Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 09/08/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Oxalá meu Pai tenha pena de nós, tenha dó - Vamos devagar com o andor: pesquisas científicas, praticamente, são feitas somente nas escolas públicas; cirurgias de alta complexidade são bancadas pelo SUS – Sistema único de Saúde – projeto estatal. Os planos de saúde, na verdade, facilitam o acesso a consultas e a alguns exames. Cirurgias de alta complexidade são bancadas pelo povo através do SUS. É importante e necessário uma melhor estruturação do sistema de saúde: UBS – Unidade Básica de Saúde – com médicos generalistas que encaminham as pessoas para hospitais de baixa complexidade e especialidades até os grandes hospitais da mais alta complexidade.


Se a volta do mundo é grande, seu poder é bem maior - Aí, sim, o encaminhamento para os hospitais de alta complexidade, semelhante a um sistema solar: um sol com alguns planetas que têm vários satélites. As pessoas têm acesso aos satélites (atenção primária – um em cada bairro), que vão aos planetas (atenção secundária – um em cada cidade), que vão aos sois (atenção terciária – um em cada região) – isso é um direito universal com financiamento público. Dizem os entendidos e estudiosos que as UBS resolveriam 80% dos problemas de saúde da população.


Oh, meu São Sebastião, fostes preso e amarrado - A gerência, administração e fiscalização da Educação Infantil e Ensino Fundamental não é competência da Prefeitura? A gerência, administração e fiscalização do Ensino Médio não é competência do Estado? A gerência, administração e fiscalização do Ensino Superior não é competência da Federação? Por que também não se organizar a educação assim como se tenta organizar a saúde? Não é assim também que se organizam as polícias, o exército? Não é assim também que se organiza a Igreja Católica? Não é assim também que se organiza o sistema bancário?


Nos livrai dos inimigos que nos traz atropelado – O problema ainda persiste porque as prefeituras podem firmar convênios com hospitais privados. Somente 36% dos leitos do SUS são públicos, isto é, pertencem ao município, aos estados e às universidades. Não se trata de querer que os ricos paguem sua consulta e internação nos hospitais, mas racionalizar o financiamento do SUS que gasta 80% em cirurgias de alta complexidade e internação. Os hospitais e os serviços de saúde seguem a mesma lógica do mercado: o lucro.

 

Oh! Deus do céu! Oh! Grande Deus - Assim como muitas escolas, muitas lojas, muitos bancos, muitas indústrias, hospitais estão sendo incorporados a uma fundação privada que também se junta a hospitais públicos – uma forma ou fórmula brasileira (não sei se legal) de privatizar sem privatizar. Dizem os entendidos se assim não fosse, os hospitais públicos não sobreviveriam. Já passou da hora de pensarmos, agora, numa medicina preventiva. Prevenção, aqui, significa saneamento básico, esgoto tratado, água encanada, segurança nutricional, vacinação em massa.


Reforçai estes trabalhos para sempre glorioso - Da mesma maneira que acontece no esporte e, em especial, no futebol, muitos pesquisadores e cientistas dos países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, estão sendo “tentados” a sair de seus países de origem e ir para os grandes centros europeus e norte-americanos. Sempre houve essa “transferência” de profissionais de todas as áreas, mas o que está acontecendo com médicos é algo meio assustador. A África do Sul, por exemplo, exportou milhares de médicos e o governo de lá foi obrigado a contratar médicos de outros países, principalmente os cubanos. Aliás, o Estado de Tocantins, há alguns anos, contratou médicos cubanos que, depois, foram expulsos, por força de liminares e por pressões de médicos brasileiros. Só para se ter uma ideia do que está acontecendo: no Reino Unido 20% dos médicos são asiáticos.

 

Tem cinco filhos, quatro netos, um cunhado, uma mulher – No futebol, talvez o Brasil seja o maior exportador de atletas. Na área médica, sem dúvida, a Índia é o maior exportador de médicos. O OMS – Organização Mundial da Saúde – aconselha que em todos os países haja um médico para cada 5 mil habitantes e um enfermeiro para cada 1 mil habitantes. A média mundial é de 1 médico para cada 4 mil habitantes. Os números globalizados não nos mostram a realidade, dada a grande concentração de profissionais numa área e a escassez em outras. A média, os números, as estatísticas enganam. Um brasileiro come um boi por ano, outro não come nada, então cada brasileiro come meio boi por ano? Pois é, nos 25 países mais pobres do mundo há 1 médico para cada 25 mil habitantes.


Um cachorro desdentado uma galinha garninzé - . Mais uma vez, os países ricos mais ricos e os países pobres cada vez mais pobres, acentuando ainda mais as desigualdades. O fato é que ninguém quer tratar o pobre. Que todos os pobres do mundo se danem! Que todos os pobres do mundo marram! Aliás, já são no mundo mais de um bilhão de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria – menos de um dólar ao dia. Nessa discussão, acredito que seja até ofensiva e imoral, os economistas argumentam que o desenvolvimento econômico trará inevitavelmente o acesso à saúde de todos. Outros contra-argumentam dizendo o acesso à saúde de todos é que trará o desenvolvimento econômico. Não há e não pode haver uma medicina dos ricos e uma medicina dos pobres. O problema é que quem manda no mundo, hoje, são os economistas.

 

E essa galinha foi comida por Emengarda Joaquina – Não se consegue afirmar acordos entre as nações, entre as pessoas de uma mesma nação. Não há pactos de saúde, pactos de educação, pactos de saneamento básico, pactos de alimentação, pactos de moradia, mas há pactos econômicos que agravam as desigualdades e diferenças sociais. Irônica e sadicamente, o Ministério da Saúde, as Secretarias Estaduais da Saúde, as Secretarias Municipais da Saúde estão mais preocupados com a doença, com a cura das doenças do que com a saúde. Mas, o que é saúde? A organização Mundial de Saúde define saúde, não apenas como ausência de doenças, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social.


Na cantina da colina da cidade de Igapó - De um lado, as pessoas parecem não querer morrer; de outro, os médicos que se esforçam ao máximo para curar todas as doenças. Ninguém quer a morte, ninguém quer sofrer e por isso também todos os médicos, de uma certa forma, levam a culpa de tantas dores e de todas as mortes. Todos querem conservar-se jovens e saudáveis. E para quê? Alguém, algum ser vivo, já não morreu? É a morte parte da vida? A morte não está dentro da vida? Não querer morrer não é um absurdo? Por que as pessoas não querem envelhecer? É a morte o coroamento da vida? Por que não nos ensinam a sofrer? Por que não nos ensinam a morrer?


Severino ficou puto e contratou um pistoleiro – O fato é que eu nunca poderia ser médico, porque acredito firmemente que cada um se cura e o médico, por exemplo, ao receitar um medicamento, ele estará simplesmente ajudando ao organismo do paciente a curar-se, se assim também o desejar, consciente ou inconscientemente. Muitos médicos, no mundo inteiro, estão sendo processados injustamente. A dor da perda de um ente querido é grande, é claro, mas daí culpar os médicos já é demais. Todos os médicos norte-americanos, hoje, trabalham com um seguro debaixo do braço, porque todos, sem exceção, estão correndo o risco de ser processados. Que loucura!

 

Para matar Emengarda que pulou lá do poleiro – Alimentar-se bem, morar bem, estar encantado com a vida, viver harmonicamente com todos dentro de possibilidades... é a melhorar saúde. Por isso, é milhões de vezes mais importante a prevenção – o bem-estar e o bem-ser. Nenhum paciente, hoje, pode ser tratado sem o seu consentimento – inclusive é norma do CRM – Conselho Regional de Medicina. O médico não tem obrigação, nem por força de juramento, nem por vontade própria, decidir um tratamento sem consultar o paciente, ou quem possa responder por ele. Eu ainda vou além: mais do que o consentimento, o paciente tem de ter confiança no médico e na eficácia do tratamento.

 
Para roubar sua galinha que lhe dava muita sorte –
Nas lides jurídicas é comum ser dito: “In dubio pro reo!” Essa mesma máxima poderia ser usada por alguns médicos: na dúvida, uma cirurgia não pode ser feita; na dúvida, um medicamento não pode ser indicado; na dúvida, nenhum diagnóstico deve ser publicizado. Conta-se nos meios médicos franceses que uma mulher fez todos os exames possíveis, inclusive ultrassonagrafia na gravidez. O médico detectou alguns pequenos problemas no feto de cinco semanas, mas garantiu à mãe que o filho nasceria perfeito e que a mãe a não deveria fazer aborto. (Na França, o aborto é permitido até 90 dias de gravidez). A mãe não fez aborto e a criança nasceu com muito mais problemas do que os detectados pelo médico. Não teve dúvida: a mulher processou o médico, tendo como testemunha o marido, foi indenizada e obteve, na justiça, a garantia de assistência médica no hospital em que a criança nasceu. A criança viveu onze meses.