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Em Questão

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Décio Bragança 22/02/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

FERMENTO - O trabalho imposto para ser livre exige uma atitude crítica de todos e de cada. Claro, a troca de vivências e de experiências pode e deve facilitar o esforço, mas não faz com que um ser humano resolva o problema do outro. Isso significa que um não consegue ser livre para o outro, um não aprende nada para o outro, um não conhece nada para o outro, no lugar do outro. Talvez, essa seja explicação da solidão do existir.

SAL - A liberdade impõe abertura para o outro – o que exige ausência total e absoluta de conceitos e de preconceitos. Assim, liberdade e disponibilidade caminham juntas, porque é o momento do Fiat, do Sim, do Eu quero, do Eu poso, do Eu devo. Nada disso acontece espontânea e ou naturalmente. Nesse sentido, o entusiasmo, a paixão, a entrega, o prazer são fundamentais para se ser livre.

LUZ - A liberdade é também conhecimento acumulado, partilhado, comungado, compartilhado, experimentado, trocado, vivenciado. E tudo isso é feito com a linguagem, com as palavras. Daí, a importância da aquisição da linguagem – habilidade de falar, de escrever, de ouvir e de ler. O homem é o ser da linguagem, das palavras. Sem linguagem é-nos impossível a liberdade. Sem a liberdade é-nos impossível a linguagem.

ROCHA - Nesse sentido, liberdade não é uma abstração, não é somente um direito, não é condição inata do ser humano, não é um objeto estático. Assim, o ambiente escolar é o espaço de experimentar erros e acertos, organização e reorganização, construção e desconstrução, informações e formações para as possíveis transformações individuais e coletivas.

CHAVE - A linguagem, na prática, cria a cultura – tudo o que não é natural. Por isso, a cultura também evolui e o homem toma posse de sui mesmo, assume sua consciência e inventa maneiras de interferir na realidade. Isso é autonomia, isso é liberdade. E assim todos podem planejar o futuro, utilizando ferramentas úteis à evolução social. Para muitos, essa é a diferença essencial dos homens e dos animais que nascem presos aos seus próprios instintos, apetites, sensações, necessidades. Por isso, o exercício da liberdade é uma característica eminentemente humana.

PORTO - A inteligência evolui e a escola é o lugar privilegiado de desenvolvimento da inteligência que ultrapassa os limites da espontaneidade e naturalidade, ou natureza. Assim, a escola torna-se necessária para o crescimento e desenvolvimento individual e social. Por isso, escola e democracia se confundem, se misturam, se tornam uma unidade. Uma escola não-democrática é lugar de adestramento, de doma, de condicionamentos, de algemas, de acomodação, de prisões, de mortes.

SEMENTE - Educação ou uma proposta educacional que tem por princípio simplesmente a reprodução acumulativa dos saberes anteriores, não é livre, já que a liberdade abomina o controle a direção advindas do exterior. Claro, é bom também lembrarmos que o ser humano é o ser mais dependente de todos dentre todos os seres vivos. Mesmo assim, isso não nos dá o direito de, o tempo todo, dirigir, vigiar, punir, controlar todos os passos de todas as crianças, de todos os adolescentes, de todos os jovens e até de todos os adultos, em todos os lugares. Isso é a negação da vida.

ÓLEO - Somos e fomos aculturados, educados para a obediência, a submissão, a subserviência. Por isso nos é penoso pensar, imaginar que um dia possamos ser livres, capazes de decidir o nosso próprio destino e principalmente capazes de dizer NÃO. Imaginemos a seguinte situação: alguém se aproxima da gente e faz algumas perguntas já querendo que a gente diga SIM: “Você ainda me ama?” – “Você quer este emprego?” – “Você acredita em Deus?” – “Você ama a sua família?” Mas, a gente diz NÃO. É um Deus nos acuda! A casa cai” Não queremos que o outro seja livre até para dizer NÃO.

INCENSO - Nada acontece da noite para o dia. A liberdade é luta, esforço, trabalho, conquista, proposta, alicerce, força, construção, processo, dinâmica. Nesse sentido, a escola tem de caminhar nos atalhos, nas trilhas da liberdade. Cidadania é autonomia, independência, decisão, opção, escola, conhecimento, consciência, criticidade. Essa é a solidão do existir! Ninguém poderá amar ou odiar, dividir ou multiplicar, escrever ou ler, falar ou ouvir, dormir e sonhar, nutrir-se ou namorar... no meu lugar, assim como eu não posso fazer nada disso para o outro.

ESPINHO - A escola é o espaço, o instrumento, o meio, o roteiro, o mapa da mina para a continuidade da vida em sua plenitude que a liberdade – causa da felicidade. Educação é vida no sentido formal e informal. A informalidade é primordial, porque mais passível de mudança que poderá ser assimilada e assumida pelo grupo social. Cuidar das pessoas não significa decidir o destino, dirigir, direcionar a vida, no lugar delas, de acordo com as intenções e interesses de quem se mantém no poder.

CAMINHO - É assim que a sociedade evolui, através da educação. Porque a educação sob o ponto de vista formal está presa às orientações impostas pelos organismos educacionais (currículo, conteúdos, provas, exames...) e evolução de todos e de cada um passa pela informalidade, gerida, gestada, nascida nas pessoas em sociedade. Daí, a intersubjetividade, a interdependência, a sinergia, a empatia, o destino.

CRUZ - Nesse sentido, liberdade vira libertação – processo revolucionário, porque utópico. A escola não pode nem deve ser gestada ditatorialmente – reprodução de cima para baixo, desde o Ministério até a mínima escola na menor cidade do país. Na ditadura não há escola nem educação. Há centro de instrução, de adestramento, de doma. Educação é até romper as normas, as leis, sempre visando à independência e autonomia. Sem isso, é a servidão humana.

VITÓRIA - Educação e liberdade se fundem na busca da paz ou na construção da cultura da paz e da solidariedade. Quando se fala em violência, já é comum pensarmos na violência praticada nas escolas, exatamente no lugar de exercício de convivência e trocas, de respeito e tolerância, de diálogo e crescimento. Como nada acontece por acaso, podemos garantir que a violência e a agressividade de crianças, adolescentes e jovens foram semeadas, estercadas, adubadas, plantadas pelos adultos que hoje queremos até diminuir a idade penal, a implantação da pena de morte... Quanta ironia e quanto absurdo! Essas nossas crianças, adolescentes e jovens são os efeitos, os frutos, as vítimas de uma sociedade que privilegia a própria violência e agressividade, além da extrema erotização das relações sociais.

ÁGUA - A escola é a síntese da sociedade, porque por ela passam culturas diferentes, convivem pessoas de várias raças, tribos, religiões e credos, cada um com sua singularidade, especificidade, potencialidades. Por isso também escola pode ser colo, carinho, ternura, entendimento, lugar de silêncio e de escuta, de diálogo e de reflexão, de solidariedade e de esperança, de generosidade e braços e abraços.