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Em Questão

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Décio Bragança 26/04/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

EU COMIGO MESMO - As quatro possíveis relações caminham juntas, paralelamente. Quem diz que ama a Deus e não ama o próximo, quem diz ama o próximo e não ama as “coisas” do mundo, quem diz que ama as “coisas” do mundo e não ama a si mesmo, ainda não teve uma experiência amorosa verdadeira, ainda não experimentou o amor. Amar a si mesmo não é egoísmo e/ou egocentrismo, mas cuidar-se por inteiro para si e para os outros.

 

EU COM OS OUTROS - Em sociedade, podemos – às vezes é até bom – nos apresentar diferentemente do que somos. “Nem tudo que parece ser, é” – “Nem tudo que é, parece ser”. Ninguém tem o controle absoluto de si mesmo, mas cada um, de uma certa forma, se apresenta como quer que o veja, como quer que o perceba. Temos – que bom! – muitas maneiras de nos apresentar em sociedade.

 

EU ME VISTO DE MIM - Mais ou menos, a gente é como um vestir roupas, representar papéis, trocar as máscaras. Na praia, visto-me de uma maneira X, porque também meu comportamento é X. na escola, visto-me de uma maneira Y, porque também meu comportamento é Y. em cada espaço e tempo, sou um diferente, em contato também com outros diferentes. O interessante é que em cada espaço e tempo sou inteiro, completo, todo, inédito, intransferível, irrepetível, em todo meu corpo e alma, em toda minha matéria e espírito.

 

EU COM TODOS OS SERES - A melhor representação, sem que se queira minimizar a complexidade humana, é uma divisão aritmética: 1 ÷ 1 ÷ 1 ÷ 1 ÷ 1 ÷ 1 = 1. Nesse sentido, viver é dividir-se, deixar-se nos outros e nas coisas que são feitas, num determinado tempo e lugar. “Sou inteiro em cada um” – plagiando o grande Fernando Pessoa. Assim: EU ÷ EU ÷ EU ÷ EU ÷ EU ÷ EU = EU.

 

EU ME VISTO PARA O OUTRO - Exemplificando: sou filho e meu interlocutor é meu pai, num lugar e tempo determinado. Meu pai é meu TU. Eu e Tu vão trocando de lugar e vão se experimentando no outro. A isso se dá o nome de diálogo – a palavra que anda, que caminha, que muda de boca, de coração, de ser. Cada ser, pai e filho, EU e TU, traz seus sonhos, desejos, ilusões, ideais, amigos e inimigos, frustrações, sentimentos – ser inteiro. E assim vai acontecendo com EU – marido, EU – professor; EU – crente; EU – escritor...

 

EU COM DEUS - No diálogo, diferentemente do que se diz “minha liberdade não termina na liberdade do outro.” No diálogo, não há cercas, não muros: um toca, entra, mora, experimenta, saboreia o outro. Maior o diálogo, maior a interpenetração. Assim: Fico vinte e quatro horas comigo. Aonde vou me levo, mas não sou filho durante as vinte e quatro horas. Vivo outros EU’s com outras pessoas, com outros TU’s, em outros espaços e em outras horas e minutos.

         

EU SOU CÚMPLICE - Sou pai, por opção e por amor, meu interlocutor é meu filho, num lugar e espaço B. Aprendo a ser pai com meu filho. Não há modelo de pai, porque com cada filho, o pai tem uma experiência única, irrepetível. Sou marido, por opção e por amor, e meu interlocutor é minha esposa, num espaço e lugar C. Aprendo a ser marido com minha esposa. Não há modelo de marido. Sou o melhor marido na medida em que isso me é exigido pela esposa, porque há sempre cumplicidade entre EU e TU.

 

EU SOU O OUTRO - Sou professor, por opção, e meu interlocutor é meu aluno, num espaço e lugar D. Aprendo a ser professor com os meus alunos. Não há modelos de professor. Sou o melhor professor na medida em que me é exigido pelos alunos, porque, queiramos ou não, sempre haverá cumplicidade de EU e TU. Sou crente em Deus e Deus é o meu TU, num lugar e tempo E. Sou amante e minha amante é o meu TU, num lugar e tempo F. Sou pianista e a uma plateia é o meu TU, num lugar e tempo G.

 

AONDE VOU ME LEVO - E assim posso ser quantos queira ou for possível. Nem por isso, deixo de ser EU-MESMO ou o MESMO-EU. Em toda interlocução, há cumplicidade dos envolvidos. Sempre escolho com quem fico, namoro, caso, passeio, durmo, acordo, vivo, amo, odeio, dividindo espaços e tempos bem determinados. Não digo todas as coisas para todas as pessoas em todos os tempos e lugares. Digo algumas coisas a algumas pessoas em algum tempo e em algum lugar. O que une ou desune as pessoas é a vontade, a escolha, a opção por elas, ou a opção delas. O amor não é obrigação, é opção. Assim, dependo, sim, de minhas escolhas. A minha desgraça, ou minha felicidade, nesse sentido, dependem de mim, das minhas escolhas, das minhas opções.

         

AONDE FOR TE LEVO - O grande Darcy Ribeiro nos ensina que pior do que a pobreza e a miséria é a ingenuidade e a ignorância. Libertar-se da ingenuidade e da ignorância é começar a ler mais entrelinhas, a ver o invisível (ver de dentro), a ir além das aparências, a não se deixar enganar, porque nem tudo pode ser reduzido à matéria, ao capital, às ciências exatas, à objetividade, à experimentação. Daí, a importância da expressão e da liberdade de expressão. Daí, a importância da leitura e da leitura de mundo. Daí, a importância de conhecer-se e conhecer os muitos e diferentes outros.

 

AONDE TU FORES TU ME LEVAS - Nem sempre o que se fala é verdadeiro, é belo, é bom. Observemos a aproximação de um rapaz ao tentar namorar uma moça. A primeira declaração de amor – acredito em amor à primeira vista – possivelmente não seja verdadeira. No namoro inicial, principalmente, há muita mentira. “Não te amo porque você me diz que me ama. Te amo pelo jeito de me olhar, de me tocar, de me ouvir, pelo seu comportamento e pelo que você é.” Ingenuidade é assim: acredito no que você me diz.

 

TU ME VÊS COM OS MEUS OLHOS - Há muita ingenuidade nas relações amorosas. Há quase sempre alguém “enganando” o outro. Há muitas frustrações, muitas tristezas, muitas desilusões nas relações amorosas. Daí, os quase quatro milhões de abortos por ano no Brasil. A moça, “ingênua” e “ignorante”, abandonada pelo homem amado e pelos pais, sem alternativas e perspectivas, lança mão do aborto clandestino. São pouquíssimas as mulheres casadas que apelam para o aborto. Possivelmente, todas essas moças foram enganadas por homens.

 

EU TE VEJO COM OS TEUS OLHOS - Também o engano está presente no assédio do traficante ao usuário, do pastor ao crente, do candidato aos eleitores, do professor ao aluno... A promessa de um futuro fácil (casamento, prazer, amor, felicidade, vida eterna, aprovação...) obscurece as mentes e os corações. A publicidade e a propaganda de quem assedia “mexem” nos neurônios e hormônios de quem é assediado. O que acontece com os neurônios e os hormônios de quem assedia e de quem é assediado é indecifrável, insondável e inexplicável, porque meio que irracional.