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Em Questão

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Décio Bragança 26/07/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Innova in visceribus meis – Tudo tem de ser feito para reforçar o capitalismo, traduzido em fama, sucesso, bens, riquezas e poder. Também a escola se serve desse papel, abandonando sua função e missão: aprender a aprender, aprender a ser, aprender a conviver, aprender a viver. Com isso, a escola se fechou à curiosidade e a hipóteses, à descoberta e ao questionamento, à crítica e à experimentação, à criatividade e ao debate, ao diálogo e à ciência.

 

Ne proiicias me a facie tua – Com a redução do Estado – política a serviço da economia – a escola propugna, sim, a formação de mão de obra barata para o fortalecimento do capital. Aqueles quatro pilares da Educação para o século XXI há muito foram esquecidos. Esses pilares – aprender a conviver, aprender a conhecer, aprender a fazer e aprender a ser – foram defendidos pelo então Ministro da Educação, Paulo Renato Sousa, ainda no século XX, em 1998. 

 

Et spiritum sanctum tuum – O interessante é que a LDB – Leis de Diretrizes e Bases – da Educação Brasileira traz como finalidade primeira do Ensino Fundamental as habilidades de ler, escrever, falar e ouvir para a disciplina Língua Portuguesa: somar, dividir, multiplicar e subtrair para a disciplina Matemática. Ler e resolver problemas – propostas expressas na Prova Brasil para alunos de 5ª e 8ª séries do Ensino Fundamental. Com certeza, as escolas de Ensino Fundamental, porque com outras muitas preocupações e conteúdos, não dão conta de criar, fomentar, efetivar essas oito habilidades.

 

Ne auferas a me – A Educação tem de ir à frente, abrindo caminhos, vislumbrando horizontes e não simplesmente estar submetida à “mão invisível do mercado”. A Escola é um espaço privilegiado do diálogo e da democracia. Por incrível que possa parecer, há universidades, hoje, construídas dentro de shoppings, reforçando a ideia de mercado, ou que a escola é também um produto para o mercado – objeto de compra e venda. O diploma passa a ser objeto de consumo.

 

Redde mihi laetitiam salutaris tui – A escola deveria ser espaço de resistir a esse mesmo mercado. Não deveria ser uma organização, um sistema, uma instituição a serviço do mercado – mão invisível. Aliás, o que é invisível é sempre por baixo dos panos, sem clareza de propósitos, de intenções e de interesses. Além disso, escolas assim, algumas até com ações nas Bolsas de Valores, passam a ser um grande, bom e lucrativo negócio.

 

Et spiritu principali confirma me – Como todo negócio, busca-se minimizar os gastos, racionalizar os espaços e horários, para lucrar mais. A gestão escolar é uma gestão empresarial, sem nenhuma diferenciação, argumentam os estrategistas de mercado. A isso chamamos de mercantilização da educação, da mesma maneira que foi feita com a saúde.  Por isso, fala-se em meritocracia – nova forma e fórmula de gerenciamento de escolas e da educação, produzindo e reafirmando as desigualdades. Assim, todo o fracasso passa a ser exclusivo do aluno. “Você não venceu porque não quis, porque é frouxo, é relaxado, é relapso, é débil, é preguiçoso, é incapaz”.

 

Docebo iniquos vias tuas – A responsabilidade da educação não é tarefa exclusiva das escolas – o que não significa que não tenham responsabilidades. A sociedade, em geral, culpa as escolas pelo fracasso e insucesso, mas se esquece que as escolas estão submetidas às mesmas normas do mercado: competição, concorrência. Há uma espécie de subordinação intelectual, moral, cultural aos ditames e normas capitalistas. Por isso também, estamos ficando mais conservadores, mais opressores, mais intolerantes, mais reacionários, mais cruéis, principalmente ao que se refere às relações com o outro.

 

Et impii ad te convertentur – Todos desejam, sim, que haja avaliações do ensino em todos os níveis, mas que não sejam feitas somente através de provas e exames. A certificação e ou o diploma não podem ser conseguidos somente levando-se em conta a nota. Observemos como se obtém a CNH – Carteira Nacional de Habilitação – que, talvez, seja menos importante do que um diploma. Primeiramente, o candidato à CNH é obrigado a passar por aulas práticas e teóricas. Faz-se depois um exame psicotécnico e médico. Aprovado, o candidato faz uma prova escrita sobre o Código Nacional de Trânsito. Aprovado, o candidato vai para as ruas fazer a prova prática. Não receberá sua carteira caso não seja aprovado em todas as etapas. Será que para a avaliação de desempenho e habilidades de estudantes não haverá formas e fórmulas mais adequadas?

 

Libera me de sanguinibus, deus – A LDB, aprovada em 1996, reza em seus princípios a igualdade de condições de aprendizado a todos, considerando sempre a pluralidade de ideias – reafirmação do que já havia sido feito e dito na Constituição de 1988. O interessante é que o MEC centraliza as definições de políticas de educação e, inversamente, descentraliza a sua execução, responsabilizando exclusivamente as escolas e as universidades. “Eu quero isso, mas quem paga é você!” Em outras palavras, a preocupação do MEC é com os números, as estatísticas, os resultados, para buscar financiamentos e empréstimos nos bancos mundiais que exigem aplicação dos recursos em programas e projetos sociais.

 

Deus salutis meae – Claro, sabemos também que os ditos exames nacionais (ENEM – ENADE – Prova Brasil...) existem para coibir, principalmente na iniciativa privada, a mais simples e imoral compra de diplomas e certificados. Mesmo com toda essa centralização, há ainda venda de certificados e diplomas. Isso para dizer que o ser humano, cada um de nós, continua querendo levar vantagens em tudo, tirar proveito de todas as situações, usar e abusar de seu direito de fraudar, de corromper, de pecar. Somo incorrigíveis, mas não admitimos os nossos mesmo erros praticados por outros.

 

Et exsultabit lingua mea justitiam tuam – Quando se trata de lidar com os seres humanos, tudo é desafio. Em se tratando de Educação, os desafios são ainda maiores. Nós não temos a cultura fiscalizadora, mas caso não houvesse as fiscalizações do MEC, do IBAMA, do Ministério do trabalho, do Ministério Público, das muitas agências nacionais como ANTT, ANVISA, ANA, ANAC... estaríamos vivendo em estado de guerra, de barbárie.

 

Domine, labia mea aperies – Somos incorrigíveis! Os manuais com as orientações das políticas educacionais, organizados e publicados oficialmente, não se cansam de repetir aas competências cognitivas dos estudantes: domínio de linguagens, compreensão de fenômenos, enfrentamento e resolução de situações-problema, capacidade de argumentação, elaboração de propostas... As escolas, generalizando, com seus professores não admitem nem ler essas orientações, nem discutir o novo, o diferente, o transformador. “Vamos deixar as coisas como estão para ver como é que ficam”. Ou como fica o governo, as prefeituras.

 

Et os meum annuntiabit laudem tuam – Não gostamos de discutir propostas, de participar das decisões, de sair de nossa zona de conforto, mas cobramos os resultados que atendam, principalmente, aos nossos interesses individuais, pessoais, altamente egoístas. Não temos consciência política, social. “Cada um no seu quadrado” – “cada macaco no seu galho” – “ Cada um por si e Deus ´para todos”. Lavamos as nossas mãos caso as propostas do governo não deem certo. “O problema é deles, não é meu!”

 

Quoniam si voluisses sacrificium – O processo de socialização – convivência com os diferentes – e a construção coletiva da cidadania – heterogeneidade e diversidade – são as bases de um ensino em todas as modalidades, mas principalmente a presencial. Ironicamente, dizem alguns que foi inventado o ensino a distância porque a escola com seus professores são suportam alunos rebeldes, repetentes, inconformados, questionadores, críticos, desobedientes, rusguentos, ou ainda não gostam de gente. Pronto! Agora está resolvido o problema: cada um no seu canto! “Você não me incomoda e eu não te incomodo! E assim vamos ser felizes!”

 

Dedissem utique – A educação é a única instituição capaz de incluir, de fazer e propor um bom exercício de convivência. Há muitas críticas às provas e aos exames nacionais, mas são necessárias, até que se crie algo melhor. Não tem outro jeito! Não há uma matemática no norte e outra no sul! Não há uma Língua Portuguesa no leste e outra no oeste! O que penso: as escolas não só devem treinar os alunos para fazerem provas, mas proporem a construção coletiva da cidadania – que também deve ser avaliada. 

 

Holocaustis non delectaberis – Na década de 80, algumas escolas, por conta e risco, avaliavam o que era chamado de QI – Quociente de Inteligência – e o QE – Quociente Emocional. O resultado final era a soma dos Quocientes. Já na década de 90, não se falava mais disso. Lembro-me de que havia questões muito sérias, objetivas e bem feitas para a aferição do QE. O fato é que precisamos, sim, de grandes cientistas, pesquisadores, estudiosos, mas precisamos urgentemente de cidadãos conscientes.  

 

Sacrificium deo spiritus contribulatus – Não sei, porque ainda não fiz uma análise profunda e um julgamento de valores, se escolheria o mais competente médico e “açougueiro” ou um médico não tão bom, mas que me tratasse como ser humano inteiro, integral, completo, único, inédito, intransferível, indivisível. “Eu e meu corpo não somos um conjunto de órgãos e tecidos!” Talvez, um cardiologista que analisasse apenas meu coração e nã me analisasse por inteiro, não me seria o cardiologista ideal.

 

Cor contritum, et humiliatum – “O meu coração tem razões que a razão desconhece!” Necessariamente uma arritmia não seja um fato estritamente eletromecânico, anatofisiológico, bioquímico. As escolas de Medicina não dão conta de informar e formar seus estudantes além dos limites das salas de aula e dos laboratórios, dos livros e dos saberes já estratificados. Acredito que informar (ensino) todas as escolas informam, mas poucas estão preocupadas com a formação (educação e cidadania).

 

Deus non despicies – As diferenças pessoais identificam, caracterizam, especificam, individualizam, subjetivam as personalidades e o caráter, a consciência e aética dos estudantes que passam pela mesma escola, têm os mesmos professores e fazem a mesma prova. É por isso que uns são melhores do que outros. Melhores, aqui, tem a conotação de aperfeiçoamento humano, além dos aspectos da competência profissional e técnica.

 

Benigne fac, domine – O conhecimento foi, é, será sempre um desafio. Muitas vezes, só se pode conhecer partes de um todo – o que não significa conhecimento – síntese do todo. Mas como é possível conhecer o todo sem se conhecerem as partes? Nesse sentido, todo conhecimento essencialmente tem de ser universal. Então, vejamos: um problema de energia, de poluição, de falta de alimentos e recursos, de degradação social e moral, de inversão de valores e tantos outros problemas não são localizados, regionalizados ou nacionalizados, mas universalizados. 

 

In bona voluntate tua sion – Vale dizer também que nada existe isoladamente. As coisas se apresentam como se nada existisse entre elas, como se não houvesse vínculos entre elas. Conhecer é assim uma tentativa de compreender em profundidade as relações das partes para se entender o todo. Aparentemente, cada coisa, cada ser, tem vida própria, independente, autônoma – o que não é verdade. Os pesquisadores e cientistas, para inclusive continuarem os seus trabalhos, muitas vezes se enchem de orgulho e sentem também a sua pequenez quando separam uma pequena parte do seu todo.

 

Ut aedificentur muri ierusalem – Tudo parece separado. São só aparências, porque tudo se relaciona com tudo. O que acontece é nem sempre conseguimos compreender, entender, racionalizar essa relação. Há, sem que percebamos, uma intenção sutil de que não podemos ter acesso ao todo. A própria metodologia de trabalhos científicos, somada com a ABNT, inibem esse acesso. A soma das partes não pode nem consegue explicar o todo. Daí, o conhecimento estar compartimentado, muitas vezes até dissociado de um contexto. Assim, encontramos indivíduos altamente especializados num setor e desconhecedor de outro. Em outras palavras, encontramos um oftalmologista altamente especializado, mas desconhecedor de medicina e de saúde. Lucidez na especialidade e ignorância na totalidade.

 

Tunc acceptabis sacrificium justitiae, oblationes, et holocausta – estamos perdendo a noção do todo humano, natural, universal, cósmico. Separar partes, talvez, seja o caminho das ciências e das pesquisas, dos estudos e das universidades, mas não resolve o problema do ser-no-mundo, do ser-para. Assim, por exemplo, a administração: preocupação excessiva com cálculos matemáticos e estatísticos. Daí, a busca alucinada de lucros e de renda, sem a preocupação com o ser humano com todas as suas angústias e inquietações, sonhos e ideais. Isso também acentua as desigualdades. A questão é tão séria que muitos empresários, gente com muito dinheiro, não sabem viver harmoniosamente com o cônjuge, com familiares e com amigos. Muitos deles estão pedindo socorro, aconchego, colo, carinho, ombro.

 

Tunc imponent super altare tuum vitulos – Ninguém, claro, está livre de problemas: os pobres por falta de recursos; os tricôs por excesso deles. E a felicidade está escorrendo por entre os dedos, sem a gente se dar conta de sua proximidade. Criamos muitas além de nossas necessidades. Tenho um amigo que defende a Teoria dos AAAAA: Abrigo, Agasalho, Alimentos, Ar, Água. com abrigo quer dizer uma casa para o descanso, para o banho, para o preparo de alimentos, um endereço, um aconchego. Com agasalho quer dizer roupas limpas e confortáveis, cobertores e cobertas, de acordo com as estações do ano. Com alimentos quer dizer segurança alimentar e nutricional, sem venenos e conservantes. Com ar quer dizer um grito contra a poluição e emissão de gases tóxicos. Com água quer dizer saneamento básico e água tratada. Essas são as primeiras e únicas necessidades – o que deveria ser a primeira e única preocupação dos políticos, dos prefeitos, dos governadores.