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Em Questão

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Décio Bragança 21/06/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

EM QUESTÃO

Professor Décio Bragança Silva

decio.braganca@uniube.br

 

Com a filha de João, Antônio ia se casar – A economia de um país, segundo estudiosos e economistas, se faz baseada em quatro setores: 1 – produção de matérias-primas; 2 – industrialização para agregar valores; 3- comercialização de produtos e 4- prestação de serviços. A isso dão o nome de cadeia produtiva. Infelizmente, nós, brasileiros, apesar de estarmos na oitava posição mundial com base no PIB – Produto Interno Bruto, continuamos estacionados no primeiro setor da economia e muitos ainda se orgulham disso. “Somos o maior produtor de carne” – “Somos o maior produtor de grãos e frutas” – “Somos o maior produtor de minérios”. Em outras palavras, somos campeões de matérias-primas – o que pouco significa. Basta observarmos os países mais ricos que praticamente compram matérias-primas dos países mais pobres que compram os produtos já industrializados dos países mais ricos. Compramos as nossas mesmas matérias-primas em forma de automóveis, trens de ferro, navios, aeronaves, linguiças, enlatados. 

 

Mas Pedro fugiu com a noiva na hora de ir pro altar – A industrialização, a agroindústria, a comercialização são os efeitos, as consequências advindas de pesquisas, de experimentações, da ciência, enfim. Daí, a importância das universidades. As nossas universidades estão também estacionadas em uma de suas funções: ensino. Pouquíssimas universidades brasileiras cumprem o seu papel desenvolvimentista, progressista, cultural, social, econômico, político a que se dispõem quando elaboram suas cartas de intenções, seu projeto pedagógico. Num sentido lato, fazer ciência significa conhecer o que é certo, o que é bom para todos e o que evidente. Não se trata de dar opiniões, palpites, chutes, participando do universo do achismo. Não se trata também de crenças, de fé, participando do universo transcendental.   

 

A fogueira está queimando, o balão está subindo – Quando se fala em pesquisa, em ciência, está-se falando de algo além da intuição – descoberta da verdade em si mesma – mas de raciocínio, reflexão, dedução – apoderação, posse da verdade. Temos a necessidade de conhecer e explicar o universo e todos os seres, vivos e não-vivos. Não há um conceito exato, preciso para definir pesquisa e ou ciência - o que não impede as pessoas de interpretar, procuras as raízes e as causas dos fatos, dos fenômenos da natureza, da humanidade, do universo. Sem ciência, continuaremos na escuridão e na produção de matérias-primas, na ignorância e na submissão ao preço do mercado. Vale dizer que o preço de uma tonelada de soja ou de minério não é definido aqui, por nós, por quem a produz, mas por quem compra, com bases na bolsa de valores de mercadorias.

 

Antônio estava chorando e Pedro estava fugindo – Claro, a ciência não pode ser entendida apenas por seu sentido prático ou utilitário, mas também é incompreensível um alto investimento em pesquisa, sem ela não nos possa trazer algum bem prático e bom para todos. Os jovens, infelizmente, não estão buscando as universidades para ser cientistas e pesquisadores. Contentam-se em ser um profissional, ter simplesmente um diploma. Houve uma época que ser médico significava ser rico, ser fazendeiro, dono de muitos bens, ser político. Nessa época, muitos médicos se candidatavam a deputado, a senador, a prefeitos, a governador, a presidente. Situação semelhante aconteceu com os advogados, professores... e tudo passou a ser mercadoria. Com a mercantilização da saúde, criaram-se os planos de saúde, os seguros-doença. Daí, vem a discussão: as pessoas devem pagar um plano de saúde em função de sua renda, ou deve pagar em função do seu estado de saúde? Não conheço todos os planos de saúde, mas os que conheço, por exemplo, cobram mais das pessoas na medida em que vão ficando mais idosas. Não é uma situação absurda? Quando a gente faz seguro de automóvel numa mesma seguradora, a cada ano a gente vai pagando menos – o que se chama “fidelidade”. Não há “fidelidade” ao plano de saúde? Não é um plano de vida que garante a longevidade. Não é o dinheiro que garante a longevidade.

 

E no fim dessa história, ao apagar-se a fogueira – A longevidade é consequência de uma história de vida, das condições de trabalho, da alimentação e dos alimentos oferecidos, do ambiente das cidades e das casas, da prevenção de alguns males e problemas, como a vacinação, da qualidade e eficácia e eficiência dos medicamentos e nutrientes e complementos alimentares, das condições sócio sanitárias das pessoas. Os produtos farmacêuticos são protegidos com patentes e a saúde não pode ser encarada somente com resultado de processos biológicos, mas como um processo social, um problema político, um produto econômico. É dever de o Estado oferecer bons serviços educacionais e de saúde, todos nós sabemos, mas, nessa onda de economia globalizada, não se admite que o Estado interfira nas diretrizes econômicas. Para prestar serviços de saúde e educação é preciso dinheiro, muito dinheiro e o dinheiro (economia) não é, hoje, uma decisão de um país ou outro. De novo a mão invisível do mercado! Como conciliar deveres do Estado com financiamentos, com dinheiro que não é do Estado? Em economia, absurdamente, fala-se até em indústria da saúde! Essa é demais! A vida do homem na terra, parece-me, cíclica, isto é, durante algumas décadas, vive-se de uma maneira, depois inventamos um novo jeito, depois ainda voltamos ao que já tínhamos sido.

 

João consolava Antônio, que caiu na bebedeira – Hoje, aqui, no Brasil, estamos na onda de criticar tudo o que é do Estado, tudo o que é público. Estamos na onda do privado, porque argumentamos que o privado é melhor, é mais eficiente, é mais produtivo. O Brasil, na onda privatista, perdeu algumas grandes empresas que nos eram importantes. As escolas privadas estão atropelando as de iniciativa pública, em número. Os hospitais privados se organizam em grandes corporações. Educação e Saúde não combinam com negócios. Em outras palavras, a educação e saúde públicas não conseguem a adesão da população, porque também os meios de comunicação de massa fazem questão de desmoralizá-las. Não há uma diferença muito grande, por exemplo, das provas do ENEM (ensino médio) e do ENADE (ensino superior) entre as escolas públicas e as privadas, mas as críticas recaem principalmente nas escolas públicas. “O que é público não presta!”.