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Em Questão

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Décio Bragança 02/08/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Et os meum annuntiabit laudem tuam – Não gostamos de discutir propostas, de participar das decisões, de sair de nossa zona de conforto, mas cobramos os resultados que atendam, principalmente, aos nossos interesses individuais, pessoais, altamente egoístas. Não temos consciência política, social. “Cada um no seu quadrado” - “cada macaco no seu galho” - “ Cada um por si e Deus ´para todos”. Lavamos as nossas mãos caso as propostas do governo não deem certo. “O problema é deles, não é meu!”

 

Quoniam si voluisses sacrificium – O processo de socialização - convivência com os diferentes - e a construção coletiva da cidadania - heterogeneidade e diversidade - são as bases de um ensino em todas as modalidades, mas principalmente a presencial. Ironicamente, dizem alguns que foi inventado o ensino a distância porque a escola com seus professores são suportam alunos rebeldes, repetentes, inconformados, questionadores, críticos, desobedientes, rusguentos, ou ainda não gostam de gente. Pronto! Agora está resolvido o problema: cada um no seu canto! “Você não me incomoda e eu não te incomodo! E assim vamos ser felizes!”

 

Dedissem utique – A educação é a única instituição capaz de incluir, de fazer e propor um bom exercício de convivência. Há muitas críticas às provas e aos exames nacionais, mas são necessárias, até que se crie algo melhor. Não tem outro jeito! Não há uma matemática no norte e outra no sul! Não há uma Língua Portuguesa no leste e outra no oeste! O que penso: as escolas não só devem treinar os alunos para fazerem provas, mas proporem a construção coletiva da cidadania – que também deve ser avaliada. 

 

Holocaustis non delectaberis – Na década de 80, algumas escolas, por conta e risco, avaliavam o que era chamado de QI - Quociente de Inteligência - e o QE - Quociente Emocional. O resultado final era a soma dos Quocientes. Já na década de 90, não se falava mais disso. Lembro-me de que havia questões muito sérias, objetivas e bem feitas para a aferição do QE. O fato é que precisamos, sim, de grandes cientistas, pesquisadores, estudiosos, mas precisamos urgentemente de cidadãos conscientes.  

 

Sacrificium deo spiritus contribulatus – Não sei, porque ainda não fiz uma análise profunda e um julgamento de valores, se escolheria o mais competente médico e “açougueiro” ou um médico não tão bom, mas que me tratasse como ser humano inteiro, integral, completo, único, inédito, intransferível, indivisível. “Eu e meu corpo não somos um conjunto de órgãos e tecidos!” Talvez, um cardiologista que analisasse apenas meu coração e não me analisasse por inteiro, não me seria o cardiologista ideal.

 

Cor contritum, et humiliatum – “O meu coração tem razões que a razão desconhece!” Necessariamente uma arritmia não seja um fato estritamente eletromecânico, anatofisiológico, bioquímico. As escolas de Medicina não dão conta de informar e formar seus estudantes além dos limites das salas de aula e dos laboratórios, dos livros e dos saberes já estratificados. Acredito que informar (ensino) todas as escolas informam, mas poucas estão preocupadas com a formação (educação e cidadania).

 

Deus non despicies – As diferenças pessoais identificam, caracterizam, especificam, individualizam, subjetivam as personalidades e o caráter, a consciência e aética dos estudantes que passam pela mesma escola, têm os mesmos professores e fazem a mesma prova. É por isso que uns são melhores do que outros. Melhores, aqui, tem a conotação de aperfeiçoamento humano, além dos aspectos da competência profissional e técnica.

 

Benigne fac, domine – O conhecimento foi, é, será sempre um desafio. Muitas vezes, só se pode conhecer partes de um todo - o que não significa conhecimento - síntese do todo. Mas como é possível conhecer o todo sem se conhecerem as partes? Nesse sentido, todo conhecimento essencialmente tem de ser universal. Então, vejamos: um problema de energia, de poluição, de falta de alimentos e recursos, de degradação social e moral, de inversão de valores e tantos outros problemas não são localizados, regionalizados ou nacionalizados, mas universalizados. 

 

In bona voluntate tua sion – Vale dizer também que nada existe isoladamente. As coisas se apresentam como se nada existisse entre elas, como se não houvesse vínculos entre elas. Conhecer é assim uma tentativa de compreender em profundidade as relações das partes para se entender o todo. Aparentemente, cada coisa, cada ser, tem vida própria, independente, autônoma – o que não é verdade. Os pesquisadores e cientistas, para inclusive continuarem os seus trabalhos, muitas vezes se enchem de orgulho e sentem também a sua pequenez quando separam uma pequena parte do seu todo.

 

Ut aedificentur muri ierusalem – Tudo parece separado. São só aparências, porque tudo se relaciona com tudo. O que acontece é nem sempre conseguimos compreender, entender, racionalizar essa relação. Há, sem que percebamos, uma intenção sutil de que não podemos ter acesso ao todo. A própria metodologia de trabalhos científicos, somada com a ABNT, inibem esse acesso. A soma das partes não pode nem consegue explicar o todo. Daí, o conhecimento estar compartimentado, muitas vezes até dissociado de um contexto. Assim, encontramos indivíduos altamente especializados num setor e desconhecedor de outro. Em outras palavras, encontramos um oftalmologista altamente especializado, mas desconhecedor de medicina e de saúde. Lucidez na especialidade e ignorância na totalidade.

 

Tunc acceptabis sacrificium justitiae, oblationes, et holocausta – estamos perdendo a noção do todo humano, natural, universal, cósmico. Separar partes, talvez, seja o caminho das ciências e das pesquisas, dos estudos e das universidades, mas não resolve o problema do ser-no-mundo, do ser-para. Assim, por exemplo, a administração: preocupação excessiva com cálculos matemáticos e estatísticos. Daí, a busca alucinada de lucros e de renda, sem a preocupação com o ser humano com todas as suas angústias e inquietações, sonhos e ideais. Isso também acentua as desigualdades. A questão é tão séria que muitos empresários, gente com muito dinheiro, não sabem viver harmoniosamente com o cônjuge, com familiares e com amigos. Muitos deles estão pedindo socorro, aconchego, colo, carinho, ombro.

 

Tunc imponent super altare tuum vitulos – Ninguém, claro, está livre de problemas: os pobres por falta de recursos; os tricôs por excesso deles. E a felicidade está escorrendo por entre os dedos, sem a gente se dar conta de sua proximidade. Criamos muitas além de nossas necessidades. Tenho um amigo que defende a Teoria dos AAAAA: Abrigo, Agasalho, Alimentos, Ar, Água. com abrigo quer dizer uma casa para o descanso, para o banho, para o preparo de alimentos, um endereço, um aconchego. Com agasalho quer dizer roupas limpas e confortáveis, cobertores e cobertas, de acordo com as estações do ano. Com alimentos quer dizer segurança alimentar e nutricional, sem venenos e conservantes. Com ar quer dizer um grito contra a poluição e emissão de gases tóxicos. Com água quer dizer saneamento básico e água tratada. Essas são as primeiras e únicas necessidades - o que deveria ser a primeira e única preocupação dos políticos, dos prefeitos, dos governadores.