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Em Questão

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Décio Bragança 23/08/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Povo meu, que te fiz eu?  - “Depois da tempestade vem a bonança” – aforismo muito conhecido por todos nós. Semelhante aforismo é dito que para se chegar à Páscoa é preciso passar pela Sexta-feira da Paixão. Isso para dizer que só chegaremos à felicidade e à alegria se experimentarmos profundamente a dor os sacrifícios. Os nossos ancestrais diziam que dinheiro conseguido fácil, desaparece também facilmente. Tradicional e culturalmente, vemos cruzes e crucifixos espalhados em muitos locais públicos e privados. E por quê? Paulo, o apóstolo, nos ensinou que seria vã, inútil, fugaz a nossa fé, caso não tivesse havido a Ressurreição. Não se acredita num homem morto, nem num Deus morto! E por que insistimos tanto em cruzes, em sofrimentos, em cravos, em coroas de espinhos, em chibatadas, em castigos, em punições?

 

Em que te contristei? - O fato é que a felicidade, a alegria, a festa nos incomodam muito. Não gostamos principalmente da felicidade dos outros, da alegria dos outros, da festa dos outros. A minha felicidade, pensamos e desejamos, depende diretamente da desgraça dos outros. Quanto mais infeliz, mais pobre, mais doente, mais desgraçado for o outro, maior o meu prazer. Como somos sádicos! Erich Fromm (1900 – 1980) ensinou que se desejássemos a nossa própria felicidade com a mesma garra, energia, força, gana com que desejamos a desgraça do outro, já teríamos sido felizes.

 

Por que à morte me entregaste? - Como somos intolerantes! Não queremos ser tolerantes! Decretamos ódio aos negros, aos índios, aos gays, aos pobres, aos diferentes, mas criamos ídolos de barro, de pano, de ouro. Proclamamos raiva aos corruptos, aos corruptores, aos ladrões do povo, mas aceitamos tudo aquilo que nos beneficia. Gritamos contra todos os crimes descobertos e investigados, mas escondemos nossas sonegações de impostos, depósitos no exterior, evasão de divisas, ajeitamentos ilegais, compramos produtos contrabandeados, mesmo que sejam de valores insignificantes. Não é o valor que determina ser ou não crime, pecado. Serei prostituta me vendendo por R$1,99 ou U$1.000.000, como no filme “Proposta Indecente”.

 

Em que foi que eu te faltei? - No filme, um casal enfrentando dificuldades financeiras resolve tentar a sorte em Las Vegas – cidade das luzes, cores, sons, jogatinas, prostituição, drogas... Lá o casal, conhece um milionário que oferece um milhão de dólares ao marido para permitir que sua mulher – muito linda, interpretada por Deni Moore – vá para cama com ele por apenas uma noite. De imediato há um choque por parte do casal, mas tal proposta significava o fim dos seus problemas. E assim foi feito! E as consequências? E a consciência? E os valores éticos? Damos de ombro, olhamos de soslaio e pensamos: “Que que tem: lavou fica novo, fica limpo!”

 

Tu plantaste a lança em mim - No mundo moderno mercantilizado, globalizado, escolhemos um novo deus: o mercado e tudo virou mercadoria. E como mercadoria tudo poderá ser negociado, superfaturado, liquidado, estocado, especulado, fraudado, falsificado, contrabandeado. Escolhemos um deus sem Sexta-feira da Paixão, sem cruz. Por isso, não há razões para remorso, arrependimento, porque o mundo é dos espertos, dos mais fortes e mais ricos, dos mais poderosos e impostores e opressores. Escolhemos um deus sem vitória, sem ressurreição, um deus sem chagas, sem coroa de espinhos. Daí, o individualismo extremado, o consumismo sem controle.

 

Tu preparaste a cruz para o teu Rei! - Vivemos, sim, escravizados. Nossas algemas são as regras do mercado, as mãos invisíveis, mas que nos colocam atrás das grades. É a famosa lei de oferta e procura. Somos escravos por opção. Somos servos por opção. Não gostamos da liberdade e não queremos a libertação. É uma escravidão cruel sem grandes campos de concentração, sem câmaras fotográficas e de filmes espalhadas por todos os cantos, recantos e encantos. Somos escravos sem saber que o somos.

 

Tu me flagelaste - Não há caminhos abertos para a libertação. É preciso abri-los. Obrigatoriamente, o primeiro passo será a consciência de que realmente estamos presos, algemados, encarcerados, semelhante a um medicamento que só poderá ser ingerido após um diagnóstico preciso. Aí, a primeira questão: temos consciência – diagnóstico – de escravidão – doença? Será que queremos a libertação – medicamento e cura?

 

Entregaste o próprio Rei! - Não há modelos. É preciso criá-los. Para muitos, as filosofias e as doutrinas de Jesus Cristo são suficientes. Para outros, tantos outros como Buda, Confúcio, Lao-Tzé, Mohammed Maomé, Allan Kardec, além dos mais atuais como Madre Teresa, Chico Xavier, Chico Mendes, Mandela, Luther King, Gandhi... são suficientes. O problema e o mistério dos modelos perduram, porque uma vida liberta não poderá ou não usa uma linguagem exata, precisa, objetiva, como se faz com a linguagem matemática. “Há mais razões, muito mais razões, que a razão desconhece!”

 

Que mais podia eu ter feito? - Além disso, há muitíssimas interpretações de uma mesma mensagem doutrinária. Segundo o professor e teólogo Ivan Illich (1926 – 2002), são 1.500 interpretações, 1.500 denominações, 1.500 facções, 1.500 cisões, derivadas de um mesmo livro: a Bíblia Sagrada. Qual dessas interpretações é a verdadeira, qual é realmente inspirada pelo Espírito de Deus? Pior ainda é que as muitas interpretações se contradizem e, muitas vezes, produzem até conflitos como os que acontecem, por exemplo, na Irlanda.

 

Em que foi que eu te faltei? - Só para se ter uma rápida noção, vejamos as denominações cristãs, em Uberaba: Igreja Católica Apostólica Romana com sua Arquidiocese e suas muitas paróquias, Igreja Metodista,

Associação Evangélica Metodista Renovada da Segunda Região, Espiritismo com suas muitas casas, grupos e centros, Congregação Cristã, Testemunha de Jeová, Igreja Evangélica Assembleia de Deus, Igreja Batista, Igreja Batista Regular Maranata, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Messiânica Mundial do Brasil, Igreja Metodista Wesleyana, Igreja Presbiteriana, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Batista Independente, Sal da Terra... Claro, não devo ter me lembrado de todas. A verdade é que a humanidade sempre criativa, para atender aos próprios interesses e intenções, inventou as muitas teologias: teologia da libertação, teologia da riqueza, teologia da prosperidade... O que estamos fazendo com os nossos irmãos? O que estamos fazendo com nós mesmos? O que estamos fazendo com Deus?