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Em Questão

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Décio Bragança 19/04/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Somos todos irmãos da lua - As famílias, em geral, não têm o costume de construir a árvore genealógica – força oculta, misteriosa e poderosa que cada um traz dentro de si. “Sou” essa força, trago essa energia na memória das minhas células, na esfera da vida molecular. O “EU” é que está mais próximo da plateia, se a vida fosse um palco. De alguma forma, os bisavós, lá no fundo do palco, compõem o cenário, são-nos o pano de fundo. Mais à frente nossos avós, nossos pais e eu - autor, ator, diretor, cenográfico, iluminador, coreógrafo de minha própria vida.

 

Moramos na mesma rua - Mais ou menos assim também o nosso organismo, algo meio complicado e contraditório que se apresenta a quem se propõe conhecer, saber, ser: o que vejo é o que é – objetividade – ou o que é pode não ser – subjetividade? “O essencial é invisível aos olhos” nos ensinava Exupèry, em o “Pequeno Príncipe”, em nossa adolescência. A busca exclusiva da objetividade – isenção do sujeito – nos faz fechar os olhos para a sensibilidade, emoção, as coisas do coração.

 

Bebemos do mesmo copo - A mesma bebida crua - A busca da subjetividade – isenção da coisa, da matéria, do objeto – nos faz fechar os olhos para a razão, para a materialidade, para as coisas da cabeça. O equilíbrio é quase impossível. O fato é que “coisas” objetivas não me pertencem e quanto mais distantes de mim, mais objetivas. O contrário, a subjetividade: quanto mais as coisas estejam mais próximas de mim, mais subjetivas.

 

O caminho já não é novo - Com ele é que passa o povo - O filme “Matrix” – dirigido por Andy Wachowski, Lana Wachowvski, estrelado por Keanu Reeves, Laurence Fisburne, Carrie-Anne Moss – nos propões um desafio: “Real (objetivo) é o que é virtual (subjetivo) e o que é virtual é real”. Qual é o limite entre um e outro? O que penso, acredito, busco, amo, odeio, existe? O que explico, compreendo, pesquiso, conheço, existe? Será que tudo tem de ser explicado racionalmente? Será que nada tem de ser explicado racionalmente? É possível eliminar a objetividade e a realidade? É possível eliminar a virtualidade e a subjetividade? Existe uma verdade ou muitas verdades? Existem graus de objetividade, de verdade? Existe verdadeiramente a intuição? O acaso existe? Existem rupturas, descobertas, obras de arte, sem que tivessem sido planejadas objetivamente? Muitas perguntas e tantas outras sem respostas.

 

Farinha do mesmo saco - Galinha do mesmo ovo - Não há limites definidos e determinados. Alguns acreditam que o que o outro percebe de mim, é simplesmente uma imagem que eu permito, como eu quero que o outro me veja. Não é por acaso que, hoje, criaram o marketing – ciência do engano. Inventou-se até o “marketing pessoal” – o que quero que o outro perceba de mim, em mim. Professores há que ensinam a seus alunos como, por exemplo, devem apresentar-se numa entrevista de emprego, ou como escrever um currículo. “As aparências enganam “ ensinavam nossos avós. Existem até especialistas, mestres e doutores, na arte de enganar.

 

Mas nada é melhor, que a água - E a terra é a mãe de todos - Prefiro – o que não significa uma verdade imutável – compreender assim o homem. EU e TU (você) moramos numa mesma casa, numa mesma cidade, num mesmo planeta, porque, queiramos ou não, vivemos como seres dependentes, interdependentes, independentes e codependentes. Em outras palavras, somos a humanidade. Vestimos roupas porque alguém as confeccionou. Moramos numa casa porque alguém a construiu. E assim tudo.

 

O ar é que toca o homem - E o homem maneja o fogo - É impossível alguém dizer que vive só e não tem de dar satisfação a ninguém. A menos que, é impossível, viva no meio do mato, alimentando-se de frutas silvestres, desnudado, mudo, analfabeto, sem expressão, sem nada. Todos vivemos em função de todos. E mais: tudo o que existe, existe em função do que existe. Cada instrumento que usamos, cada livro que lemos, cada ação praticada é consequência de um esforço e trabalho de toda a humanidade, passada e presente.

 

E o homem possui a fala - E a fala edifica o canto - Constrói-se o futuro – o que pode ser, o vir-a-ser – nos trilhos do passado – o que foi – e do presente – o que é. Nada do que é humano é simples e fácil de ser alcançado, dadas as tentações e oportunidades de fugir, de escapar do real, da objetividade. As luzes e cores do capitalismo e do mercado, do consumo e das lojas quase que nos obrigam a comprar o que não desejamos, mas compramos assim mesmo. Quantas vezes nos arrependemos de ter comprado algumas coisas! O arrependimento é o primeiro passo da culpa. Sentir-se culpado nunca faz bem à saúde do ser humano.

 

E o canto repousa a alma - Para alma depende a calma - Poucas vezes, durante a vida, nos perguntamos por quê (motivos) e para quê (efeitos). Essas perguntas poderiam ser um exercício diário, mas nos negamos a nós mesmos, porque talvez seja o caminho mais fácil de não se ter contato consigo mesmo e com o mundo.

 

E a calma é irmã do simples - A título de exemplificação, poderíamos fazer as seguintes perguntas: por que e para que professar a fé em deus e nos homens? Por que e para que amar, casar, constituir família? Por que e para que comprar uma segunda casa, um segundo carro, um segundo celular, uma segunda televisão, um segundo computador? Por que e para que trabalhar tanto e dormi tão pouco, correr tanto e amar tão pouco, comprar tanto e curtir tão pouco os amigos, os parentes, os colegas de trabalho? Por que e para que deixar-se humilhar, explorar, submeter, subjugar, obedecer?

 

E o simples resolve tudo - Na medida em que buscamos respostas, vamos perdendo algumas coisas quando optamos por outras. Quando escolho Joana para casar, “perco” (entre aspas) todas as outras mulheres – o que não significa que o casamento deva ser eterno. Um amigo me disse que é sempre fiel à mulher escolhida, enquanto estiver com ela. “Que seja eterno, enquanto dure” – nos ensina o poeta! Ele está no terceiro casamento e sabe que a fidelidade dos dois, um e outro, faz a relação mais duradoura, mas não eterna, para sempre. As circunstâncias e os momentos vão se alterando, por isso também as pessoas vão mudando o jeito de viver, de ser. Tudo é muito dinâmico, processual, sujeito a mudanças, a transformações, a novas experiências, a novas ideias e sonhos e ideais.

 

Mas tudo na vida às vezes - Troca-se de religião, de escola, de família, de cidade, mas aonde quer que se vá, cada um se leva a si mesmo. Em outras palavras, fico vinte e quatro – 24 – horas do dia comigo mesmo. Assim, sou o meu maior problema e a minha maior solução, porque sou ao mesmo tempo meu juiz, meu amante, meu ídolo, meu companheiro. Posso até fugir de tudo, mas não me é impossível fugir de mim. Aprendo a estar com os outros, estando comigo mesmo; aprendo a estar comigo mesmo, estando com os outros. “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo!” Daí, a ideia de simultaneidade e gratuidade do amor. Consiste em não se ter nada (Negrito de Renato Teixeira)