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Em Questão

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Décio Bragança 05/07/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Eu canto porque o instante existe – A escola é um sistema, queiramos ou não, de valores, de uma ideologia, de uma cultura. Hoje, tamanho é o universo de informações, que muitas escolas aboliram o uso de livro didático impresso. Adotaram uma listagem imensa de referências bibliográficas, de sites que torna impossível os alunos e os estudantes aprenderem e apreenderem alguma coisa. “Sabe-se pouco de muitas coisas”.

 

E a minha vida está completa. – A orientação e ou a preferência por um livro didático estabelece relações e conexões complexas entre a ciência e suas especialidades, entre a ciência e o que os estudantes devem saber, assimilar. A escola não dá conta de desempenhar sua função de difusão do conhecimento científico, tendo até dificuldades com os termos científicos.

 

Não sou alegre nem sou triste – Nesse sentido, a missão de uma sala de aula e dos professores deveria ser tornar mais acessível a linguagem científica. O conteúdo, claro, tem de partir de uma produção científica, mas o aprendizado depende de métodos, de estratégias, de orientações didático-pedagógicas. As informações impressas e ou eletrônicas são suportes para uma progressão contínua (pleonasmo necessário!) de conhecimentos.  

 

Sou poeta – Uma sala de aula tem de ser o local privilegiado do desenvolvimento da sensibilidade ambiental, científica, cultural. Essa sensibilidade, claro, incomoda as elites políticas, econômicas. O fato é que o Planeta, Brasil, as cidades, a natureza, pedem socorro. E o socorro só poderá vir de pessoas sensíveis, crentes num futuro melhor.

 

Irmão das coisas fugidias – Ainda no início do século XX, as preocupações com a proteção da natureza se fizeram presentes na 1ª Conferência Brasileira de Proteção da Natureza, em 1934, opondo-se à eufórica onda desenvolvimentista-industrial. Já nessa época foi publicado o Código das Águas, o Código Florestal, o Código das Minas, o Código da Caça, o Código da Pesca. É bom que se diga que só em 1972 – quarenta anos depois – houve a 1ª Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, patrocinada e promovida pela ONU – em Estocolmo-Suécia.

 

Não sinto gozo nem tormento – Tudo isso é fruto, sim, de um processo e projeto educacional levado a sério, porque nada nasce por acaso. O Avanço industrial não leva em conta os impactos e os ímpetos destrutivos da natureza. O capitalismo, para estar de acordo com as suas propostas, não quer nem saber se para promover e consolidar suas ideias, tenha de matar animais, destruir florestas e matas, poluir a água, o ar e o solo, colocando a vida em risco. O que importa é o lucro, a fama, a riqueza, o poder, a qualquer preço. “É o preço do progresso”.

 

Atravesso noites e dias no vento – Só com a chamada Educação Ambiental é ou será possível redescobrirmos o Brasil – um laboratório a céu aberto. Conhecemos muito pouco o nosso solo, as nossas plantas e folhas e raízes, nosso potencial. Queremos desenvolvimento, sim, mas que seja compatível com a preservação da natureza com todos os seus seres vivos e não vivos. Um país não se faz somente com a industrialização e comercialização sem controle algum. Acredito que deveria ser a função dos legisladores: proteger o ser humano, individual e coletivamente, e todos os seres.

 

Se desmorono ou se edifico – Se hoje muitos afirmam que na Amazônia e no Cerrado, nos Pampas e na Caatinga, existem muitas ONG’s – máscaras dos novos capitalistas – é porque lá fora estuda-se muito mais o Brasil do que os brasileiros. Ninguém montaria barraca aqui, se aqui não fosse de seu interesse. Estamos entregando o Brasil, porque não o conhecemos e não o conhecemos porque as escolas e as propostas educacionais não contemplam pesquisas, projetos, programas sobre o nosso país. Basta observarmos o Triângulo Mineiro: quantos olhos d’água, córregos, riachos já não existem mais.

 

Se permaneço ou me desfaço – A mecanização agrícola exige terrenos de quilômetros e quilômetros quadrados sem matas e florestas, sem olhos d’água e riachos, sem declives e aclives, sem brejos e musgos. Não se trata de ser contra a mecanização de lavouras, mas pensarmos com mais seriedade e serenidade sobre os efeitos da destruição descontrolada e desmedida. No perímetro urbano, observamos minas de água sendo soterradas para abertura de avenidas e ruas asfaltadas.

 

Não sei se fico ou passo – Os prefeitos e governadores não conseguem conter essa voracidade e insaciabilidade, ambição e poder dos desenvolvimentistas capitalistas. Nada os detém, por isso são os grandes financiadores das campanhas políticas. Os pesquisadores, os cientistas, os professores, os estudiosos não são ouvidos. Muito pelo contrário, são até criticados e menosprezados. As escolas se esquecerem dos programas que integram o homem ao mundo natural.

 

Sei que canto. E a canção é tudo – “O rio é o pai dos homens e das árvores, dos animais e das plantas” – nos ensinou o professor Melo Nóbrega, no seu livro “A história do Rio Tietê”, publicado, em 1981, pela Editora Itatiaia. Assim como São Paulo com seu Tietê, as cidades nascem às margens de riachos e rios que depois lhes dão esgotos e merdas, asfalto e impermeabilidade. A despoluição é infinitamente mais cara do que preservação, prevenção, assim como as doenças: a cura é mais cara do que a prevenção. Por isso, investe-se tanto em medicamentos e hospitais.

 

Tem sangue eterno a asa ritmada – O fato é que conhecimentos e pesquisas – finalidade primeira da educação – contribuem grandemente para o melhoramento e aprimoramento, para a transformação do homem e de suas relações. “Informar para transformar” – primeira proposta da primeira universidade do mundo, a Universidade de Bologna, com seus mais de 800 anos. Enquanto os astrônomos descobriram que a Terra não é o centro do Universo, descobriu-se também que o homem não é o centro do mundo vivente.

 

E um dia sei que estarei mudo – Quando a escola privilegiou o conhecimento dito científico, a ciência se fragmentou e nós fomos perdendo a noção do todo natural. Daí, as milhares especialidades científicas. Claro, as especialidades proporcionam um estudo mais aprofundado sobre os elementos constitutivos da natureza, mas nos faz distanciar de todos os outros seres vivos e não vivos. Nascem assim as novas ciências a serviço do desenvolvimento e do capital.  Mais nada.