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Em Questão

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Décio Bragança 06/06/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

MEDOS - Existem algumas palavras da moda que arrepiam a todos, porque trazem no seu bojo intenções secretas e algumas até mesmo inconfessáveis: flexibilidade, horizontalidade, variedade, diversidade, mercado, liberdade, autonomia... Essas palavras, dentre tantas outras, foram criadas pela “nova” Teoria da Administração e que influenciam decisivamente em todas as outras relações humanas e sociais. Na prática, as “coisas” evoluem muito pouco. Continua a falta de participação de todos nos empreendimentos e nas empresas; as decisões continuam sendo centralizadas e centralizadoras; os salários são assuntos proibidos, sempre indiscutíveis, acentuando as diferenças entre as pessoas; a falta de critérios de avaliação interna e externa, imperando ainda muitos medos e bajulações; a terceirização de serviços essenciais, transformando pessoas físicas em pessoas jurídicas - uma maneira até legal de fraudar o fisco; as mazelas do poder e das autoridades, a existência de caixa dois e tantos outros arranjos imorais.

 

TRAUMAS - Esse “novo” discurso é tão competente que nem nos arriscamos a perguntar: a quem interessa a flexibilidade? Quem se beneficia com a horizontalidade? A variedade está contra ou a favor de quem? Quais os objetivos do mercado? Para quem importa a liberdade? Autonomia para fazer o quê? Quem dirige a mão invisível do mercado? As pessoas nascem para o bem, ou para cumprir uma tarefa saudável à sociedade. As condições para tanto devem ser e estar sempre favoráveis e, mesmo assim, nem sempre as “coisas” saem a contento. Os entendidos e os estudiosos, hoje, analisam e entendem o ser humano como fruto de três componentes essenciais: a hereditariedade, o ambiente e a vontade. Em outras palavras, esses componentes nos fazem cúmplices uns dos outros em tudo: no bem e no mal, nos avanços e nos retrocessos sociais.

 

SUPERSTIÇÕES - O que importa é e será sempre entender o ser humano. Inicialmente, cada ser é a síntese da humanidade. Sob o ponto de vista estritamente biológico, o ser humano é uma síntese de, no mínimo, 14 pessoas: “Trago em mim 8 bisavós, 4 avós, 1 pai e 1 mãe. Sou, portanto o 15º elemento de uma família.” Existem teorias e provas científicas que as células, todas as células, têm uma memória. Isso aumenta a nossa responsabilidade familiar, porque, queiramos ou não, estaremos nos nossos filhos, nos netos e nos bisnetos. “Meu bisneto será tão bom ou tão mau dependendo do sou hoje, aqui e agora; dependendo do que acredito, de meus valores e princípios, do meu jeito de ser e ver o mundo e as pessoas, hoje, aqui e agora”. O passado é imutável, mas somos, sim, responsáveis pelo presente e pelo futuro próximo e remoto.

 

FRUSTRAÇÕES - Não se fabrica Educação, como se fabricam escolas, porque Educação é processo, enquanto escolas, produto. A Educação tem de ter a preocupação com a qualidade de vida humana, que, aos poucos, vai sendo viabilizada e aprofundada, porque totalizante e envolvente. Só isso, basta isso para nos credenciar a dizer a Educação não é técnica, mas uma questão ética e ontológica, artística e de bom senso, cultural e de sabedoria, existencial e de sobrevivência. Na década de 70, o educador Ivan Illich publicou um polêmico livro : Sociedade sem escolas”, publicado pela Editora Vozes, no Brasil. Defende ele, sim, uma sociedade sem escolas, mas não admite uma sociedade sem Educação. Na escola, o que há é luta permanente de poder: uns “armando” contra o outros, uns planejando a queda dos outros, uns querendo ser superiores a outros, para no fim, como disse Machado de Assis: Ao vencedor as batatas!”

 

REALIDADE CRUA - A própria designação “Ensino Superior” traz uma conotação desalmada e excludente e desumana, infernal e demoníaca, prepotente e arrogante, de que quem está no Curso Superior é quem manda e é quem faz um curso, melhor trabalha do que de quem não está nele. Sem qualquer pretensão de análise psicanalítica, sabe-se que todo complexo de superioridade nasce, brota, surge de um tremendo complexo de inferioridade. Somos, no Ensino Superior, um bando de doentes loucos bolando estratégias de dominação, de controle, de obtenção de poder. E isso está acontecendo em todos os níveis das escolas, das universidades: um coordenador , um supervisor escolar, um inspetor, um diretor se digladiam, um quer mais, um quer mandar mais do que o outro, um critica ao outro, às vezes, até abertamente. Um professor, talvez imitando comportamentos de seus “superiores”, em sala, abusam do poder. Isso é Escola, mas não é Educação.

 

REALIDADE NUA - Insistimos em verticalizar a Educação. Pode-se e até se deve verticalizar a Escola e nunca a Educação. A Educação se faz, aos poucos, no ombro a ombro, no frente a frente, no olho no olho, de coração para coração, na horizontalidade dos interesses e intenções, das ações e desejos. A Escola quer impor uma competência formal, pretensamente objetiva e neutra (o que não é verdade!), sem compromissos com as pessoas, com o ser humano, porque muitos ainda entendem ciência como algo impessoal, imparcial, atemporal, aespacial, universal... A Educação, ao contrário, nos faz cúmplices uns dos outros, tendo preocupação primeira, única, máxima, com as pessoas, com o ser humano, encarnado no tempo e no espaço, vivendo a sua história e geografia, na vivência e convivência comunitária.

 

REALIDADE AMARGA - A Escola, assim como o próprio MEC, quer a quantificação, a mensuração, a sistematização, a definição, as provas, os testes, os números, as estatísticas... A Educação não tem preocupações de definir, de mensurar, mas, porque se preocupa com o ser humano, tem de, sem manipulações metodológicas e “ditas” científicas, buscar temas essencialmente da natureza humana: o amor e a felicidade, a justiça e a paz, o trabalho e as transformações advindas do trabalho, a fé a transcendência, a sabedoria e a arte (temas enxotados das escolas e das universidades!), vivendo, convivendo, participando de todas as atividades. Bom seria se todas as escolas e universidades fossem também, além de belas escolas, uma casa de Educação! Temos a mania, talvez por querermos ser muito explicativos e bem didáticos, de polarizar, enfatizar, valorizar, centralizar o processo na figura do professor, ou na figura do aluno, esquecendo-se as relações entre professores e alunos, desprezando, menosprezando, desvalorizando o que realmente importa em educação: a construção do conhecimento.

 

CONTRAPONTOS - Dizer que o professor é o centro do processo educativo é verticalizar, hierarquizar as relações e, pior de tudo, querer que educação seja simplesmente transmissão do saber, do conhecimento, criando alunos subm9issos, passivos, subservientes, coisificados, robotizados, automatizados, mecanizados, eletrificados, calados, repetidores, fantoches, zarolhos, domesticados, domados, condicionados, marionetes... Dizer que o aluno é o centro do processo educativo é também verticalizar, hierarquizar as relações e, pior de tudo, querer atribuir conhecimentos, saberes, qualidades, hábitos, virtudes, comportamentos, atitudes, sistematizações, análises, sínteses, informações, organização ao aluno que ainda não os tem. De um lado, "Magister dixit"; do outro, "Discipulus dixit". De um lado, a ditadura; do outro, o laissez-faire. De um lado, o autoritarismo; de outro, o não-direcionismo. De um lado e de outro, o desequilíbrio, a esquizofrenia, a arrogância, a onisciência, a prepotência... Se o que importa é a construção do saber, importa também a horizontalidade, o frente a frente, o lado a lado, o ombro a ombro, a dinâmica, a dialética, a comunicação, a vivência, a experiência, as potencialidades, a capacidade, a relatividade, o crescimento, as possibilidades, a interação, o compromisso, a cumplicidade, a crítica, a análise, a síntese, o experimentalismo, a fundamentação, o desafio... sem as relações de poder.