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Em Questão

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Décio Bragança 06/09/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Já podeis da Pátria filhos ver contente a mãe gentil - Os químicos, depois principalmente de Antoine Laurent de Lavoisier (1743 – 1794), nos ensinam que “nada se perde, tudo se transforma”. Isso para dizer que nós, humanos, não criamos os elementos e os fenômenos da natureza, da química e da biologia e da física. O que fazemos são combinações, concentrações, dispersões desses mesmos elementos e fenômenos. Trocando em miúdos: o escultor dá a forma ao mármore, ao barro, à pedra, mas não foi ele que os criou.

 

Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil - Nesse caso, o escultor concebe, cria, inventa a forma, mas não concebeu, não criou, não inventou a substância, a matéria, a coisa. Nesse sentido, podemos entender que Deus é o único criador; e nós, co-criadores. Nós somos “aproveitadores-artistas”, pesquisadores, cientistas de uma obra que não é nossa. Esses “aproveitadores” vão dando novos rumos, abrindo novos caminhos, combinando elementos para o bem da própria humanidade. “Sou para mim e sou para a humanidade, sou para os outros”. Esses “aproveitadores” vão se deixando em suas obras que vão sendo aperfeiçoadas, aprimoradas, modificadas, melhoradas por novos “aproveitadores”    

 

Brava gente brasileira! Longe vá temor servil - A vida humana é uma corrida de revezamento. O primeiro, por responsável por si e por todos os outros, trabalhe, se esforça, luta, conquista e passa o “bastão” a um outro que faz a mesma coisa que o primeiro. E assim por muito tempo, até a linha de chegada. Quem é vitorioso? Todos. Nesse sentido, há quem defenda o fim do direito autoral, o fim do Copyright. A ONU – Organização das Nações Unidas – propõe o Copyleft.

 

Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil - No Natal, que se aproxima rapidamente, a imagem da manjedoura nos é instigante. O Menino-Deus não tem morada? Deus não tem morada? Deus não deveria morar em tudo que Ele mesmo criou? O fato é que nenhum homem e nenhuma mulher, naquele tempo, deu morada, ofereceu um lugarzinho para uma mulher que estava na hora de parir, dar à luz um Menino. E se essa cena acontecesse hoje e aqui? Qual de nós ou quem de nós daria guarida ao casal? Acreditamos no outro? Quem é o outro? É o inferno? É o céu?

 

Os grilhões que nos forjava da perfídia astuto ardil - Todo filho é um milagre e os seus pais sabem disso. O interessante é que se os pais quisessem agradecer a Deus tamanho presente, normalmente, levantariam a cabeça e olhariam para cima, para o céu. Na hora do nascimento, os pais agradecem, sim, a Deus, mas abaixam a cabeça e os olhos para o filho. Nesse sentido, o céu, Deus, a vida estão abaixo, debaixo, embaixo.

 

Houver mão mais poderosa zombou deles o Brasil - A ideia de família também é construída social e culturalmente. Por isso, em lugares e tempos diferentes, a ideia de família vai se modificando, mas em nenhuma das concepções exclui-se o amor. Família é amor. Criança é amor independentemente das ideias ou concepções de família. Não existe filho adotivo, mas uma família que adota uma criança. Toda família é adotiva.

 

Não temais ímpias falanges que apresentam face hostil - Adotar independentemente de todas as noções de família é um FIAT: eu quero – eu posso – eu devo. Mesmo sob o ponto de vista biológico, todos os filhos têm de ser adotados. Ser pai ou ser mãe biologicamente não responde ao FIAT – FAÇA-SE. Cada um de nós sabe que se, hoje, somos “alguma coisa” é porque fomos adotados, fomos amados, fomos cuidados, mesmo sem uma família biológica. O que não se admite é uma criança sem amor e sem cuidados.

 

Vossos peitos, vossos braços são muralhas do Brasil - Uma criança sem amor e sem cuidados provavelmente não será um cidadão consciente, ético, participante de uma humanidade melhor. Claro, há, felizmente, muitas exceções. Uma semente lançada em terreno árido, sem umidade sem adubo, sem nutrientes e sem cuidados, no meio de espinhos e ervas daninhas dificilmente conseguirá germinar, brotar, crescer, dar frutos. Claro, há, felizmente, muitas exceções. A vida sempre teima em aparecer. “A vida nasce até na pedra”. “A vida está onde menos se espera”.

 

Parabéns, ó brasileiros! - Certa vez, um médico muito famoso, já falecido, Dr. Adib Jatene, em palestra em Uberlândia, em 1992, não me esqueço, disse que toda cirurgia é urgente. Caso contrário, o paciente se cura ou morre. Afirmou ainda que optaria sempre pela cirurgia quando houvesse grande risco de morte. Ele se referia já na década de 70 a muitas cesarianas desnecessárias. Se a cesariana não fosse urgente, urgentíssima, todas as crianças nasceriam naturalmente. Isso para dizer que a vida é essa força, essa energia incontida. A vida está sempre onde não se espera encontrar.

 

Já, com garbo varonil - De certa forma, estamos, não por acaso, hospitalizando cada vez mais a sociedade, porque também estamos cada vez nos sentindo doentes e queremos ser imortais, senão eternos, como deuses. Da mesma maneira, estamos, não por acaso, escolarizando cada vez a sociedade, porque também estamos cada vez mais nos sentindo ignorantes, estúpidos, idiotas, com todas as oportunidades e chances de um bom emprego de portas e janelas fechadas. No fundo, não queremos cuidar de nossos doentes e de nossas crianças.

 

Do universo entre as nações - Se os hospitais fazem isso por mim, por que não deixar que os hospitais cuidem de nossos doentes? Se as escolas fazem isso por mim, por que não deixar que as escolas cuidem e eduquem as nossas crianças? Se os asilos fazem isso por mim, por que não deixar que os asilos cuidem de nossos idosos? Se as creches fazem isso por mim, por que não deixar que as creches cuidem de nossos bebês, substituindo o papel, a função, a missão de nossos pais e mães? Vale dizer que nos importamos muito pouco com o cuidado que devemos ao outro. Daí, jogamos toda a responsabilidade para o Estado ou para a iniciativa privada.

 

Resplandece a do Brasil - Houve um tempo em que se nascia em casa, na praia, nas fazendas, nas florestas, na manjedoura. Depois, a partir da década de 30, com a chamada “Medicina Científica”, usando um discurso publicitário eficaz, os nascimentos – os partos – começam a acontecer em hospitais, na solidão dos hospitais. Da mesma forma com a morte. Houve um tempo em que se morria em casa, rodeado de muitos familiares e amigos. Depois, vieram as UTI’s e a morte acontece na mais absoluta solidão.

 

Resplandece a do Brasil - Isso não significa querer voltar ao passado. A vida e a morte – os extremos – hoje, acontecem em absoluta solidão. Há tentativas muito caras e dispendiosas de parto natural em domicílio e uma pequena UTI móvel em domicílio. Alguns planos de saúde já preveem essa possibilidade – o que é muito bem! Fazendo parênteses para contar algo pessoal: minha mãe teve nove filhos: quatro em casa e cinco em hospitais. Não há diferenças ou grandes diferenças entre uns e outros, porque todos, parece-me, bastante saudáveis. Minha mãe morreu aos 96 anos, viúva, com um punhado de filhos, de genros, noras, netos, bisnetos, em absoluta solidão de uma UTI. Será que ela não gostaria de se ver ou se sentir rodeada de seus familiares, cantando e orando, rindo e contando casos, todos juntos, como costumava fazer e ser em vida?