Busque em todas as seções:
EDIÇÕES ANTERIORES: anteriores

Em Questão

ACESSIBILIDADE: A A A A
Décio Bragança 27/09/2015
Décio Bragança
deciobraganca@yahoo.com.br
Em Questão

Que vivam os mais fortes - Cada homem traz em si mesmo as raízes da cultura do grupo de pessoas ao qual pertence. A conquista de novas terras e ou a invasão de territórios tornam a de muitas pessoas um verdadeiro inferno. Os “conquistadores”, em geral, não admitem a diversidade cultural, primeiramente porque se sentem superiores. A diversidade é sempre muito rica, abrindo perspectivas e caminhos de uma boa convivência.

 

Que vivam os mais bonitos - A história brasileira foi feita por índios, negros e brancos. Os brancos, europeus, se julgavam hegemônicos e por isso desdenhavam a cultura indígena e africana. Claro, se assim não se comportassem, não teriam sido os conquistadores. Assim, praticamente aconteceu o etnocídio dos negros e dos indígenas – o que produziu o enfraquecimento da cultura e da raça brasileira. Os brancos, exploradores e dominadores, mais fortes econômica, bélica e tecnologicamente, criaram um locus de sua prática política.

 

Que vivam os melhores - O Estado e os seus donos detêm o poder decisório, privilegiando os brancos e os ricos, os letrados e os intelectuais, criando bandos de marginais indígenas e negros, que resistiam bravamente contra os usos e abusos do poder. Os interesses e as intenções comerciais dos colonizadores eram buscar a força de trabalho dos ditos inferiores, para manter a cultura colonialista. Para os inferiores, só resta lutar e trabalhar para a sobrevivência. Até hoje, grande maioria dos pobres, de operários, de analfabetos, de presos, de favelados, de trabalhadores braçais é da raça negra, salvo raríssimas exceções. Os exemplos de superação ou de meritocracia – palavra odiosa para manter os privilégios – são exceções.

 

Que vivam os mais saudáveis - O problema é que o ser humano, em todos os tempos e lugares, adapta-se às condições impostas e, de geração em geração, a ideia de inferioridade vai se interiorizando. Isso para dizer que os próprios escravos não se sentem escravos, os próprios pobres não se sentem pobres. O carnavalesco Joãozinho Trinta até teria dito que quem gosta de pobres são os intelectuais, sociólogos e antropólogos. Em geral, a população brasileira acredita que nasceu para obedecer cega, surda e mudamente. E como gostamos de obedecer!

 

Que vivam os mais ricos - Obedecer é não assumir responsabilidades, mais ou menos como acontece numa guerra: a obediência devida. Um soldado na trincheira não pode ser responsabilizado por uma guerra. Simplesmente, obedece, porque não tem poder de decidir: é matar ou morrer. Palavras, nessa situação, como autonomia e liberdade, donos dos passos e do nariz, independência e libertação são palavras jogadas ao vento ou escritas na areia.

 

Que vivam os mais poderes - Antes, por exemplo, da Lei Áurea – a  lei da libertação dos escravos -  houve a Lei do Ventre Livre, a Lei dos Sexagenários. Como ser livre um filho de pais escravos? Como deveria ser uma conversa ou um diálogo entre um pai-escravo e um filho-livre? Se ainda hoje pessoas acima de 60 anos precisam de maiores e melhores cuidados, imaginemos no século XIX! Nesse sentido, liberdade significa morte.

 

Que vivam os mais férteis - Uma conquista amorosa é talvez o maior de todos os prazeres para homens e para mulheres. Vejo a libertação, a autonomia com as mesmas características de uma conquista amorosa! E nós, brasileiros, conquistamos o quê? Conquistamos nossa independência? Nossa libertação dos escravos? Nossa república? Nossa democracia? Tudo isso não são migalhas jogadas fora pelos maiorais?

 

Que vivam os mais inteligentes - Os ricos, os donos das coisas e das pessoas, não precisam lutar pela liberdade ou pela libertação, porque já são livres e ou libertos por si mesmos. Na verdade, não há cordões umbilicais para serem cortados a não ser os criados por eles mesmos. São cordões internos, ao passo que os trabalhadores, em geral, além dos internos ou interiorizados, têm também os externos impostos pelas circunstâncias.  Existe um aforismo de corredor: “Fulano de tal é tão rico, mas tão rico mesmo, que só lhe falta dinheiro”. É preciso maior cordão umbilical? A ganância é um dos cordões mais resistentes do mundo moderno!

 

Que vivam os mais espertos - O Estado com todos os poderes não é dono das pessoas e suas ideias. As pessoas legitimam o Estado. As pessoas antecedem ao Estado. E como há estados ilegítimos! Com a força de leis e de espada, muitos estados se impõem e as pessoas se veem como fora da lei, excluídos e marginalizados. O pior de tudo é que ainda alguns defendem a tese de um Estado forte, cada vez mais forte. Para quê?

 

Que vivam os mais donos - Vemos, hoje, um Ucrânia dividida como já o foi uma Iugoslávia que desapareceu do mapa. Vemos, talvez, a maior imigração de africanos e árabes da história da humanidade. Uma parte dos europeus a favor da fora e do fechamento de fronteiras; outra a favor da liberação dos limites geográficos. Plebiscito para lá, plebiscito para cá. Isso é uma ameaça de uma nova guerra mundial? Pensando em termos individuais: algum filho escolhe viver livremente longe de seus pais e de seu país? Outro filho escolhe viver sob as asas dos pais e sob a tutela do governo de seu país? Quem está certo?

 

Que vivam os mais senhores - A questão será sempre a prioridade de quem tem razão ou razões. Quem tem razão tem poder? Ou deve exercer o poder? Um dia, alguém perdeu a vida, procurando as razões de viver. Imaginemos a seguinte situação: um carro altamente potente vem na contramão numa rodovia. O que fazer? Fugir para o acostamento? Jogar-se no barranco ou no abismo? Ou morrer com a razão de estar na sua mão certa? Que maravilha! No dia seguinte a manchete de jornal: “Morreu na sua mão. Morreu com a lei de seu lado. Morreu porque veio um carro na contramão.”