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Em Questão

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Décio Bragança 16/08/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

E ele quer a sua morte, da Joaquina que roubou Emengarda - Não sou médico, sou apenas um palpiteiro: o médico deveria ter deixado a decisão de fazer ou não o aborto para mãe. Deveria inclusive deixar por escrito a decisão dela. Em tempos de neoliberalismo e mundialização da economia, tudo virou mercadoria, inclusive a saúde. Nesse sentido, a falta de saúde é prejuízo econômico individual e socialmente. Contrário a isso, a indústria farmacêutica que fatura adoidado em cima das doenças, da desgraça dos outros. As empresas “cobram” que seus funcionários estejam em boa forma, com saúde perfeita. O exame admissional, obrigatório por lei, é um crivo que separa candidatos ao emprego os doentes e os não-doentes. Em alguns países, manter o emprego de doentes traz algumas regalias fiscais e isenção de alguns impostos. Dizem se assim não fosse, nenhuma pessoa doente estaria empregada.

 

Que foi embora da cidade de Igapó - Uma questão de saúde pública que provocou debates durante a campanha para presidente da República, entre Dilma e José Serra, é o aborto. Não se trata de ser contra ou a favor do aborto, porque o aborto, legalizado ou não vai continuar acontecendo. Com a legalização do aborto, os hospitais públicos – financiados pelo SUS – poderiam fazer aborto. Muitas mulheres continuam fazendo aborto aqui, no Brasil, clandestinamente. Caso haja alguma complicação pós-aborto, essas mulheres são internadas nos hospitais públicos, tirando o lugar de pessoas que têm necessidade da internação. Alguns países (não são muitos!) já descriminalizaram o aborto. Não se trata também de países desenvolvidos ou não-desenvolvidos. Na Holanda, onde não é proibido, a taxa de aborto é baixíssima: 8 de cada 1000 gravidezes.

 

E levou tudo o que podia – Claro, as mulheres devem se prevenir de tantas outras maneiras. Não é porque o aborto, por exemplo, seja legalizado que os médicos sejam obrigados a fazê-lo. Na maioria dos países onde está descriminalizado, a mulher deve buscar o consentimento e/ou autorização de, pelo menos, dois médicos. As igrejas são contra e fazem campanhas bem estruturadas, bem feitas contra o aborto. Sempre as Igrejas, principalmente a Católica, consideram o aborto um crime dos mais graves, porque impossibilita, no mínimo, de a vítima se defender. A vida tem início exatamente na concepção. A Igreja Católica, inclusive, denuncia em todo o mundo que vivemos uma “cultura da morte”.

 

Só não levou sua vó – Há uma outra discussão acadêmica: um embrião é uma vida? O feto é uma vida? Há ainda um outro problema que tem de ser questionado: há um mercado paralelo (contrabando) de remédios abortivos. Para os “contrabandistas” é bom negócio que seja descriminalizado o aborto! Para as “madrinhas” – mulheres que fazem aborto clandestinamente – não é bom negócio que o aborto seja descriminalizado. Nesse sentido, aborto é um grande negócio. Fala-se até em três milhões de abortos por ano, no Brasil. E onde são feitos? Em que condições são feitos? Um professor dos mais competentes do mundo, da Universidade de Coimbra, tem afirmado em muitas entrevistas e livros e artigos científicos: “temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a sermos diferentes quando nossa igualdade nos descaracteriza. Por isso, é necessária uma igualdade que reconheça as diferenças, e uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades” http://www.boaventuradesousasantos.pt

 

Tinha medo de Jacó um famoso pistoleiro – Novos problemas surgirão com as pesquisas genéticas, a partir da descoberta do DNA. Afinal, o que é DNA? A ciência médica tem enfrentado um grave problema da modernidade: a obesidade. Crianças e adolescentes estão levando uma vida muito sedentária. Inicialmente, era a televisão com suas mensagens subliminares; agora, é a internet e todas as redes sociais, além, é claro, de uma alimentação sem nutrientes, mas de muita “massa”. A ciência médica enfrenta outro grande problema: a indicação de medicamento. Há uma indústria farmacêutica muito forte e poderosa que a cada dia “inventa” um novo medicamento. Para colocá-lo no mercado, a indústria lança mão, precisa dos médicos. 

 

Que queria lhe matar por muito pouco dinheiro – A indústria, para apresentar algum resultado positivo ao médico, traz estatísticas, gráficos de cura de pessoas que serviram de cobaias, Deus sabe onde. Na realidade, são drogas ultra-lucrativas. A indústria entendeu, demoníaca e sadicamente, que quanto maior o número de pobres e doentes, maiores serão seus lucros. Os pobres, sem plano de saúde, são assistidos pelos governos e a indústria acha mais fácil “corromper” os homens do governo que decidem sobre a liberação de um ou outro medicamento. Os ensaios, as cobaias-humanas, são feitos com autorização dos governos de países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. Há muitas pessoas que se oferecem à indústria farmacêutica com cobaias, recebendo em troca assistência médica e um pequeno “salário”. 

Emengarda morreu – Quando o governo faz campanha para que as farmácias e drogarias só vendam remédios com receitas médicas, na realidade, está obrigando o “consumidor-doente” a comprar um medicamento novo indicado, receitado por um médico – garoto-propaganda da indústria farmacêutica. Só a título de exemplificação: nos Estados Unidos, em média, as pessoas vão em média dez vezes ao médico, por ano. Que mercado maravilhoso! O interessante é que nem sempre essas novas drogas são tão eficazes assim. Existem muitos medicamentos no mercado sem eficácia nenhuma, segundo alguns médicos e químicos, é um placebo. Há mais de 70 mil marcas de medicamentos disponíveis no mercado. Há uma tendência científica de se prolongar a vida por muito mais tempo. Para quê? Alguém já não morreu? A morte é a última coisa que “fazemos” enquanto tivermos vivos; portanto não é o contrário da vida, é uma consequência, para os poetas, como Fernando Pessoa, um encantamento.

 

Foi Jacó quem matou – Nesse sentido, viver é preparar-se para a morte. Numa boa! Para Shakespeare, é a eternização da vida. E por que os médicos insistem tanto em não deixar as pessoas morrerem? Acho legal, bonito, que alguns médicos, hoje, fazem uma especialização em “Cuidados Paliativos” – cuidados para deixar “seu” doente morrer tranqüilo. Hoje, fala-se da ortotanásia – morte natural, sem interferência da ciência, permitindo ao paciente uma morte digna e principalmente sem sofrimento, deixando a doença evoluir. Não confundir ortotanásia com distanásia, ou eutanásia. A ortotanásia não é crime; pelo contrário é recomendada até por algumas igrejas. A Igreja Católica não faz objeção à ortotanásia – direito de morrer bem, sem muito sofrimento – o que não significa aceleração para a morte.


Severino não chora – Darcy Ribeiro, um dia fugiu da UTI e foi para casa. Viveu mais seis meses, fazendo o que queria e gostava de fazer: escrever, ler e conversar. O médico, por decisão própria ou por força de seu juramento, não tem a obrigação nem direito de manter a vida a todo e qualquer preço. É direito do paciente conversar com o médico sobre o tratamento, sobre as alternativas de tratamento, escolher que tratamento deseja. Médico não é Deus! Médico não é gerente da vida! Médico não pode fingir nem mentir que seu paciente vai viver, condenando-o a uma morte lenta, com muitos sofrimentos. Médico e paciente são cúmplices na vida e na morte. Numa boa! Não gosto muito da interferência da família nessa situação, porque os membros da família têm interesses e intenções outras que não a cumplicidade do médico e paciente.

 

Severino chorou - Fala-se tanto em liberdade, de direitos, de respeito à dignidade do outro, mas na hora H é a vontade do médico que prevalece. Acho que isso cheira a sadismo. Antes de morrer, hoje, agora, digo, alto e tom, para quem quiser me ouvir: “Não me ressuscitem! Não me ressuscitem! Não me ressuscitem! Deixem-me morrer em paz!” Preciso de um médico, sim, para me oferecer “cuidados paliativos”. “Quero a ortotanásia!” Para mim, ainda tem um grave problema: todos nós devemos ou deveríamos morrer com os amigos e familiares em volta; nunca num quarto frio de UTI, ou de hospital. Darcy Ribeiro morreu nos braços de Leonardo Boff, um de seus grandes amigos. E o enterro, então, que coisa mais fria! Inventaram uma tal de funerária, de salão fúnebre e tiraram o “morto” de sua casa, de seu aconchego, onde, talvez, tenha vivido a vida inteira. Já disse como quero morrer, mas como vão me enterrar não sou eu que decido, porque morto não decide.