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Em Questão

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Décio Bragança 13/09/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Sagradas chagas - Estamos desenraizando a família, impessoalizando as relações, coisificando a vida e a morte, desprezando a história, propondo a entrada e a saída pela porta de serviço, nunca pela porta principal. Construímos até velórios para tirar os nossos falecidos de casa. Os mortos estão sendo velados, ficando em sala que nada lhes lembra onde moraram e viveram.

 

Cheio de amor - Nascemos fora de casa, em hospitais, longe do ambiente familiar. Vivemos fora de casa, por causa do emprego em busca do sustento, longe do ambiente familiar. Morremos fora de casa, longe do ambiente familiar. É hora de se perguntar: para que serve uma casa? Para que serve uma família? Casas viraram apenas dormitórios e família, um pequeno grupo de amigos ou, muitas vezes, de inimigos, ou estranhos.

 

Grande ardor - Amor, respeito, dedicação, colo, ombro, aconchego, abraço, cumplicidade, compromisso, carinho, construção ou não de caráter não existem mais ou viraram até mercadoria. Tudo tem um preço. Muitas vezes, o preço é muito alto. E assim vamos construindo a sociedade do ter. vale mais quem tem mais. Vale muito mais quem tem muito mais.

 

Grande dor - A ostentação produz mais crimes do que podemos imaginar. Quanta inveja! Quanto desejo de ter! Quanta ambição! Talvez, a inveja, a ambição – saco sem fundo – sejam o novo modelo, infelizmente, de família, de sociedade.

 

Grande esplendor - A ambição é um desafio à pobreza; o orgulho, um confronto com a humilhação; o poder, a chance de se enriquecer; a fama e o sucesso, apelos mercantilistas. Uma semente boa dá bons frutos da mesma maneira que uma semente má dá maus frutos. As crianças, os adolescentes, os jovens foram essas sementes lançadas, jogadas, plantadas. Portanto, são os efeitos, as consequências dessa semeadura. “Sou o que foi plantado em mim!” Quem planta, por exemplo, corrupção, faz brotar e nascer corrupção. Quem planta justiça, faz brotar e nascer justiça.

 

Olhar potente - “Quem me vê a mim, vê também meu pai”, assim João, o evangelista, nos ensinou. Ninguém pode abraçar ou abraça a quem não conhece ou ama. Palavras e atos se unem ou se reúnem num abraço. “Faço o que digo e digo o que faço”. Daí, a empatia – ser o outro, ser a experiência de ser o outro, sentir o que o outro sente: suas angústias e lágrimas, seus pensamentos e ideais, suas decisões e emoções. Só que isso dá muito trabalho e, como diriam alguns, perde-se muito tempo e tempo é dinheiro.

 

Amor supremo - Tudo é construído, nada existe por acaso. Sempre há tempo de começar e recomeçar, de construir e reconstruir. Daí, a ideia de flexibilidade – que não significa moleza, frouxidão, impotência. Flexibilidade é também decisão de vida. Fazendo uma comparação (gosto muito desta metáfora): você num carro 1.0 na sua mão, andando, dirigindo dentro do que prevê a lei; do outro lado, na contramão um baita caminhão, em alta velocidade. Para que morrer com a lei? Para que morrer com a razão? Vá para a contramão, para o acostamento, para o barranco, para o abismo, mas não se deixe morrer, mesmo tendo a lei do seu lado, toda razão de seu lado.

 

Santo, humilde e poderoso - Etimologicamente, coragem é a síntese do coração acrescido de ação – coração que age ou a ação do coração. Coragem, então, é a síntese de um desejo profundo – eu quero. O problema é que não temos muita clareza do que queremos, dada a enxurrada dos anúncios publicitários, inibidores de nossa vontade, promotores da felicidade e do prazer através do consumo. “Compramos sem necessidade, mas compramos”.

 

Água da graça e da vida - Há momentos na vida em que passamos por crises profundas, existenciais, sempre positivas, porque é nesta hora que se abrem horizontes e perspectivas. Para muitos são momentos de conversão, de cair do cavalo, de tomar decisões, momentos de muitas oportunidades e de revolução, de libertação. Sempre que falo em crises, lembro-me das três tentações de Jesus, depois de quarenta dias em jejum, no deserto. Na vida de Jesus há momentos de muita dor, muito sofrimento, muito sangramentos, sem que fossem necessários: a circuncisão, a agonia no Horto das Oliveiras, a flagelação, o coroamento de espinhos, o caminho do Calvário, a crucificação, a entrada da lança no peito, mesmo depois de morto.

 

Bendito filho - Tudo isso para a vitória, a glória, a ressurreição. Não há vitória sem esforço e luta, sem sacrifícios e empenho. Não há glória sem trabalho e dedicação, sem desânimo e sofrimento. Não há ressurreição sem paixão e morte. Não por acaso, muitos cristãos oram, refletem diante do chamado Precioso Sangue. Não basta fixar-se no sangue, mas é preciso ir além, em busca da ressurreição. “Vã seria a nossa fé, se não houvesse a ressurreição”, porque ninguém acredita num homem morto, pregado na cruz – assim nos ensina Paulo. Vale, então, dizer que as crises, o sangue, as dores e os sofrimentos passam. Caso assim não fosse não teria sentido a vida.

 

Bendita mãe - A gestação, a gravidez e o parto são incômodos, com muitas dores. As mulheres dizem que a dor é suportável, por causa da esperança e do nascimento de uma criança. Essa esperança supera a nossa capacidade de compreensão e entendimento. E muitas mulheres sofrem muito, mas muito mesmo. A alegria e a felicidade de uma nova vida brotada no próprio ventre estimulam novas gestações, gravidezes e partos – libertação.

 

Graça suprema - Nesse sentido, vale a pena a dor e o sofrimento. O que não vale a pena é pararmos à beira da estrada da dor e sofrimentos – isso é masoquismo – isso é escravidão. Muitos de nós não suportamos nenhum senão, nenhuma contrariedade, nenhum sofrimento e nos enchemos de analgésicos, antibióticos, remédios, medicamentos, drogas. Conrad Lorenz, ganhador de Prêmio Nobel, em seu: “Pecados da Modernidade” nos fala e nos ensina sobre o uso desnecessário e permanente de medicamentos.