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Em Questão

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Décio Bragança 14/06/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

UM DIA ELE CHEGOU TÃO DIFERENTE DO SEU JEITO DE SEMPRE CHEGAR - O homem nasce com características da espécie humana – o que não está garantida a condição humana. Isso faz dele um ser educável, passível de apropriar as funções psíquicas, os saberes, as habilidades técnicas que são interiorizadas através de processos interativos, quase sempre de natureza simbólica. Vygotsky disse que todas as funções psíquicas (pensamento, linguagem, consciência, lógica, comunicação, desejos...) nascem das relações reais entre as pessoas.

 

OLHOU-A DE UM JEITO MUITO MAIS QUENTE DO QUE SEMPRE COSTUMAVA OLHAR - Dada a velocidade com as “coisas” estão evoluindo, todos os dias nascem novos ignorantes. As Universidades, daqui e dali, alucinada e freneticamente, pragmática e euforicamente, buscam, para vencer a ignorância diária, a técnica, as tecnologias, impulsionadas pelo mercado e, porque não dizer, pelo Estado, entregando-se à reprodução, com eficácia e eficiência, dos saberes e conhecimentos já estratificados, apenas ampliados no presente, através das próprias tecnologias.

 

E NÃO MALDISSE A VIDA TANTO QUANTO ERA SEU JEITO DE SEMPRE FALAR - Esse, talvez, seja o grande risco por que passam os acadêmicos e estudantes, pesquisadores e estudiosos: reproduzir sem produzir. As Universidades, urgente e sistematicamente, têm de passar por um banho de humanismo, descobrindo e redescobrindo o valor e o significado das coisas num mundo simbólico, analisando e reanalisando a perversidade da globalização em detrimento dos indivíduos, buscando e recuperando as identidades humanas, construindo e reconstruindo o mundo para todos os homens e para cada homem.

 

E NEM DEIXOU-A SÓ NUM CANTO PARA SEU GRANDE ESPANTO, CONVIDOU-A PRA RODAR - Todas as Universidades correm e estão correndo o risco, nesse desejo de pós-modernidade misturada com o neoliberalismo, de tornarem-se descartáveis. As pesquisas ou muitas pesquisas não duram muito, ou não têm validade por mais do que alguns anos, alguns poucos anos – o que tornam as pesquisas e seus pesquisadores descartáveis.

 

E ENTÃO ELA SE FEZ BONITA COMO HÁ MUITO TEMPO NÃO QUERIA OUSAR - Professores, críticos e criativos, banhados e prenhos de humanismo no trato das pessoas e das coisas, são indispensáveis, aqui e em qualquer lugar, hoje e em qualquer tempo. Professores, reprodutores e consumistas, imediatistas e que aprendem hoje para ensinar amanhã, aumentam a ignorância dos ignorantes, propõem mais miséria para os miseráveis, sugerem mais mediocridade para os medíocres. Em outras palavras, é preciso abaixar a bola e tratar dos assuntos humanos e sociais reais, dos nossos problemas de relacionamento, iniciando em casa e com continuidade em sala de aula.

 

COM SEU VESTIDO DECOTADO, CHEIRANDO A GUARDADO DE TANTO ESPERAR - A aquisição da linguagem é tão importante que se torna o diferencial entre os homens e todos os outros seres. Um dos mais importantes linguistas do mundo, o brasileiro Joaquim Mattoso Câmara Júnior, afirma, ao estudar a aquisição da linguagem: “Assim, uma língua em face do resto da cultura é o seu resultado ou súmula; é o meio para ela operar; é a condição para ela substituir. A sua função é englobar a cultura, comunicá-la e transmiti-la através das gerações.”

 

DEPOIS OS DOIS DERAM-SE OS BRAÇOS COMO HÁ MUITO TEMPO NÃO SE USAVA DAR - Vale dizer que a aquisição da linguagem é fruto do esforço humano e de toda a humanidade. Claro, a linguagem não é inspiração divina, nem coisa do capeta. Só o homem fala e escreve. Por isso, para Deus falar, tornou-se homem, tornou-se carne.

         

E CHEIOS DE TERNURA E GRAÇA FORAM PARA A PRAÇA E COMEÇARAM A SE ABRAÇAR - Como peculiaridade humana, poderá o homem usá-la para o bem (Deus) ou para o mal (Diabo). Não perceber isso, não ler nas entrelinhas, não separar o joio (mal) do trigo (bem), é ser ingênuo demais. Há muitos ingênuos por aí! E por causa da ingenuidade humana generalizada, manda mais, chegando à exploração e abuso e humilhação de outros, quem sabe manipular melhor as palavras. Que digam os marqueteiros safadoS, espertos, sacanas!

 

E ALI DANÇARAM TANTA DANÇA QUE A VIZINHANÇA TODA DESPERTOU - Nas entrelinhas, está a verdade. Muitas vezes é mais importante o que não foi dito, o que não foi escrito. A verdade ultrapassa sempre a expressão verbal. Assim também acontece, por exemplo, com a música: os não-sons (o silêncio) criam os ritmos, a linha melódica e harmônica, a beleza sonora, o êxtase musical. Orfeu se faz presença nos silêncios, nas pausas de uma mesma música.

 

E FOI TANTA FELICIDADE QUE TODA CIDADE SE ILUMINOU - Roland Barthes que nos socorra: “Falar não é comunicar. Falar é subjugar.” Isso para dizer que a linguagem e as palavras são ingredientes, instrumentos de poder. E que poder! A força de palavras é mais eficaz, mais eficiente, mais poderosa do que a força policial, a força do Estado. É preciso descobrir o que está escondido nas palavras. Sem essa descoberta, a ingenuidade, a mediocridade, a humilhação, o domínio, a dominação... Claro, o inverso também é possível: com palavras faz-se a revolução, promove-se a libertação, cria-se a cidadania, como entendeu um Sartre, um Barthes, um Habermas.

         

E FORAM TANTOS BEIJOS LOUCOS, TANTOS GRITOS ROUCOS COMO NÃO SE OUVIA MAIS - Poder-se-iam citar inúmeros pensadores e outros filósofos que escreveram sobre o poder das palavras. Basta-me, aqui, agora, o que diz Humboldt: “o ser humano está de tal maneira aprisionado em sua língua, que somente apreende o sentido das coisas na medida em que elas são reveladas pela linguagem.”

 

QUE O MUNDO COMPREENDEU E O DIA AMANHECEU EM PAZ - O grande existencialista alemão, Martin Heidegger diz que a “linguagem é a casa do ser”. Casa, aqui, pode significar mil coisas! É a tal polissemia! A palavra é uma magia, queiramos ou não. Cada palavra é a sua própria metáfora. O fato é que, contraditoriamente, as palavras libertam e escravizam, comunicam e cerceiam, amam e odeiam, unificam-nos e separam-nos, destroem e constroem.