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Em Questão

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Décio Bragança 10/05/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

QUASE DEUS - Há quase três mil anos, os gregos já nos ensinavam: “Conhece-te a ti mesmo!” e nós, ainda hoje, ou até hoje, não aprendemos a lição. As instituições: famílias, escolas, religiões... foram criadas para o autoconhecimento, foram criadas para ajudar o ser humano a conhecer-se a si mesmo. Uma decisão, talvez, a mais importante: ser mãe, é fruto do autoconhecimento.

 

SANGUE DO SANGUE - O autoconhecimento é necessário para simultaneamente cada um construir a sua personalidade e identidade. Não é fácil as pessoas se assumirem, administrarem todos os próprios conflitos, relacionarem-se uns com os outros, sem que, minimamente, cada um se conheça e conheça o outro. Em se conhecendo, uma mulher quis ser mãe, sem nenhuma explicação. O BEM se legitima a si mesmo, sem que precise de explicações.

 

PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DE VIDA - Todos vamos nos construindo na solidariedade e fraternidade e cumplicidade, no calor humano e no colocar-se a serviço do outro, dos muitos outros. Temos de estar dispostos a aprender, e a escola é o espaço privilegiado da aprendizagem, da valorização do outro, do desenvolvimento das capacidades e competências, das potencialidades e das possibilidades pessoais e coletivas.

 

MEU COLO - Temos que desaprender que a “minha felicidade depende da desgraça do outro”. Lembro-me sempre de Erick Fromm: “Se nós desejássemos a nossa própria felicidade com a mesma garra e força e energia com que desejamos a desgraça do outro, já teríamos sido felizes”. Indiscutivelmente, a felicidade e a alegria da mãe se realizam na felicidade e na alegria do filho.

 

MEU ACONCHEGO - Partilha, divisão, doação... são palavras muito pouco usadas por todos nós. Cada um de nós vai se experimentando no noutro. O melhor exemplo de partilha, de doação é ainda a maternidade. A angústia da espera – nove meses – é a antecipação da angústia de separação – parto – e quando o filho se lança ao mundo em busca de sua própria realização, do autoconhecimento.

 

MEU OMBRO AMIGO - Amor, amizade, ternura são palavras muito pouco usadas por todos nós. Cada um de nós vai se sendo no outro. Isso, sim, é desenvolvimento, crescimento, maturidade, liberdade, responsabilidade, cumplicidade. Estou encantado com a vida, porque poderia aqui não estar, já que fui escolhido para nascer e viver dentre três milhões de abortos por ano no Brasil - número não-oficial – e dentre outros tantos milhões de filhos que foram abandonados pelas mães. 

 

MEU BEM-QUERER - “Penso, logo existo” - o grande erro de Renè Descartes e que transformou os homens e mulheres em objeto de análise e de manipulação. “Existo, logo penso” - grande proposta de nossos e novos dias. Existir, para Sartre, o Jean Paul, e para muitos outros pensadores, é o primeiro passo da liberdade, do exercício da liberdade - a libertação. Bebi o seu sangue e comi a sua carne. Por isso, nasci, libertando-me por força do sangue e do carne. Existo.

ALMA DA ALMA - Primeiramente, eu me experimento a mim mesmo, descubro-me e decido o que quero, o que é bom para mim. Depois, eu me experimento no outro e o outro se experimenta em mim. Daí, a cumplicidade. Daí, a doação. Daí, a maternidade! Uma mulher, minha mãe, abriu mão de si mesma, para alegria dela e do filho. Essa mulher amou sem saber se iria ser amada, porque o amor não é obrigatório, mas uma decisão.

 

MEU MUNDO - O outro permite ou não a minha realização radical e pessoal; e eu permito ou não a realização radical e pessoal do outro em mim. Tanto de uma ou outra maneira, eu e o outro nos responsabilizamos por minha existência e pela existência do outro. Daí, a cumplicidade. Daí, a doação. Daí, a maternidade! Uma mulher, minha mãe, permitiu a minha realização, independentemente da dela.

 

MINHA DECISÃO - Em outras palavras, eu faço um projeto existencial: quero ser MÃE, quero ser professor, quero ser casado... Muito bom, mas se o outro, um outro ser, não quer ser meu filho, não quer ser meu aluno, não quer ser minha esposa... não realizo o meu projeto, não me realizo. Nasci, porque uma mulher, minha mãe, assim decidiu, porque fazia parte do projeto existencial dela.

 

MEU CÉU - Da mesma maneira, muitas vezes, eu não permito que o outro se realize em mim. Nego-lhe a existência. Somos cúmplices uns dos outros, mesmo que não tenhamos consciência dessa cumplicidade. As razões e não razões do existir moram no coração, na cabeça, nos braços do outro. Por isso também o outro me liberta! O outro poderá ser meu CÉU! Uma mulher, minha mãe, é, sem dúvida, meu céu.