ou menos 3 bilhões de anos. Vinda do mar, a vida aportou no solo, no chão, na parte sólida. Até a chegada dos primeiros seres humanos, há mais ou menos 4 milhões de anos. O Big Bang aconteceu há mais ou menos 14 bilhões de anos. O interessante é que a Terra é composta de dois terços de água e o ser humano também de dois terços, aproximadamente 70%. A grandessíssima maioria da água da terra é salgada – imprópria para o consumo do homem. Fala-se que apenas 3% de toda a água é própria para o consumo humano e que um terço dessa água está nos lençóis freáticos – portanto, abaixo do solo, e outro tanto, talvez um terço, congelada nos polos sul e norte. O outro um terço em movimento, evaporando e caindo em forma de chuva, neve, alimentando novamente os lençóis freáticos, que, por sua vez, alimentam nascentes e olhos d’água espalhados pelo Planeta, que alimentam rios e lagos. 

Água - Fonte de vida
A água sempre está associada à ideia religiosa do, principalmente, batismo – momento de limpeza para a entrada numa nova vida. Em 1962, Theodor Schwenk, no seu livro Sensitive Chaos, nos ensinava: “No passado, a água era bem mais valorizada e muitas homenagens religiosas eram prestadas à água. As pessoas percebiam que água era a morada de seres divinos dos quais elas só podiam se aproximar com grande reverência, as divindades da água, ou anjos, e os arcanjos sutis”. Nos tempos modernos, em que impera o individualismo e o materialismo, claro, os homens foram perdendo essa ligação da água, que une o humano ao divino e o divino ao humano – caráter transcendental. Vale dizer que, além da estreita relação da água com a vida, a água é um elemento energético – carregado de energias – para a melhoria da qualidade de vida dos vegetais e dos animais. Melhor a qualidade da água, melhor a qualidade de vida, melhor a vida. “Cuidar do planeta, cuidar da água é cuidar-se de si mesmo”. O grande problema persiste: querem privatizar a água! As grandes corporações da água existentes são financiadas pelo Banco Mundial, OMC – Organização Mundial do Comércio – e o FMI – Fundo Monetário Internacional – instituições criadas com a intenção de cuidar das nações e, por extensão, cuidar das pessoas do mundo inteiro. 

Água -  Fonte de lucros
Os países pobres e subdesenvolvidos, sem alternativas, se deixam levar pela ilusão do capitalismo: trocam sua água por bens de consumo. Nesse sentido, terceirizar é privatizar. O valor econômico da água, hoje, é muito grande. Qualquer concessão de uso deveria ser questionada por todos nós e proibida em todos os países. Tudo isso compõe a ideologia do liberalismo, do capitalismo de consumo, tendo o mercado como deus, a quem todos nós devemos adoração e serviço. Vira e mexe um novo projeto de lei é discutido no Congresso Nacional, sempre com a intenção de abrir caminho para a privatização dos serviços básicos de saneamento, de tratamento e abastecimento de água. Os departamentos de tratamento de águas das prefeituras estão ultrapassados e estragados. Só para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo e do desperdício, segundo a Sabesp: “no trajeto dos reservatórios até as casas, são perdidos no caminho 45% da água tratada, o que equivale a 2 trilhões e oito bilhões de metros cúbicos. Alguns dirão que no Brasil é assim mesmo, mas, se pararmos para pensar um pouquinho, além da perda da água, gasta-se muita energia para o seu bombeamento para as casas. 

Água Santa - Santa Água
A história do povo brasileiro se confunde bem com a vida das águas. Basta lermos para percebermos esta relação em Iara – mãe d’água – em boto encantado – sedutor de virgens – nas carrancas do São Francisco – espantalhos de maus espíritos – em Iemanjá – deusa e rainha do mar, além dos banhos em cachoeiras – lavagem dos maus espíritos, em procissões marítimas, revelando Nossa Senhora dos Navegantes. O naturalista alemão Hermann Burmeister, que viveu algum tempo no Brasil, chegou a dizer que os nossos índios eram anfíbios, tamanho era o seu prazer em estar nas águas. A relação do brasileiro com o mar – nas praias – é algo meio místico, porque misterioso – encontro da terra firme com o elemento líquido – encontro da talassosfera com a epinosfera. Esse encontro trazia saúde para o corpo e para a alma, acreditava-se. Nas praias, as pessoas se transformam. 

A sinergia da Água
O estudo e a pesquisa sobre água são complexos e bem amplos, por isso, foram divididos em três linhas de pesquisas: a talassosfera – águas marinhas; a epinosfera – águas em terras firmes; limnosfera – ecossistemas aquáticos continentais superficiais e subterrâneos. O meu interesse, aqui, não é abordar o tema água sob o ponto de vista técnico e científico, mesmo porque sou incapaz, mas entender essa relação homem e natureza. Sabe-se que todo organismo vivo tem algum tipo de sangue, fundamentalmente formado de água. De um tempo para cá, entende-se que também o planeta Terra é um organismo vivo e o seu sangue é a fonte de todas as formas de vida – cada ser vivo é interdependente dos outros seres. O mal que se faz a um afeta todo o organismo, como, por exemplo, um simples calo no dedo mindinho do pé, que afeta o funcionamento do todo, podendo, inclusive, mudar o humor das pessoas. Da mesma maneira, proteger uma forma de vida é proteger o “corpo” inteiro. Esse entendimento por si só já é um contraponto do sistema capitalista consumidor, tendo o mercado como seu “sangue”.