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Em Questão

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Décio Bragança 30/08/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Tenho esperado este momento – Se fizermos uma pesquisa bem apurada sobre a esperança de um Salvador, um Redentor, um Libertador, vamos encontrar textos em Tácito, Ésquilo, Virgílio, Platão, Sócrates, que viveram antes de Cristo. Isso para dizer que a humanidade sempre desejou um Salvador, ou Redentor, ou Libertador, mesmo depois da vinda de Cristo. Vale dizer também que a humanidade nunca perdeu a esperança de uma vida mais feliz, mais verdadeira, mais bela, mais boa. Isso mesmo, mais boa!

 

Tenho esperado que viesses a mim – Falando em tempo, queiramos ou não, acreditemos ou não em Jesus Cristo, vivemos, aqui, com o tempo dividido em duas eras: AC – Antes de Cristo – e DC – Depois de Cristo. Isso para dizer que, mesmo que sejamos ateus, Cristo é divisor de águas, do tempo, da história. Sua vida, paixão, morte e ressurreição marcaram a vida dos povos e das nações.

 

Tenho esperado que me fales – Uma história de morte de um homem sempre traz muita comoção. Caso essa morte seja provocada com muito sangue, a comoção é ainda muito maior, como foi o caso de Jesus Cristo. Basta assistirmos ao filme de Mel Gibson – um verdadeiro linchamento durante duas horas. Quantos suspiros e ais da plateia. Claro, toda vida tem um início, um tempo de permanência e a morte. Para alguns estudiosos e poetas, a morte é o coroamento da vida, é a eternização da vida.

 

Tenho esperado que estivesses assim – Vivemos, hoje, momentos de crises morais e temos necessidade da restauração moral – ódio ao mal e amor ao bem. O mal possivelmente é a regra e o bem, a exceção. Não é fácil ser bom, fazer o bem! Talvez, não tenhamos tanta força para resistir ao mal, como se fosse uma doença contagiosa sem vacinas e sem remédios. Vivemos, não por acaso, porque tudo é construído, a erotização absoluta da sociedade, a corrupção da política, a exploração comercial, a prostituição generalizada, o consumo sem controle, porque tudo também mercadoria.

 

Eu sei bem que tens vivido – A saúde tem preço! A educação tem preço! A beleza tem preço! A justiça tem preço! O amor tem preço! Tudo é construído e também essa quase ruína da humanidade foi construída e consentida. “A desgraça dos outros, de muitos outros, é a felicidade de tantos outros”. Isso para dizer que a desgraça de muitos traz bons lucros e dividendos para outros. Basta observarmos atentamente todas as guerras. A hegemonia dos impérios e de todos os países em todos os tempos nasceu e nasce de guerras. Existe desgraça maior do que guerras?!

 

Sei também que tens chorado – Um filho é uma opção de um homem e de uma mulher. Costumo brincar com meus alunos que é feito na cama, no chão, na relva, na praia, em todos os lugares, mas um filho tem de ser feito na mesa, tendo um homem de um lado e uma mulher, do outro lado, que analisam, conversam, desejam, querem trazer uma criança ao mundo. Não se admite nascimento de uma criança por acaso, já que, hoje, vivemos no meio de muitas e de todas as informações sobre fecundação, gravidez, parto, não pode nem deve nascimento sem amor.

 

Eu sei bem que tens sofrido – Caso não houvesse nascimentos por acaso, não existiriam abortos, gravidezes precoces, pedidos de exame de DNA para confirmar paternidade, além de muitos crimes, assassinatos de mães, de bebês. Para tanto, é preciso deserotizar a sociedade. Isso não significa que sexo não seja bom, prazeroso, saudável, necessário, gostoso.

 

Eu sei bem o que me dizes – É preciso que entendamos as duas distintas funções do sexo: a procriação e o prazer. Com o nível de informação da sociedade atual, o nascimento de um filho é um ato livre de um homem e de uma mulher – cocriadores de Deus! Tanto o homem quanto a mulher, conscientes de sua responsabilidade, constantemente devem se questionar: eu desejo, eu quero ser pai? Ser mãe? Eu posso ser pai? Ser mãe? Eu devo ser pai? Ser mãe?

 

Ainda que nunca me fales – Em todas as situações da vida, em especial a do nascimento de um filho, passam por esta decisão: eu quero – eu posso – eu devo. Nem sempre o que eu quero, eu posso fazer ou devo fazer – nos ensina o professor Cortella. Tudo nasce, sim, de um desejo. O desejo é objeto profundo da Psicologia, dos estudos e pesquisas psicológicas, antropológicas, ontológicas, de todas as ciências. A possibilidade de realização do desejo é objeto profundo do Direito, dos estudos e pesquisas jurídicas, legais, legítimas, de todas as ciências. O dever é objeto profundo da Ética, dos estudos e pesquisas filosóficas, teológicas, de todas as ciências.

 

Eu sei bem o que tens sentido – Quanta alegria e felicidade de pais que possam dizer: Filho, você foi desejado, querido, amado antes de sua concepção. Lembro-me sempre do FIAT de Deus ao criar o mundo e do FIAT de Maria ao aceitar ser a mãe de Jesus. O FIAT traduz plena e fielmente a decisão de eu quero – eu posso – eu devo. É o consentimento voluntário e a cooperação livre com a responsabilidade de construir, de criar, de viver. Todo FIAT é um misto do divino e do humano, ou é o máximo do humano no divino.

 

Ainda que nunca me reveles – Pensando assim, imaginemos o mistério do Natal. Deus se humilha e pede consentimento de uma mulher para se fazer homem, para se fazer carne e habitar entre nós. O infinito se faz finito, o divino se faz humano. Na Páscoa, entendo que o processo é inverso: o homem se converte e se une a Deus. Talvez, por isso é que aqui, no Ocidente, Natal e Páscoa sejam datas tão importantes – momentos de meditação, de libertação. É feriado para crentes e ateus!

 

Eu te levo em meus braços – Essas datas, envolvidas em aspectos comerciais, mercantilistas, consumistas, ficam esquecidas e separadas de sua verdadeira intenção e ou finalidade. As igrejas ocidentais, cristãs, não conseguem resistir ou fazer resistência a tantos apelos publicitários dessas datas.

 

Tenho andado ao teu lado – Escrever ou falar sobre essas datas festivas parece ser vozes no deserto, sinos que tocam e ninguém ouve. “Pior cego é o que não quer ver, pior surdo é o que não quer ouvir”. Claro, essa cegueira e surdez são construídas social e culturalmente. As cores e luzes e sons das festas obscurecem propositalmente a nossa capacidade de ver e de ouvir – nossos caminhos de libertação.

 

Olhe pra cruz - Não nos foi ensinado ler nas entrelinhas, ouvir o não dito – voz do silêncio – ver o que não está explícito. Isso significa que ficamos na superfície, na tona das palavras. Daí, a mediocridade, a futilidade, as aparências, o mau caratismo, a mercantilização, a erotização, o imediatismo, a fugacidade, a celeração, a aceleração dos momentos.