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Em Questão

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Décio Bragança 19/07/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

 

Et in peccatis concepit me mater mea – Com a ampliação das funções da escola, também se amplia a tarefa dos professores e dos diretores, nem sempre formados e preparados para tal responsabilidade. Além disso, ampliam-se as tarefas e não se aumentam os salários. Há estados e municípios que não pagar nem o piso salarial dos professores.

 

Ecce enim veritatem dilexisti – Com um mundaréu de aulas em 2, 3 colégios diferentes, os professores lutam pela sobrevivência. Não se faz Educação Integral com professores-horistas, desintegrados do projeto pedagógico da escola. Não se faz Educação Integral sem dinheiro, sem investimentos, sem participação política de todos. Uma Educação Integral é, sem dúvida, um locus privilegiado de troca de experiências e vivências.

 

Incerta et occulta sapientiae tuae manifestasti mihi – Paradoxalmente, o mundo do emprego – mercado de trabalho – exige produtividade, competência, criando um clima de competição, de egoísmo, de individualismo, enquanto que numa Educação Integral a preocupação é a solidariedade, a cooperação, a convivência, a formação do caráter e da cidadania, o respeito à diversidade e à heterogeneidade. Ao mesmo tempo, o MEC que propõe essa Educação Integral exige a Prova Brasil, o ENEM, o ENADE – aferição exclusiva de conhecimentos ditos científicos.


Asperges me hysopo – Claro, não é uma tarefa fácil. É preciso, sobretudo, muito diálogo entre as pessoas envolvidas. Educação Integral pressupõe um leque enorme de possibilidades – o que Umberto Eco chama de “Mandala de Saberes” – onde os atores, os agentes, os protagonistas, os sujeitos – alunos e professores – possam escolher papeis, caminhos, roteiros, horizontes, métodos. Numa escola de Educação Integral não há pensamento único, homogeneidade de propósitos, enquadramento curricular, engavetamento de saberes, ideia fixa.

 

Et mundabor – O problema é que a nossa sociedade está mais conservadora, mais reacionária, mais sectária, mais primitiva, mais cruel, mais vingativa. “Queremos até cadeia para os menores de 16 anos” – “Queremos pena de morte, leis mais rígidas, juízes mais duros e inflexíveis, policiais mais armados” – “Bandido bom é bandido morto”. O fato é que esquecemos a tolerância e sem tolerância não se pode falar em comunidade, em Educação Integral, em casamento, em emprego. Não se pode falar em quase nada!

 

Lavabis me – Isso não significa que não deva haver comando, direção, coordenação. Só que tudo isso depende de um líder, de um gestor que saiba articular, defender todos os direitos democráticos – participação e compromisso de todos. Existe esse tipo de gestor? Assim, quando se fala em Educação Integral há de se preparar esses novos gestores – talvez, a tarefa mais desafiadora.

 

Et super nivem dealbabor – É um desafio para toda a sociedade também a aceitação dessa pluralidade e diversidade, multiculturalidade e heterogeneidade. “Não, não quero, filho, que você converse com fulano, ande com beltrano, conviva com sicrano”. Dizem que estão fora de moda um Paulo Freire e um Pierre Weil, um John Dewey e um Anísio Teixeira, um Moacir Gadotti e um Umberto Eco, um Rubem Alves e um Pierre Bourdieu, um Tomás de Aquino e um Jean Piaget, um Michel Focault e um Gusdorf, um José Pacheco e um Demerval Saviani, um Milton Santos e um Vygotsky, um Darcy Ribeiro e um Alexander Neill, um Florestan Fernandes e Celestin Freinet, um Edgar Morin e uma Maria Montessori... A moda é fazer com todos sejamos consumidores vorazes e insaciáveis. Consumir, consumir, consumir até ser consumido ou sumido.

 

Auditui meo dabis gaudium et laetitiam – Se pensarmos numa Educação Integral, estamos dando um SIM à variedade cultural – o que é chamada, hoje, de multicultutalidade ou multiculturalismo, admitindo as diferenças culturais e ideológicas. Trocando em miúdos: dada a extensão territorial e as diferenças culturais e etnias do Brasil torna-se impossível pensar-se numa educação ou ensino único. Esse é o grande e melhor argumento utilizado pelos professores contrários a essas provas e exames nacionais a que todos os brasileiros estão submetidos. 

 

Et exsultabunt ossa humiliata – Que a escola deva buscar formas e fórmulas diferentes de produção de conhecimentos, não faz mais do que sua obrigação, função e dever. Caso não seja assim, estaremos a caminho do anti-humanismo, da exclusão, da marginalização. Há, sim, por causa da mundialização e globalização econômica, uma tendência ao pensamento único para que se busque a eficiência do ensino. Em outras palavras, quer-se aluno capaz de responder questões de provas e exames, mas não se busca a formação de caráter, de cidadania, de humanismo.

 

Averte faciem tuam a peccatis meis – Quando se propõe uma EducaçãoIntegral torna-se impossível aferir números e dados que possam compor uma estatística, um escore, um ranque municipal, estadual, nacional e internacional. São questões de tamanha crueldade que poucos acreditam numa escola cidadã, que transforma pessoas, mas acreditam na formatação de mãos de obra baratas, qualificadas e eficientes. Não importa se aquele sujeito seja desonesto, rusguento, preconceituoso, antissocial, homofóbico, machista, violento, fraudulento, mas que seja eficiente e traga bons lucros e dividendos para as empresas.

 

Et omnes iniquitates meas dele – Nesse sentido, o discurso libertário-transformador torna-se inócuo – uma voz que clama no deserto – porque impossibilita a discussão, o debate das questões essencialmente humanas e humanamente essenciais. Hoje, não é visto com bons olhos qualquer e mínima crítica ao capitalismo, ao mercado, ao liberalismo, ao neoliberalismo, à economia globalizada. A partir da década 70, enterrou-se a dita esquerda, enterrou-se a política que se deixou escravizar pela economia. Não é por acaso que todos pensam que a política e os políticos não prestam e o que vale é dinheiro no bolso.

 

Cor mundum crea in me, deus – Alguns ainda insistem em falar, discursara, dizer, argumentar, defender a democracia comunitária – contrária a uma escola e educação monocultural. Poucos acreditam na possível troca de intenções e interesses pessoais e coletivos, preservando a identidade do local, da região. Há um ceticismo reinante quanto às possíveis conversas, negociações, relações entre as pessoas e as nações, porque raramente, hoje, se ouve falar em acordos e consensos, em soluções partilhadas e discutidas, em direitos e respeito à diversidade.

 

Et spiritum rectum – A preocupação maior é punir, haja vista as muitas propostas de redução da menor idade penal, o endurecimento das leis, a pena de morte, o apressamento da justiça para que realmente seja feita a vingança – olho por olho, dente por dente. Não queremos justiça, queremos vingança e ódio. Gasta-se mais dinheiro com os sistemas de segurança, principalmente a patrimonial, do que em educação e saúde. Qualquer crítica a tudo isso, logo vem a censura – fechamento ao diálogo e aos possíveis muitos encontros e consensos.