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Em Questão

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Décio Bragança 29/03/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

UMA CRUZ - Talvez, a maior frustração do presidente Barack Obama seja não ter conseguido universalizar – para todos os norte-americanos – os serviços de saúde, prometidos em campanha eleitoral, porque continuam sendo o mais caro do mundo, porque privatizados e/ou terceirizados. Houve algum avanço, mas há ainda mais de 20 milhões de americanos sem planos e seguros de saúde, sem proteção e cobertura dos governos. Os especialistas e analistas de lá afirmam que mais de 45 mil americanos morrem anualmente sem absolutamente nenhuma assistência médica.  Presidente dos Estados Unidos nenhum tem a coragem de, por exemplo, estatizar os hospitais e, por extensão, oferecer serviços gratuitos de saúde à população. A pequena reforma da saúde ainda não trouxe os resultados esperados. 
UM PREGO - Os planos de saúde e as companhias de seguros não aceitam pagar, por exemplo, as “despesas” de uma doença contraída depois da assinatura do plano. É uma briga judicial. O governo quer o pagamento dessas doenças e os planos/seguradoras não pagam. Uma família de quatro pessoas, da classe média, paga até 2 mil reais/mês por um seguro saúde e ou plano de saúde. Com a crise econômica, muitos deixaram de pagar o seguro, ficando desamparados; outros foram à falência provocada pelas despesas com a saúde de algum membro da família. Os planos de saúde se defendem alegando que os médicos pedem um número muito grande de exames que os “administradores” dos planos julgam desnecessários, só para compensar de alguma maneira um acréscimo nos seus salários. 
DOIS PREGOS - É até possível que haja um excesso de pedido de exames, principalmente para os médicos não fazerem um diagnóstico errado da doença e depois terem de arcar com despesas de um processo judicial por perdas e danos. Não se trata de discussão sobre o capitalismo. No Canadá, na Alemanha – países capitalistas – o sistema de saúde é estatal e universal. Nos Estados Unidos, com um sistema “privatizado” (em média, uma família gasta 8 mil dólares por ano com planos de saúde), o governo federal ainda gasta o equivalente a 17% do seu PIB – Produto Interno Bruto, enquanto no Canadá, com um sistema estatizado, o governo não chega a gastar 10% de seu PIB. 
TRÊS PREGOS - Então, a questão é de gerência, de gestão, de transparência. Os problemas de saúde, em todos os países, são de difícil solução: as pessoas precisando de assistência médica, os médicos insatisfeitos com os salários do SUS e dos planos de saúde, a indústria farmacêutica – maior lobby no Congresso – querendo faturar mais e mais. O governo alega não ter dinheiro e vira e mexe fala-se em voltar com novos impostos, as filas de doentes nos hospitais crescendo, os meios de comunicação de massa levantando casos espetaculosos em busca de IBOPE... O avanço das ciências médicas, a descoberta de novos medicamentos e tratamentos é perceptível, é percebido por todos, mas continua o tratamento desumano e diferenciado e excludente de um paciente do SUS, de um paciente de um plano de saúde e um paciente “particular” – como costumamos dizer. 
UMA COROA DE ESPINHOS - O interessante é que muitas doenças são consequências do progresso, do jeito como se manejam os animais de corte, de como são industrializados os alimentos e as pessoas continuam desamparadas.  O sistema capitalista não admite a interferência do Estado em seus negócios. Buscam, procuram o Estado quando vão à falência ou bem perto dela. O mercado – a mão invisível que tudo sabe e tudo regula – exige a privatização da saúde, da educação, da alimentação – direitos inalienáveis dos seres humanos. Muitas ideias boas já surgiram no mundo para a solução de muitos problemas sociais, como, por exemplo, o da saúde. Já houve cooperativas, sistema mutualista, grupos de apoio... 
UMA LANÇA - O mercado é mais forte do que tudo isso e essas experiências, infelizmente, não têm muita aceitação. O dinheiro dos impostos destinados à saúde deveria ser bem aplicado e bem gerido. Não pode haver cura de doenças sem fortes investimentos em pesquisas. As universidades existem para a pesquisa. Por não destinar verbas para pesquisas de determinada doença para uma determinada universidade? Assim, todas teriam ou dariam um retorno para a sociedade. Afinal, a saúde é um direito de todos. O mínimo que se pode exigir dos governantes é o cumprimento da Constituição, além de respeitar a famosa Declaração dos Direitos Humanos, da ONU, assinada por 194 países. 
CANIÇO DE HISSOPO - Se dermos uma passada de olhos nos números da expectativa de vida das pessoas de alguns países, levaremos um susto: Angola – 33 anos; Congo – 37; Serra Leoa – 29 (a menor expectativa de vida no mundo); Brasil – 72; Japão – 75 (a maior expectativa de vida no mundo). Isso para dizer que as desigualdades dentro de um mesmo país, repetem-se em nível mundial, entre as nações. Nós, em relação a tantos outros países, estamos muito bem. Na África, além de muitas doenças, há ainda em muitos países lutas tribais, guerras civis, guerras de poder. Quando a Uniube fez um convênio com Angola, o ministro da Educação de lá nos revelou, aqui, em Uberaba, que o maior problema de Angola era desativar as minas em todo o seu território. Gastava-se muito mais em desativá-las do que colocá-las em atividade. Além de muitas mortes, enfrentam o problema de muitos aleijados. 
INRI - O segundo grande problema é a falta de saneamento básico: 3% da população de Angola tem água encanada e esgoto tratado. Ele nos contou que deve haver mais de um milhão de minas ainda instaladas, durante a guerra civil. Os outros países do mundo não estão nem aí para os problemas de Angola, assim como nós não estamos nem aí com a diarreia, tuberculose, malária, HIV, dengue de nossos irmãos, brasileiros. “Cada um por si e Deus por todos” – “O problema do outro é do outro e o outro que se dane”. Solidariedade, sinergia, cumplicidade são palavras proibidas no mundo econômico. Países ricos e em desenvolvimento também enfrentam problemas sérios com a saúde, como as doenças crônicas, obesidade, cardíacas, respiratórias, diabetes, cânceres... 
UMA MORTE - Doenças são combatidas com muita pesquisa, portanto com muitos investimentos. Só para lembrarmos um pouco da história brasileira: até 1906, os médicos brasileiros recebiam seus salários do Ministério da Saúde e as pessoas, absolutamente ninguém pagava consultas e internações. Os médicos faziam um relatório de atendimentos e procedimentos e enviava-o ao Ministério. Havia algumas mentiras, algumas cirurgias-safári, como se dizia na época. Cirurgias-safári eram as cirurgias, por exemplo, de apendicite, sem que fossem necessárias. Dizem as más línguas que, nos relatórios enviados ao Ministério, havia operação de fimose em mulheres e cesarianas em homens. Havia muitas falcatruas e corrupção. “Mataram a vaca para matar um berne” ou “Derrubaram um prédio por causa de uma barata no sexto andar”. 
UMA RESSURREIÇÃO - No Rio de Janeiro, o médico Miguel Couto, pensando estar recebendo muito pouco do Ministério, começou a pedir uma “contribuição” para as pessoas, uma espécie de caixa-dois. Claro, seu padrão de vida em relação aos colegas melhorou muito e produziu “inveja” neles. Não deu outra: todos começaram a cobrar. Não deu outra: o governo brasileiro, sempre “deixando pros outros suas obrigações”, suspendeu o pagamento desses médicos, criando dois tipos de medicina: uma paga e outra não-paga; uma medicina pública, outra privada; hospital público e hospital privado. Foi o começo da mercantilização da Medicina!